Tetravó da noiva de D. Dinis foi a 'Cinderela da Silésia'. Uma menina que nasceu muito pobre, ficou órfã e herdou tudo de um multimilionário 'avarento'
A história da Condessa Johanna Gryzik é entendida como um 'conto de fadas' real da Revolução Industrial. A noiva do filho de D. Duarte de Bragança, Anna Schaffgotsch descende, daquela que foi a mulher mais rica da Alemanha do século XIX, que nasceu na extrema pobreza mas foi dona da mais brilhante, e diga-se mirabolante, história de ascenção social.
D. Dinis de Bragança, Duque do Porto, com a Condessa Anna Schaffgotsch von und zu Kynast und Greiffenstein
Parece uma história saída de um conto de fadas, mas é real. Mete castelos gigantescos decorados ao estilo romântico plantados no meio de frondosas florestas. Inclui nobres de alta linhagem europeia. Uma plebeia muito pobre e depois muito, mas mesmo muito rica. Até 1945 tinham a segunda maior fortuna da Alemanha. Os portugueses já ouviram falar de Anna Schaffgotsch von und zu Kynast und Greiffenstein, de 24 anos de idade, sabem que é Condessa e Baronesa e tem um nome difícil de se ler e pronunciar (o que já deu azo a muitas piadas de humoristas e comentários do cidadão comum). Sabem-no especialmente porque ficou noiva esta semana do Infante D. Dinis, duque do Porto, o mais novo dos três filhos dos Duques de Bragança. E que o casamento será em Lisboa a 16 de outubro de 2027, acredita-se que no Mosteiro dos Jerónimos, mas ainda sem confirmação oficial.
O que não sabem, mas a 'The Mag, by Flash!' descobriu e revela, é que Anna Schaffgotsch descende de Johanna Gryzik, uma menina que nasceu na pobreza extrema, era filha de um pai mineiro que faleceu nas minas quando ela tinha apenas 3 anos, e que depois, para sua sorte, foi abandonada pela a mãe e acabou órfã. Foi acolhida pela empregada de um empresário muito rico chamado Karl Godulla, que ao ver a criança a 'adotou', mas que em 1848 faleceu subitamente de cólera quando a menina tinha apenas 6 anos de idade. E redigiu um testamento que deixou boquiaberta a sociedade prussiana e austríaca de meados do século XIX e furiosos meia dúzia de familiares deserdados, mas sobre isso já falaremos.
A história de Johanna Gryzik (que aos 16 anos se casa e se torna condessa von Schaffgotsch) é uma das narrativas de ascensão social e financeira mais extraordinárias da história europeia, justificando plenamente o cognome que lhe deram de 'Cinderela da Silésia'. Contra todas as probabilidades, Johanna transformou-se na mulher mais rica da Alemanha e na arquiteta do colossal império financeiro da nobre família Schaffgotsch. Uma história que mais parece um verdadeiro conto de fadas real da Era da Revolução Industrial, daqueles que nos habituámos a ler somente nos romances.
Ficou conhecida como a 'Cinderela da Silésia' e sobre ela já se escreveram inúmeros livros, já se fez um filme e até um documentário. A sua vida inspirou lendas locais na Silésia, sendo recordada como um exemplo invulgar de mobilidade social e filantropia durante o auge da Revolução Industrial. Depois de ter nascido em 1842 em Poremba (na Silésia, região da atual Polónia), no seio de uma família camponesa e operária extremamente pobre, passou, durante os seus 68 anos de vida, da pobreza extrema para se tornar na mulher mais rica e influente do Império Alemão. O pai mineiro faleceu nas minas quando ela tinha apenas 3 anos e, sem recursos para a alimentar, a mãe abandonou-a, deixando-a aos cuidados de Emilia Lucas, uma empregada doméstica na casa de Karl Godulla, um magnata da indústria mineira, homem solitário, frio, implacável e avarento, conhecido como 'Rei do Zinco'.
MENINA POBRE HERDA A MAIOR FORTUNA DA PRÚSSIA
Só que Karl Godull afeiçoou-se a Johanna, que, com a sua presença e inocência, conquistou o coração do empresário, que lhe garantiu uma educação privada de excelência e a passou a tratar como se fosse sua filha. Em 1848, contudo, Karl Godulla morreu subitamente de cólera. Pouco lamentada a sua morte, por ser um homem pouco ou nada simpático, eis que ao abrir-se o seu testamento o país ficou em choque e foi assunto bastante comentado nos jornais: o magnata ignorou todos os seus parentes biológicos e nomeou Johanna, de apenas 6 anos, como sua herdeira universal. Da noite para o dia, a pequena órfã tornou-se proprietária de quatro minas de zinco e participações em outras dezoito. Ficou também dona de dezanove minas de carvão em plena exploração e de milhares (leu bem: milhares) de hectares de terras e ainda de fundições em pleno funcionamento na região da Silésia e uma fortuna líquida incalculável.
Devido a ameaças de rapto por parte dos familiares furiosos de Karl Godulla, Johanna teve de ser escondida num convento fortificado em Breslau sob proteção constante até atingir a maioridade. Com 16 anos de idade foi formalmente nobilitada pelo rei Frederico Guilherme IV da Prússia com o título 'von Schomberg-Godulla'. Com o estatuto nobre oficialmente reconhecido, ela já podia casar-se com um membro da alta nobreza sem que isso fosse considerado uma 'união desigual', ou casamento morganático. Apesar de ser a mulher mais rica da Alemanha, Johanna enfrentava a rejeição da elite aristocrática devido às suas origens camponesas. Para a alta nobreza, ela era apenas a "filha de um mineiro" que tivera sorte, anátema que o rei Frederico quis cortar pela raiz.
Meses depois casou-se com o Conde Hans Ulrich von Schaffgotsch, um nobre que pertencia a uma das dinastias mais antigas e respeitadas da Silésia. Embora a família do noivo possuísse terras e prestígio militar e político há mais de 500 anos, não tinha a liquidez financeira nem o império industrial que Johanna herdara de Karl Godulla. O casamento entre Johanna Gryzik e o Conde Hans Ulrich von Schaffgotsch, os tetravós de Anna Schaffgotsch, futura mulher do Infante Dom Dinis, foi celebrado a 15 de novembro de 1858 e foi classificado como um dos eventos sociais e económicos mais estratégicos da Europa do século XIX. Esta união resolveu um grande dilema da época: fundiu o dinheiro novo da industrialização com o prestígio da velha aristocracia.
E ao contrário do que acontecia frequentemente na época, em que os bens das mulheres eram totalmente absorvidos ou delapidados pelos maridos, Johanna manteve uma participação ativa na estratégia dos seus negócios. A empresa familiar, a Gräflich Schaffgotsch'sche Werke, industrializou e modernizou a extração de carvão e a produção de zinco a uma escala sem precedentes, garantindo que a fortuna deixada por Karl Godulla continuasse a crescer de forma sustentada ao longo de várias gerações, multiplicando a fortuna original e tornando-se os von Schaffgotsch na segunda família mais rica da Alemanha.
Além de gerir o império que herdara ao lado do marido, Johanna Gryzik nunca esqueceu as suas origens e foi uma grande filantropa na sua época. Destacou-se como uma grande benemérita ao construir bairros operários modelares, escolas, igrejas e hospitais. Como residência, o casal reconstruiu o Palácio de Koppitz, transformando-o numa propriedade deslumbrante repleta de lagos e obras de arte, digna do seu cognome de 'Cinderela', palácio que transformou num centro cultural regional.
CASAL À PROVA DE BALA. 50 ANOS A GERAR SÓ RIQUEZA
Ao contrário de muitos casamentos combinados da época, a união de Johanna e Hans Ulrich provou ser um enorme sucesso, tanto a nível pessoal como financeiro. O casal esteve junto durante mais de 50 anos, até à morte de Johanna em 1910, e teve quatro filhos. A união foi extremamente feliz e bem-sucedida e Johanna provou ter um faro comercial brilhante. O casal uniu as minas e as terras de Johanna ao nome e influência política de Hans Ulrich e fundou a empresa Gräflich Schaffgotsch'sche Werke, expandindo negócios de forma agressiva, investindo em novas tecnologias de extração de carvão e fundição de zinco.
Juntos, transformaram uma antiga propriedade rural no deslumbrante Palácio de Koppitz, decorado com uma opulência que refletia a sua imensa riqueza e onde recebiam a mais alta nobreza europeia. A fascinante história de Johanna Gryzik e a ascensão da família Schaffgotsch inspiraram diversas obras literárias, biografias históricas e romances na Europa Central, especialmente na Polónia e na Alemanha. O seu percurso de órfã a magnata industrial é frequentemente tratado na literatura regional como um mito fundador da Silésia moderna. Um desses livros é 'Kopciuszek ze Slaska' ('A Cinderela da Silésia'), escrito por Janusz Oszytko. É o romance biográfico mais popular sobre Johanna, idealizado para aproximar o público geral da sua infância difícil e do subsequente casamento de conto de fadas.
Antes da Primeira Guerra Mundial, os Schaffgotsch eram apontados como a segunda família mais rica da Alemanha e uma das maiores potências económicas da Europa Central. Ao contrário de outras casas nobres que dependiam exclusivamente da agricultura, os Schaffgotsch adaptaram-se à Revolução Industrial. Tornaram-se magnatas da exploração de carvão, indústrias metalúrgicas de zinco e fábricas de vidro na Silésia. Por volta de 1925, estimava-se que apenas um dos ramos da família detinha um complexo patrimonial colossal de aproximadamente 27 668 hectares de terra, além de palácios imponentes (como o Palácio de Koppitz, reconstruído por Johanna e Hans Ulrich) e estâncias termais exclusivas.
FOI-SE O DINHEIRO, FICARAM TÍTULOS E PALÁCIOS
Com o desfecho da Segunda Guerra Mundial e a consequente redefinição das fronteiras europeias, a região da Silésia foi integrada na Polónia. Ao abrigo dos decretos pós-guerra, as propriedades, indústrias e palácios dos Schaffgotsch foram totalmente confiscados pelo Estado polaco comunista. A família foi expulsa das suas terras ancestrais e forçada a refugiar-se maioritariamente na Áustria e na Alemanha. Apesar da perda do seu império industrial e das terras na Silésia, a família preservou os seus títulos históricos, a sua herança cultural e continuou ligada à gestão de património na Áustria e na Alemanha.
É precisamente do ramo austríaco desta histórica e outrora poderosíssima dinastia que provém a Condessa Anna Schaffgotsch. A sua família mantém atualmente a propriedade de marcos históricos emblemáticos, como o Castelo de Niederleis, uma magnífica estrutura medieval localizada a norte de Viena, onde cobra 12 euros por visitante e onde organizam casamentos. Com o dinheiro angariado, além de obter um rendimento parta a família, os pais da Condessa Anna Schaffgotsch, o Conde Maximilian e a Condessa Marie-Assunta, estão aos poucos a recuperar partes do palácio que ficaram destruídos na Segunda Guerra Mundial.
A relação entre a Condessa Anna Schaffgotsch e Johanna Gryzik (a 'Cinderela da Silésia') é uma linha direta de sangue e história. Anna é tetraneta de Johanna, o que significa que a jovem austríaca que se vai casar com o infante Dom Dinis de Bragança carrega o património genético e o apelido da órfã que protagonizou a maior história de ascensão social do século XIX na Europa.
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