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Tudo o que se passou dentro do carro de Eduardo Cabrita: da lotação esgotada ao motorista acelera

O despacho que acusa o motorista do ex-ministro da Administração Interna deixa muitas dúvidas no ar: Por que raio o BMW ia a abarrotar de gente quando num dos três carros da “comitiva acelera” só ia uma pessoa? Será que a velocidade que foi anunciada de 163 Km/hora quando se deu o acidente, precedido de uma travagem, é real?
João Bénard Garcia
João Bénard Garcia
16 de dezembro de 2021 às 23:46
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Algo de estranho se passou no BMW onde seguia o ex-ministro Eduardo Cabrita, naquela fatídica hora de almoço do dia 18 de junho de 2021, que ditou a morte por atropelamento de Nuno Santos, o funcionário da empresa Arquijardim, que apareceu inadvertidamente, saído do separador central, a atravessar a faixa de rodagem da A6.

Quem lê o despacho de acusação do Ministério Público de Évora, a que a 'The Mag' teve acesso, só se pode interrogar por que motivo, dos três carros que seguiam a alta velocidade na comitiva ministerial, só a viatura de Cabrita ia com a lotação máxima, e ainda por cima num dia de verão. E questionar-se ainda, por que razão uma das três viaturas, por sinal a terceira, só tinham um ocupante, Joni Ramos Francisco, assessor do ex-ministro da Administração Interna.

Pela descrição feita pelas quatro testemunhas que seguiam no BMW conduzido pelo motorista Marco Pontes, de 43 anos, o ex-ministro Eduardo Cabrita seguia viagem a meio do banco traseiro da viatura, ensanduichado entre o assessor David Rodrigues à sua esquerda e o seu segurança pessoal Rogério Messias Meleiro do lado direito. À frente, no lugar do pendura, viajava Paulo Machado, oficial de ligação da GNR no MAI. Será que iam mesmo cinco pessoas no veículo ou a contagem final foi um erro de simpatia da procuradora?

CABRITA, O "ACONCHEGADINHO"

Na segunda viatura, que apesar de circular com uma velocidade excessiva, mas na faixa do lado direito da autoestrada, como manda o Código da Estrada, vinha o motorista José Corrente, o chefe do Corpo de Segurança da PSP Nuno Mendes Dias, e o segurança da comitiva Leandro Mendes, ficando alegadamente dois lugares vagos para quem da comitiva lá quisesse viajar…

A situação torna-se ainda mais estranha quando, na maioria das imagens televisivas, nunca se vê um ministro, ou um outro qualquer titular de cargo público, com a viatura totalmente lotada.

Das duas, três: ou o ex-ministro Eduardo Cabrita gostava de viajar aconchegado, ou é mentira ou houve desorganização na distribuição pelos carros no momento em que a comitiva abandonou a Escola Prática da GNR em Portalegre. Existiu, pelo menos, desproporção na distribuição pelos três carros e isso é estranho.

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A VELOCIDADE REAL FOI?...

Mas, mais grave do que a viatura seguir com a ocupação lotada, ou não, são os dados referentes à verdadeira velocidade a que seguia o automóvel conduzido pelo motorista Marco Pontes e que poderá não ser bem aquela que foi tornada pública: os famosos 163 Km/hora.

No despacho de acusação, que imputa a Marco Pontes a prática do crime de homicídio por negligência, é descrito de forma sucinta, sem pormenores técnicos precisos, que certamente estarão nos relatórios apensos ao processo, que "os peritos da universidade do Minho aferiram que a velocidade instantânea (do BMW onde seguia Eduardo Cabrita) se situou entre os 155 Km/hora e os 171 Km/hora, sendo os 163 Km/hora a velocidade mais provável".

Ora, é aqui que se levanta uma dúvida quanto à velocidade real no momento do impacto do BMW do ex-ministro com o corpo da vítima Nuno Santos, que ilegitimamente atravessava a via, numa zona não sinalizada na autoestrada. 

Acontece que o motorista Marco Pontes se trai ao, no seu depoimento, dizer que, numa fração de segundos viu o homem aparecer na via, que travou e buzinou e relata uma sequência de ações da vítima que demorariam tempo, vários segundos mesmo, enquanto o condutor travava a marcha.

EXCESSOS... OU TALVEZ NÃO

No despacho de acusação, está descrito pelo motorista, agora acusado, que viu Nuno Santos sair do separador central, entrar apeado na faixa de rodagem esquerda de costas para a sua viatura. Afirma que travou (ignora-se com que intensidade e durante quanto tempo) o BMW. Que utilizou a buzina. Que o peão parou. Que hesitou uns segundos. E depois fugiu para o lado esquerdo, para se resguardar no separador central, tendo Marco Pontes desviado o carro ministerial para a faixa direita da via, não conseguindo, todavia, evitar o embate fatal.

Esta travagem, cuja distância se desconhece com pormenores neste despacho, implica que Marco Pontes dificilmente circulava apenas a 163 Km/hora, antes de se ter apercebido do atravessamento da vítima: se travou e teve tempo de buzinar, se a vítima ia de costas para o seu carro, se se voltou, hesitou, rodou para o lado direito e tentou correr para o separador central, mesmo que a travagem tenha sido de alguns segundos, numa viatura topo de gama, implica que a velocidade anterior ao momento do impacto seria superior à do momento do embate que foi tornada pública. Mas isso caberá aos especialistas, e a quem julgar o processo, esclarecer com a devida exatidão, ou pedir novas peritagens. Ah, já para não falar dos registos de passagem na portagem de Estremoz, quando a comitiva entrou na A6, que serão uma prova fundamental.

SANTOS E PECADORES

Dez pessoas estiveram envolvidas neste fatídico episódio, mas só duas se tramaram. Nuno Santos, que morreu atropelado ao Km 77,6 da A6 com "lesões traumáticas toraco-abdominais-pélvicas" e teve morte imediata ao ser projetado para o separador central da via; e Marco Pontes, que, pelos testemunhos dos viajantes no carro que conduzia, ex-ministro Eduardo Cabrita incluído, sacudiram a água do capote e o deixaram, e o seu pé pesado, sozinhos com a culpa às costas.

No seu depoimento, o motorista agora acusado de homicídio, que continua nos quadros do Ministério da Administração Interna, onde aufere 1.442 € mensais líquidos, disse que seguia as orientações do corpo de segurança pessoal da PSP, que o ex-ministro não teve qualquer interferência na velocidade e que a deslocação se fazia sem horários a cumprir, pelo que não se ligaram as luzes ou as sirenes sonoras.

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O motorista afirmou ainda que não teve noção da velocidade a que se deslocava, (curiosamente nem ele nem ninguém que ia nos carros e testemunhou) mas frisou ser a adequada às condições da via, num dia sequinho e com sol.

UM DIA BANAL

Já Paulo Machado, o oficial de ligação no MAI que seguia no lugar do pendura no carro do ministro, assinalou que desconhecia se o ministro tinha compromissos em agenda que justificassem a velocidade a que seguiam a marcha. Mas essa dúvida, Eduardo Cabrita esclareceu no seu depoimento: não tinha compromissos externos agendados. Só reuniões a partir das 14h30 no MAI.

Quanto ao excesso de velocidade do seu motorista, Cabrita jura que não deu qualquer indicação para Marco Pontes carregar no acelerador e confirma que não tinha urgência em chegar ao destino.

Por tudo isto somado, a procuradora Catarina Silva, do DIAP de Évora, concluiu que o motorista cometeu apenas um crime de homicídio por negligência que poderá implicar ter que cumprir uma pena até três anos de prisão.

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