Sessenta anos depois ainda é um dos restaurantes mais icónicos da cidade de Lisboa. O Galeto abriu as portas ao público na Avenida da República a 29 de julho de 1966, uma semana antes da inauguração da ponte sobre o rio Tejo, na altura batizada Ponte António Oliveira Salazar. A casa foi fundada por seis emigrantes portugueses retornados do Brasil e o espaço marcou a diferença em relação a tudo o que se conhecia em termos de restauração à época por ter importado o conceito de snack-bar moderno do Brasil. Rapidamente este espaço modernista se transformou numa catedral da comida na capital graças ao seu famoso balcão corrido e horário alargado, a servir refeições até às três e trinta da manhã e a encerrar apenas um dia por ano, a 1 de maio, Dia Mundial do Trabalhador.
Quem ainda hoje estranha o facto de o restaurante se chamar Galeto, devia dar uma vista de olhos rápida à internet para descobrir a sua origem... ou pode ler aqui que vai ter tudo detalhado e explicado com pormenores. O nome Galeto tem origem no prato de frango assado no espeto ou na brasa popularizado por italianos no Brasil (o 'galletto'), mas não foi por causa dessa singularidade que o espaço se popularizou e, para algumas pessoas, famosas ou anónimas, se tornou uma espécie de cantina. Os funcionários do Galeto, alguns deles com carreiras longas a bem servir no espaço foram verdadeiros guardiões de segredos e, em muitas circunstâncias, testemunhas dos bastidores de episódios particulares da história de Portugal.
Ao balcão do Galeto houve secretas discussões políticas, acalorados debates, desabafos de figuras de Estado e de jornalistas e escritores, reconciliações e ruturas amorosas e até engates casuais de última hora. Claro que a regra de ouro entre o pessoal interno sempre foi a da discrição absoluta. Para quem trabalhava na polícia política do Estado, durante oito anos, o balcão do Galeto foi por algumas vezes laboratório privilegiado de recolha de informação, mas tudo isso acabou a 25 de abril de 1974. Mas antes, sempre de forma discreta, para não afugentar a caça, havia um ou outro inspetor da PIDE estrategicamente sentado num banco próximo a comer um bitoque descontraidamente, mas com as 'antenas' sintonizadas. A PJ e a PSP também por lá rodou nos bancos à procura de prevaricadores com a língua mais afiada entre um croquete, um prego e uma cervejinha.
SABER DE COR AS MANHAS DOS CLIENTES NUM ESPAÇO QUE NUNCA MUDOU
Como o quadro de empregados de balcão se manteve sempre estável, além de os clientes os reconhecerem e com eles muitas vezes desabafarem, estes também começaram a apanhar as manhas e os gostos dos fregueses habituais. Muitos funcionários já sabiam quem gostava do bife do bitoque mal passado, quem se pelava por um prego mais incrementado com alho ou até mesmo qual era o local favorito de um cliente para os sentar ao balcão. Acontecia muito com os políticos que pediam lugares mais reservados ao fundo.
Mantendo a traça original e tendo granjeado prémios patrimoniais pela sua arquitetura única, o Galeto é um espaço que está inalterado, em termos de design, desde a sua abertura a 29 de julho de 1966. Mais do que a sua comida, o Galeto causou enorme impacto visual e cultural devido ao seu vanguardismo espacial. O projeto foi desenhado pela célebre dupla de arquitetos Victor Palla e Joaquim Bento d'Almeida. Entre as décadas de 50 e 70, estes profissionais projetaram cerca de trinta snack-bares por todo o país, sendo o Galeto o único que sobreviveu intacto e fiel ao desenho original. A sala principal do rés-do-chão foi gizada com uma estrutura sinuosa de balcões corridos em madeira e couro, dando-lhe capacidade para sentar 125 pessoas em bancos altos, promovendo desta forma um serviço rápido e informal.
Painéis de madeira escura, azulejaria única, iluminação embutida acolhedora, fardas cuidadas e ar condicionado criavam aquilo que a imprensa da época descreveu como sendo uma "atmosfera racionalmente climatizada" e de "decoração primorosa". A sua disposição em balcão forçou uma quebra nas barreiras sociais na Lisboa salazarista: pela primeira vez, homens e mulheres de diferentes classes socioeconómicas sentavam-se lado a lado no balcão a qualquer hora do dia.
Devido à sua importância sociológica, ao valor artístico do seu interior modernista e à preservação da traça original de 1966, o Galeto está integrado na rede municipal de 'Lojas com História' e iniciou processos para obter a classificação oficial de Património Cultural, salvaguardando o seu legado para o futuro da cidade de Lisboa. É que enquanto a maioria dos snack-bares históricos de Lisboa acabou por fechar ou ser descaracterizada, o Galeto manteve-se firme à sua matriz identitária, facto que o torna único e inestimável.
TERTÚLIAS INFLAMADAS DE POLÍTICOS, JORNALISTAS, ARTISTAS E ESTUDANTES
Com o passar dos anos, o empregado e gerente António de Oliveira acabou por adquirir as quotas dos restantes cinco sócios, transformando o Galeto num negócio puramente familiar, sendo hoje gerido pelos seus descendentes. Ainda na cave, o restaurante mantém o espaço com 78 lugares destinado a refeições mais longas e formais, local onde muitas vezes se reuniram em tertúlias políticos, intelectuais, jornalistas, artistas, escritores e também estudantes.
O restaurante, no pós 25 de abril, tornou-se um ponto de passagem obrigatório para muitos dos protagonistas da época, que ali prolongavam as discussões políticas pela madrugada dentro. Aconteceu com o histórico líder do Partido Socialista e em 1986 eleito Presidente da República Mário Soares, que tinha um lugar cativo para se sentar, que era no balcão mais próximo da entrada. Mas também com Marcelo Rebelo de Sousa, também ele ex-Presidente da República, fiel cliente de longa data, que prefere a discrição e costuma ocupar um lugar no balcão do fundo da sala do rés do chão.
Figura incontornável do espaço foi Nuno Krus Abecassis, engenheiro e antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que terminava frequentemente as suas noites no Galeto, utilizando o balcão para despachar assuntos oficiais com os seus vereadores e assessores. A seu lado, ou nas imediações do balcão, também se sentavam escritores, artistas e jornalistas, por o espaço estar localizado perto de algumas redações de jornais, estúdios e da Fundação Calouste Gulbenkian, o Galeto converteu-se num refúgio criativo de intelectuais notívagos: Jornalistas e comentadores políticos adotaram-no para escrever crónicas e analisar a atualidade após o fecho das edições das suas publicações. Atores e encenadores procuravam-no após descerem as cortinas dos teatros de Lisboa. O balcão do Galeto enchia-se de artistas que procuravam os famosos pregos em pão e bifes para reconfortar o estômago ao final de uma noite longa de trabalho. A proximidade com o Instituto Superior Técnico (IST), fez com que gerações de estudantes e jovens académicos partilhassem o mesmo balcão com algumas das figuras mais influentes do país, enquanto preparavam exames ou debatiam ideias.
ANTÓNIO DE OLIVEIRA, O HOMEM DO LEME, O LÍDER QUE MANTEVE A CASA
O maior caso de sucesso desta casa é de facto o de António de Oliveira. António começou como funcionário (empregado de mesa e gerente), mas, com o tempo, comprou as quotas dos restantes cinco sócios vindos do Brasil, tornando-se proprietário único e passando o negócio para os seus filhos. Mas não esteve sozinho nesta aventura. A seu lado esteve o icónico senhor Ilídio, um dos rostos mais antigos da casa, que completou quase 50 anos de serviço no mesmo balcão. Viu jovens estudantes de Direito tornarem-se ministros e continuarem a sentar-se no mesmo banco, foi mestre na delicada arte de gerir clientes alcoolizados, artistas fatigados e políticos enérgicos, mantendo sempre a paz e a eficiência na sala. As histórias dos empregados são o verdadeiro motor da longevidade do Galeto. Com um regime de funcionamento que atravessa a noite, a lealdade da equipa é histórica: vários funcionários trabalharam na casa durante 30, 40 e até quase 50 anos, criando uma relação de cumplicidade única com os clientes. Hoje as coisas mudaram e o Galeto tornou-se um ponto de encontro geracional da capital, de braços abertos para turistas que adoram ficar na esplanada ou o procuram por ter uma localização central e horário alargado de atendimento.