Há momentos em que até os gestos mais simples nos confrontam com tudo aquilo que mudou. Nuno Markl, de 55 anos de idade, viveu um desses momentos ao subir as escadas de casa e perceber que estava a começar a esquecer-se de como fazia aquele percurso antes de a doença alterar a sua vida.
"Anteontem subia eu esta escada – na minha atual maneira mais lenta e algo trôpega – quando dei por mim a tentar lembrar-me como é que eu a subia antes: o subir por subir, sem pensar, sem valorizar esse feito", contou o radialista numa publicação no Instagram, esta quarta-feira, 21 de outubro.
A constatação deixou-o a pensar na forma como a memória pode apagar até os gestos mais banais. "E percebi que a memória da coisa está a esfumar-se, um bocado como a voz e a cara de uma pessoa que se conhecia, uns tempos depois de ela morrer. É estranho", confessou.
Depois de ter sofrido dois AVC, Nuno Markl continua a enfrentar os desafios da recuperação. Apesar das dificuldades, fez questão de esclarecer que não pretendia dramatizar a situação nem despertar pena. "Não é minha intenção ser dramático ou trágico ou mendigar pena com isto, até porque mantenho a esperança viva e estou feliz com os progressos", escreveu, antes de pedir a quem atravessa uma experiência semelhante que partilhasse consigo se reconhecia aquela fase do processo.
Entre as reações ao desabafo, destacou-se a da irmã, Ana Markl, que lhe deixou uma mensagem particularmente significativa. "Acontece em todos os lutos de uma vida que já não é a mesma", começou por escrever, lembrando que há experiências que nos obrigam a reconstruir a relação com a nossa própria vida.
"No nascimento de um filho, na morte de alguém que nos é querido, numa separação, num qualquer trauma, numa doença que nos incapacita", enumerou Ana Markl, explicando que estas mudanças podem trazer uma sensação de perda que nem sempre é fácil de aceitar.
"Temos de nos apropriar dessa mudança, dolorosamente, agarrados ao que temos", acrescentou. E, numa referência direta ao irmão, deixou-lhe uma lembrança daquilo que a doença não apagou: "Estarmos vivos, mais conscientes, no teu caso com o amor em teu redor, o teu talento e a tua personalidade intactos."