O popular cantor Roberto Leal partiu há cerca de três anos, vítima de cancro. Tinha 67 anos de idade. Não perdeu a alegria de viver nem a fé divina até à última hora. "O meu pai morreu num sábado e na quarta-feira estava a cantar na televisão, cheio de vida", recorda o filho Rodrigo Leal.
Rodrigo esteve à conversa com Manuel Luís Goucha na tarde deste sábado, 17, na TVI. Um momento de emoções à flor da pele e de lágrimas nos olhos, com o produtor e músico a recordar os melhores tempos que passou com o pai, um homem que nunca abdicou dos seus valores nem das suas convicções. Nem na música.
Roberto Leal nasceu na pequena e humilde aldeia de Vale da Porca, Macedo de Cavaleiros, e cedo partiu para o Brasil onde encontrou o sucesso através das canções. Vendeu 25 milhões de cópias de discos. É o artista português com mais discos vendidos logo a seguir a Amália Rodrigues.
Roberto Leal morreu a 15 de setembro de 2019, em São Paulo, Brasil, há três anos, mas a saudade continua a ser imensa. "Acho que (o tempo) nunca é suficiente. Nunca vai ser. Aprendemos a lidar da melhor forma. Mas a saudade fica sempre, é eterna", refere Rodrigo Leal que foi obrigado a aprender a viver sem o pai.
Consciente da gravidade da doença, a família não contou toda a verdade a Roberto, para que ele nunca perdesse a alegria de viver. "Na fase final, tivemos de nos preparar. Muitas pessoas perguntam se ele sabia que tinha. Claro que ele sabia, aquilo que escondemos foi o tempo que aquilo teria. Nós sabíamos o tempo (de vida) que ele iria ter. (...) "O meu pai morreu num sábado e na quarta-feira estava a cantar na televisão, cheio de vida. Nós não quisemos tirar-lhe essa vida. Podíamos ter feito tratamentos para ele ter durado mais dois, três meses", referiu, revelando a decisão da família em não sujeitar Roberto Leal aos tratamentos oncológicos. "Decidimos que o homem lá em cima (Deus) é que sabia quando seria a data", justificou Rodrigo.
O vazio que veio a seguir. Foi o mais difícil de ultrapassar. Valeu-lhes a união da família. "Foi duro. Foi muito difícil de aceitar. Mas eu precisava, até como filho mais velho, de ali estar, pela minha mãe e pelos meus irmãos. Cada um lidou com a perda à sua maneira. A Manuela (irmã) não consegue ouvir uma música do meu pai, nem ver uma foto do meu pai ainda", referiu Rodrigo Leal.
A memória de Roberto Leal continua bem presente, e Rodrigo sente-o todos os dias, seja na rua ou em casa. "O que eu mais recebo na rua são lágrimas. As pessoas abordam-me e dizem: ‘Que saudades do seu pai que tinha sempre uma palavra de amor’ (...) As minhas filhas hoje dão continuidade à alegria [de Roberto Leal]. Elas têm memória do avô. O pai é o super-herói. O avô era o pai do super-herói. Era mais do que um super-herói. Se perguntar hoje do que elas mais sentem falta, é o abraço. O beijo. O colo", descreveu.
"A partida do meu pai ensinou-me que passamos a vida à procura de coisas que às vezes não encontramos. Preocupamo-nos em ter em vez de nos preocupar-nos em ‘ser’. Perdemos demasiado tempo e esquecemo-nos do essencial. Esquecemo-nos de viver. A minha prioridade de hoje é estar com as pessoas que eu amo. Acredito que um dia vou encontrar o meu pai. E vou dizer: ‘Te amo. Morri de saudade de você’", despediu-se Rodrigo Leal, sem conter a emoção nem as lágrimas.