Gustavo Carona tornou-se num dos heróis da pandemia, sendo um dos médicos na linha da frente do combate à Covid-19, mas depois da dedicação extrema o seu corpo começou a dar sinais de que algo não estava bem, ainda que na altura estivesse longe de imaginar que a vida como a conhecia estava a um ponto de mudar.
"Eu tenho uma doença, relativamente mal explicada, mas basicamente consiste em dor crónica que tem vindo a agravar nos últimos anos, que agrava quando estou sentado ou de pé, o que faz com que eu esteja muito tempo confinado à posição de deitado, ou seja na cama", já explicou o médico, que teve de deixar de exercer. "Não temos certezas temos interpretações, parece ser a doença de Lyme pós-tratamento, que é uma bactéria, que já foi tratada e que depois deixa sintomas a longo prazo. Parecido ao que conhecemos da Covid-19 longa, síndromes pós-infecciosas, que não têm marcadores inequívocos, e os sintomas são também inespecíficos, é a melhor interpretação que eu tenho, até ao momento."
Ao longo dos últimos anos, foi operado dez vezes, esteve preso a uma cama e partilhou, muitas vezes com frustração, a dura batalha que lhe toldou a vida. Porém, este domingo, dia 14, foi com emoção, mas também muita cautela que partilhou a notícia mais esperada: voltou a exercer medicina. "Esta semana voltei a ser médico. Devagar, claro", explicou, acrescentando que tudo vai ser feito nos seus tempos.
“Não tenho medo de assumir as minhas fragilidades, mesmo sabendo que jogam totalmente contra todos os aspetos da minha vida. Eu estou desfeito. Fui 10 vezes ao bloco operatório e estou cheio de mazelas, e psicologicamente não sei o que pode ser pior do que sentir 24 horas por dia 'eu quero morrer', porque não aguentava a dor, e a (não) vida na prisão dum colchão. Isso deixa marcas muito profundas, para sempre", disse, revelando que, depois de anos de luta e persistência, conseguiu chegar a um lugar diferente.
"A minha doença não tem cura, mas consegui atenuar os sintomas mais graves. Este semana voltei a ser médico. Devagar, claro. Repito: estou desfeito, sou uma pessoa muito diferente, e se por um lado o sofrimento é a maior das lições de vida, por outro, também sei que muita coisa em mim, mudou, para pior. Mais do que nunca, a minha família, os meus amigos, salvaram-me. Devo-lhes, literalmente, tudo. Mas não consigo fugir de quem sou, de quem o acaso me fez, e sei que quem gosta de nós mesmo, mesmo a sério, quer-nos ao seu lado, mas acima de tudo, quer-nos ver felizes."
Depois da partilha, o médico recebeu uma avalanche de amor dos milhares de seguidores que há muito torcem pela sua recuperação. "Só temos uma vida. Eu quero viver a minha com o coração a arder. Trabalhei muito para isso, mas tenho muita sorte por sentir com tanta força uma paixão pelo mundo e pelas pessoas. É sorte, mas também é uma escolha de como gosto de ver o mundo", partilhou Gustavo.