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As mil e uma batalhas do médico Gustavo Carona entre operações, meningite e suspeitas de cancro: "Perdi tudo em seis anos"

Foi herói da pandemia, numa altura em que ignorava que em breve teria de travar a sua própria (e hercúlea) batalha. Nos últimos seis anos, o médico debateu-se com as incertezas do diagnóstico, com hospitalizações constantes, viu o seu corpo a ceder, mas nunca baixou os braços. Num longo desabafo, o médico Gustavo Carona partilhou as dores e alegrias de uma vida intensa.
Rute Lourenço
Gustavo Carona
Gustavo Carona

Depois de ter sido considerado um dos heróis da pandemia, e médico na linha da frente no combate à Covid-19, foi Gustavo Carona que, de repente, precisou de ajuda. O corpo começou a dar sinais de falhar mas, mesmo sendo um profissional de saúde, o diagnóstico não chegou, por isso, mais rapidamente. Gustavo começava, então, um longo caminho, que nunca imaginou na altura que se transformaria no pior pesadelo da sua vida. 

Ao longo dos últimos anos, foi operado dez vezes, esteve preso a uma cama e partilhou, muitas vezes com frustração, a dura batalha que lhe toldou a vida. "Eu tenho uma doença, relativamente mal explicada, mas basicamente consiste em dor crónica que tem vindo a agravar nos últimos anos, que agrava quando estou sentado ou de pé, o que faz com que eu esteja muito tempo confinado à posição de deitado, ou seja na cama", já explicou o médico, que teve de deixar de exercer para se dedicar à sua própria cura. "Não temos certezas temos interpretações, parece ser a doença de Lyme pós-tratamento, que é uma bactéria, que já foi tratada e que depois deixa sintomas a longo prazo. Parecido ao que conhecemos da Covid-19 longa, síndromes pós-infecciosas, que não têm marcadores inequívocos, e os sintomas são também inespecíficos, é a melhor interpretação que eu tenho, até ao momento."

Passaram-se seis longos e penosos anos que, na passada quarta-feira, dia 4, o médico assinalou com uma emotiva partilha nas redes sociais, onde mostrou que, apesar dos muitos motivos de dor, faz questão de assinalar as muitas pessoas boas com quem se cruzou pelo caminho. "Perdi tudo em seis anos, mas vi o melhor do ser humano e aprendi como se fosse do zero o que é a amizade e o amor. Uma doença é como a guerra, vemos o pior e o melhor das pessoas. Uma guerra crónica é como uma doença crónica, só os mesmo muito fortes e muito especiais é que lutam até ao fim", escreveu, acrescentando: "Faz hoje seis anos. De dor. De uma vida que se foi perdendo, De um périplo que me fez ver que bater no fundo era um percurso e não um fim em si mesmo".

No longo desabafo, em que faz questão de agradecer aos médicos, enfermeiros que tiveram gestos humanos para consigo, Gustavo ressaltou também que os últimos seis anos foram feitos de incertezas extremas e resiliência. "Por ter uns anti-corpos que muitas vezes estão associados a cancros, fiz por duas vezes um despiste a vários cancros sem que ninguém do meu círculo pessoal soubesse (...) Quando estive internado por uma meningite bacteriana, no Hospital de Matosinhos, e fui operado quatro vezes no espaço de uma semana, quando saí do internamento uma auxiliar deixa às escondidas um copo de água branco de papel escrito com uma caneta de filtro "Tudo de Bom", com um smile. Guardo-o até hoje e nem sei quem foi", reforçou, agradecendo a outros tantos médicos e à sua psicóloga, pelo tanto que o ajuda.

O REGRESSO AOS POUCOS AO TRABALHO

Na sua conta de Instagram, Gustavo Carona partilha muitas vezes a sua luta, o seu ativismo, mas também notícias felizes, como aconteceu há cerca de um mês, altura em que revelou que era tempo de, aos poucos, regressar ao trabalho como médico. "Esta semana voltei a ser médico. Devagar, claro", explicou, acrescentando que tudo vai ser feito nos seus moldes.

“Não tenho medo de assumir as minhas fragilidades, mesmo sabendo que jogam totalmente contra todos os aspetos da minha vida. Eu estou desfeito. Fui 10 vezes ao bloco operatório e estou cheio de mazelas, e psicologicamente não sei o que pode ser pior do que sentir 24 horas por dia 'eu quero morrer', porque não aguentava a dor, e a (não) vida na prisão dum colchão. Isso deixa marcas muito profundas, para sempre", disse, revelando que, depois de anos de luta e persistência, conseguiu chegar a um lugar diferente.

"A minha doença não tem cura, mas consegui atenuar os sintomas mais graves. Este semana voltei a ser médico. Devagar, claro. Repito: estou desfeito, sou uma pessoa muito diferente, e se por um lado o sofrimento é a maior das lições de vida, por outro, também sei que muita coisa em mim, mudou, para pior. Mais do que nunca, a minha família, os meus amigos, salvaram-me. Devo-lhes, literalmente, tudo. Mas não consigo fugir de quem sou, de quem o acaso me fez, e sei que quem gosta de nós mesmo, mesmo a sério, quer-nos ao seu lado, mas acima de tudo, quer-nos ver felizes."

Depois da partilha, o médico recebeu uma avalanche de amor dos milhares de seguidores que há muito torcem pela sua recuperação. "Só temos uma vida. Eu quero viver a minha com o coração a arder. Trabalhei muito para isso, mas tenho muita sorte por sentir com tanta força uma paixão pelo mundo e pelas pessoas. É sorte, mas também é uma escolha de como gosto de ver o mundo", partilhou Gustavo.

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