Tédio é uma das palavras que nunca será usada para descrever dez anos da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, que dia 9 de março passará a pasta ao aparentemente tranquilo novo eleito António José Seguro. Taticista, Marcelo foi um estratega em Belém, mesmo quando fez da estabilidade política uma bandeira. Criticou o Governo quando este geriu mal o drama dos fogos em 2017, obrigando mesmo António Costa a demitir a MAI da altura. Foi herói a salvar donzelas em perigo no mar, viveu muita proximidade ao povo e acabou vergado por dois duros anos de decisões difíceis e impopulares durante a pandemia da Covid-19. Aguentou demissões e quedas de governos e sofreu ao ver o seu nome envolvido num escândalo de favorecimento. Isso magoou-o pessoalmente e fragilizou-o então junto da opinião pública, das forças políticas e fê-lo cortar relações com o filho, Nuno.
Longe de casa, Rute Cardoso foi surpreendida por tributos emocionantes a Diogo Jota na China, num momento que mostrou que o jogador continua a tocar corações em qualquer parte do mundo.
Comprometido com o desafio político, novo Presidente da República estabelece, no entanto, fronteiras claras entre a vida pessoal e profissional e inaugura um novo ciclo em Belém. O Palácio será, agora, uma habitação fantasma, enquanto Seguro move o centro da ação para as Caldas da Rainha, com custos para a segurança. Entre o lar, que se mantém o grande porto de abrigo, o Chefe de Estado tem ainda dois refúgios de família que prometem protegê-lo de eventuais terramotos políticos e fazer com que a vida, na sua essência, seja a mesma de sempre.
Na semana em que é eleito o próximo Presidente da República, Marcelo tem-se mostrado a fazer aquilo que, no fundo, é a sua essência: a conversar com as pessoas que perderam tudo nas zonas mais afetadas, deixando palavras de incentivo e também duras críticas ao Governo. A visita à Zarzuela, onde iria encontrar-se com os reis de Espanha, acabou adiada devido à situação de calamidade do País.
O Presidente da República reduziu significativamente a sua presença no meio do povo depois do escândalo das gémeas luso-brasileiras. Regressa agora... naquela que pode ser a sua última ocasião para voltar a ser visto como o 'Presidente dos Afetos'.