Enquanto o País se prepara para decidir quem será o próximo Presidente da República, em Belém, Marcelo Rebelo de Sousa começa, aos poucos, a fazer as malas e a arrumar os seus pertences. Foram dez anos entre Lisboa a Cascais - a casa que nunca abandonou e que foi, tantas vezes, o seu refúgio - e de uma dedicação ao País que assumiu como missão e que o levou a colocar a sua vida pessoal em segundo plano. Agora, porém, é tempo de voltar a tomar as rédeas, o mesmo é dizer que, aos 77 anos, o político sente-se como que a renascer e não deixou os próximos tempos ao acaso. Na verdade, Marcelo já sabe muito bem o que irá fazer e parte dessa vida passa por retomar um gosto muito seu, que deixou em prol da Presidência da República: dar aulas. E já tem definido onde será: na Califórnia, nos Estados Unidos, num afastamento que será quase necessário para que o ainda Chefe de Estado coloque em perspetiva os seus últimos anos.
No entanto, essa mudança só estará prevista dentro de dois anos, o que será uma espécie de coincidência feliz, uma vez que Marcelo irá aproveitar esse tempo para viver em pleno a magia dos Jogos Olímpicos, que em 2028 terão lugar nos Estados Unidos. "Vou ser professor convidado na Califórnia e, portanto, junta-se o útil ao agradável, que é estar lá a ensinar, convidado, no ano de 2028 e, como imaginam, é uma condição única e privilegiada para, com mais tempo, ver mais modalidades e acompanhar mais ainda os triunfos dos nossos atletas", disse, citado pela Lusa, acrescentando que, por esse altura, será "um homem livre".
Uma liberdade que é quase uma urgência para Marcelo Rebelo de Sousa que, depois de um primeiro mandato nas boas graças dos portugueses, viu o segundo transformar-se num pesadelo, com o envolvimento no caso das gémeas luso-brasileiras a desgastá-lo a todos os níveis, principalmente no campo do pessoal, com o processo a ter levado, inclusivamente, a um corte de relações com o filho - que não se sabe até que ponto se manterá aos dias de hoje. No entanto, limpar esses respingos da sua vida política será certamente uma prioridade para Marcelo, que não esconde o quanto tudo o que se passou ao longo dos últimos dois anos, principalmente, mexeu consigo.
"Nós que o conhecemos há mais anos, depois daquilo a mágoa está na cara dele em permanência e é natural", disse Pedro Santana Lopes em dezembro ao NOW, não tendo dúvidas do desgaste que, para um pai extremoso como Marcelo, o corte de relações com o filho Nuno teve na sua vida.
"Ele tem tido imenso stress e toda a gente reconhece que desde que foi o caso que politicamente mais o abalou e envolveu o seu filho que ele se foi muito abaixo. Eu que o conheço há 40 anos... não tenho dúvidas nenhumas que isso deu cabo dele humanamente, principalmente a questão do filho, não tanto a política. O Marcelo que eu conheço sempre foi um pai extraordinário, cuidadoso, agora também com os netos", lamenta o comentador, sendo que o próprio presidente da República foi capaz de estabelecer essa correlação. "As gémeas foram um fenómeno adicional, mas não me desgastou politicamente, desgastou-me pessoalmente. É imperdoável, porque ele sabe que tenho um cargo público e político e pago por isso", revelou Marcelo Rebelo de Sousa, tentando desvalorizar o assunto. "Ele tem 51 anos. Se fosse o meu neto mais velho preferido, com 20 anos, eu iria sentir-me corresponsável. Mas, com 51 anos, é maior e vacinado".
No entanto, a preocupação está estampada no rosto de todos aqueles que o querem bem e pouco depois de rebentar o escândalo político, o padre Vítor Melícias acabaria por fazer esse desabafo público. "Temos falado, ele não está com a vida facilitada", afirma, acrescentando que o 'caso gémeas' tocou no ponto mais frágil de Marcelo, e por isso o magoou tanto. "É muito complicado, é a dimensão família", disse o padre Vítor Melícias ao 'Expresso', o que, na verdade, retrata bem aquilo por que o presidente passou e que abalou o seu mundo tanto na dimensão política como pessoal.
A SAÚDE QUE SE RESSENTE E A FÉ INABALÁVEL
Os últimos anos provavelmente carregam em si a sensação de muitos mais para Marcelo Rebelo de Sousa, que nunca terá ansiado tanto por uma reforma política, que lhe devolva a tranquilidade de rotinas, que se torna urgente, numa fase em que o corpo dá sinais e lhe pede descanso. O episódio que teve lugar em dezembro, quando foi internado no Hospital de São João, no Porto, após ter sofrido uma paragem de digestão, e que culminou com uma cirurgia, a uma hérnia encarcerada, é apenas mais um da longa lista que quase implora a Marcelo para parar. Os sinais públicos são inequívocos: o chefe de Estado, a quem nunca lhe faltou o sorriso nem a paciência para dois dedos de conversa ou uma selfie, está menos exuberante e este é dos tais casos de transparência em que uma simples análise ao passado recente mostra como chegou até aqui: o caso das gémeas luso-brasileiras, o corte de relações com o filho, o escrutínio a que foi sujeito, tudo isso o desgastou de uma maneira que teve reflexos em praticamente todos os quadrantes da sua vida.
O caso colocou a sua fé à prova e, mais do que nunca, Marcelo procurou nela respostas. Ao longo dos últimos anos, já foi visto numa rumaria a Fátima, entre os peregrinos, e quando o tempo livre não lhe permite tantos quilómetros, senta-se no banco mais recatado da igreja dos Jerónimos a rezar.
Criado no seio de uma família católica, Marcelo nunca deixou de professar a sua fé. E, na verdade, não é dos que apregoam e não dão o exemplo. Não o faz para, depois, partilhar nas redes sociais, faz parte da sua natureza: é como que um part-time silencioso, uma missão que assume nas suas horas vagas, em que dá e, de alguma forma, recebe conforto.
"Ele se sabe que alguém vai morrer, chega a pedir o contacto dessa pessoa fora de horas, gosta de ir junto dela e falar-lhe", contou uma pessoa próxima ao 'Expresso', recordando que tudo está relacionado com a sua fé inabalável.
Numa altura em que se prepara para fechar de vez a porta de Belém, e uma coisa é certa: nada lhe deixará saudades. Mais, há muito que conta as horas e minutos para que esse momento aconteça. Foi logo depois do caso das gémeas que Marcelo admitiu já sonhar com uma vida anónima (tanto quanto possível, dada a sua popularidade e natureza) e até deu algumas luzes aos jornalistas de como será a sua vida longe dos gabinetes oficiais, sendo que uma coisa é certa: não o irão ouvir a falar de política.
Quando questionado se iria ter saudades da Presidência, Marcelo nem pestanejou. "Nenhuma, nenhuma. Nenhuma, neste sentido, a minha vida foi sempre assim: tenho uma vida enquanto tenho essa vida, terminada essa fase começa uma outra fase completamente diferente."
Sobre como vão ser os seus dias longe de Belém, Marcelo já tem um plano bem traçado, para além das aulas que irá dar nos Estados Unidos. Quer continuar a trabalhar, sim, mas sem a exposição pública dos dias de hoje e, acima de tudo, a fazer coisas de que goste e o apaixonem. "Primeiro, não falar mais de política, é logo uma coisa importante, é uma opção que um ex-Presidente tem que fazer. Uns fazem de uma maneira, outros fazem de outra. Eu tenciono fazer da maneira que é não intervir, não falar, não me pronunciar. O que é que eu vou fazer? Vou dedicar-me, sim, às escolas, mas básico e secundário. Aprendi, por exemplo, com o Plano Nacional de Leitura, que há imensa coisa a fazer em que eu posso ser útil, em que há atividades culturais que eu posso desenvolver, formativas, conhecendo a rede de escolas como conheço, e com o ritmo que a minha idade me permitirá quando deixar de ter este ritmo", conta Marcelo, que quando fechar este ciclo da sua vida e, espera, ainda com muita saúde para repetir os seus banhos de mar diários, colocar leituras em dia e desligar-se do stress que, como nunca, marcou a sua vida ao longo dos últimos anos.