Noelia Castillo partiu, finalmente, como desejava, com a paz possível, cerca de dois anos depois de o seu pai ter recorrido à via judicial para tentar impedi-la de recorrer à eutanásia, num caso que tem dividido e emocionado o mundo. De acordo com o jornal espanhol 'ABC', a família de Noelia deslocou-se ao centro sanitário de Sant Pere de Ribes, onde a jovem de 25 anos de idade permanecia internada, na tarde desta quinta-feira, depois de uma magistrada ter recusado, novamente, travar a sua morte assistida e submetê-la a tratamento psiquiátrico, conforme era vontade do pai, representado pela associação Abogados Cristianos.
A jovem pediu para que o processo fosse realizado no quarto da residência, a sua "zona de conforto" e o lugar onde se sentia "mais protegida". Tinha pedido ainda para que a mãe não assistisse ao momento da partida.
"Não quero ser exemplo de nada. Simplesmente é a minha vida e ponto". A mensagem de Noelia Castillo Ramos, deixada na sua última entrevista, à Antena 3, emitida na véspera da sua morte, diz muito acerca daquilo que foram os seus últimos anos e da batalha legal que travou, em Espanha, para que os tribunais aceitassem a sua vontade de colocar termo à vida de uma forma digna e o direito à Eutanásia. A última decisão favorável - após se terem esgotado todos os recursos do pai, que nunca aceitou a decisão - fixou para a tarde desta quinta-feira, pelas 18h00 de Espanha, a morte de Noelia Castillo, uma jovem de 25 anos, que solicitava há 601 dias a Eutanásia, depois de uma vida de sofrimento, que culminou com a tentativa de suicídio que a deixaria paraplégica. “Finalmente consegui, e vamos ver se finalmente consigo descansar. Não aguento mais esta família, a dor, tudo o que me atormenta”, disse Noelia, que garantia viver num profundo sofrimento físico e psicológico, atestado por vários médicos e comités. "Quero simplesmente partir em paz e deixar de sofrer. Dormir é muito difícil para mim. Tenho dores nas costas e nas pernas... Mesmo antes de pedir a eutanásia, já via o meu mundo como muito sombrio. Não tinha metas, objetivos, nada. Tentei suicidar-me duas vezes com comprimidos, por isso a minha mãe internou-me no primeiro hospital psiquiátrico… Não tenho vontade de fazer nada, nem de sair, nem de comer, nem de fazer nada".
Esta quinta-feira, as luzes apagaram-se para Noelia. Depois de ter passado a última noite, num hospital de Barcelona, com aquela que garantia ser das poucas pessoas que a amaram - a mãe - quis estar sozinha no derradeiro momento, que lhe aliviaria a tormenta em que viveu nos últimos anos. Por volta das 18h00 de Espanha (17h00 de Portugal), e supervisionada por profissionais de saúde, foi-lhe administrado um cocktail de três fármacos, por via intravenosa, que, em cerca de 15 minutos, a 'adormeceram', respeitando aquela que era a sua vontade mais do que convicta. Os dois primeiros medicamentos induziram-na a um estado de sedação profunda e o terceiro causou a paragem cardiorrespiratória. O procedimento desenrolou-se debaixo do olhar atento de um comité de médicos, que garantiram que eram respeitados os procedimentos previstos para os casos de Eutanásia, legalizada em 2021 no país vizinho para casos de sofrimento grave, crónico e incapacitante.
Na véspera, Noelia, admitia não estar nervosa, revelando a vontade de se maquilhar e colocar um vestido bonito para se despedir deste mundo. O olhar ausente e a voz inexpressiva demonstravam a olho nu aquilo que Noelia sentia, mesmo que muitos não compreendessem a sua decisão, nomeadamente o pai, que católico e conservador, ergueria todas as batalhas possíveis para travar a batalha da filha. "Ninguém na minha família é a favor, mas a felicidade de um pai não deve ser mais importante do que a felicidade ou a vida de uma filha. O meu pai viu-me cair e não pôde fazer nada. Depois de tudo o que fez, já não me sinto mal. Recusou-se a ouvir-me. Não respeitou a minha decisão e nunca respeitará."
A relação entre os dois não era saudável, sendo que Noelia cresceu numa casa onde os abusos psicológicos se repetiam. Numa vida errante, de caos emocional, recorda com dor os maus-tratos da avó paterna e tudo aquilo que a conduziu a um estado limite, inclusivamente uma série de abusos, entre os quais uma violação em grupo e o caso com o 'ex' namorado. "Tomei os meus comprimidos para dormir e adormeci. Depois aproveitou-se de mim e, no dia seguinte, contou-me como se fosse algo normal. Eu estava a dormir; sabia que tinha sentido alguma coisa, mas não sabia o quê, e não me conseguia mexer porque estava meio adormecida", relatou, acrescentando que pouco na sua vida lhe deixa boas memórias.
A LONGA BATALHA DE NOELIA
O caso de Noelia gerou uma onda de comoção pelo mundo e não há quem consiga ficar indiferente à dor extrema em que a jovem vivia. Mas se muitos são os que se compadecem do estado da jovem, da Catalunha, e do seu direito a uma morte digna e em paz - a Eutanásia é legal em Espanha desde 2021 - as associações católicas ergueram demandas para que o caso de Noelia fosse inviabilizado, com base na vontade do seu próprio pai.
Noelia esperava há mais de um ano e meio para ter acesso aos serviços de morte assistida. A sentença emitida na segunda-feira pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos foi decisiva, numa altura em que se esgotaram todos os recursos legais do pai, que afirmava que a condição da filha não era um argumento válido, uma vez que se tratava de uma condição psicológica e que, por isso, poderia ser intervencionada pelos médicos, isto apesar dos inúmeros pareceres positivos dos profissionais à Eutanásia, que atestavam que a jovem vivia em sofrimento “grave, crónico e incapacitante”, num quadro que começou aos 13 anos - quando lhe foi diagnosticado transtorno obsessivo-compulsivo - se agravaria com os maus tratos e violações e culminaria com a tentativa de suicídio falhada, que a deixou paraplégica, com danos neuropáticos incontroláveis.
O caso geraria diversas reações firmes em Espanha, sendo que Olga Pané, a titular da pasta da Saúde no governo regional catalão, não deixou de demonstrar o desagrado perante as decisões judiciais, que protelavam o direito a Noelia à Eutanásia. “Deu-se prioridade ao direito ou à vontade dos familiares sobre a vontade da pessoa afetada, alargando o processo em dois anos." Esta quinta-feira, a vontade da jovem prevaleceu. O seu corpo será cremado - mais uma vez contra a vontade do pai, que queria um funeral convencional - e as cinzas depositadas num cemitério não revelado para garantir a privacidade da mãe da jovem no derradeiro momento.