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As tragédias e as conquistas de Carlos Moedas. Da dor de ter um pai alcoólico ao professor homossexual que lhe mudou a vida

Nasceu e cresceu pobre em Beja, no Alentejo. Aos 11 anos o jornal que o pai tinha ajudado a fundar vai à falência e Zé Moedas entrega-se, desiludido, ao vício crónico do álcool. Passou uma adolescência a pedir ao pai para parar de beber e foi na escola que encontrou refúgio. Em especial nas palavras e conselhos sábios do professor de matemática, um homossexual assumido que teve a coragem de romper com as mentalidades da tacanha cidade de Beja na década de 1980. Como orador no 'Cristina Talks', Moedas deixou a fórmula para vencer na vida. A mesma que lhe ofereceu o professor aos 13 anos.
João Bénard Garcia
João Bénard Garcia
19 de janeiro de 2023 às 23:11
As mil vidas de Carlos Moedas e a sua "queda" pelas estrelas
Carlos Moedas
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Foi a surpresa da manhã no mega-evento 'Cristina Talks', no Altice Arena, em Lisboa, perante 10 mil pessoas. A quantidade de vezes que foi espontaneamente aplaudido mostram a sua enorme popularidade. Muitas das pessoas que tinham dado 19 euros para ver Cristina Ferreira ao vivo e a cores vieram de lugares tão distantes como Braga ou Portimão e, por isso, não foram, de todo, eleitores de Carlos Moedas, 52 anos, o presidente social-democrata que ganhou a Câmara Municipal de Lisboa nas últimas autárquicas, mas por uma unha negra.

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Discurso de vitória de Moedas: “Não vamos falhar. Vamos mudar Lisboa, acreditem”

Cristina Ferreira, quando começou a apresentá-lo, fez questão de dizer que ele era "talvez o convidado mais inesperado" naquele palco. "Nem vocês que aqui estão pensavam que ele pudesse vir", continua a dizem, com um discurso cada vez mais pausado, para adensar o mistério. "Nem muita gente neste país achava que ele podia vir", alongou-se.

Para explicar quem era o seu orador convidado "surpresa", Cristina relatou o primeiro impacto que sentiu quando conheceu Carlos Moedas, engenheiro e Comissário Europeu entre 2014 e 2019, mas que perante ela surgiu como consultor da Impresa, a dona da SIC. "Lá houve um dia em que fui, contrariada, para uma formação, e havia um homem que ia falar, que era consultor da empresa. E de repente, aquilo que ele disse foi tão extraordinário que pensei imediatamente: Eu tenho que o levar ao programa", confessou.

SOBE AO PALCO "O MENINO CARLOS" MOEDAS

"As pessoas precisavam de o conhecer. Ele foi ao programa e gostei ainda mais de o conhecer. E ainda por cima está ligado a uma pessoa que eu amo muito. São as tais coincidências", concluiu Cristina, desvendando tudo que se passou desde então: "Não nos largámos mais. Trocámos mensagens em que um torcia pelo outro... E há um dia em que ele se candidata e todas as sondagens (não houve uma diferente) davam-lhe a derrota", recorda, referindo-se às Eleições Autárquicas de outubro de 2021.

"É inexplicável mas eu não queria que aquilo acontecesse porque ele não era um homem de perder. A imagem que tinha dele era tão bonita e tão verdade, eu sabia a lição dele e ele não podia perder. E todos diziam que ele ia perder, mas ganhou. Hoje olho para ele como a pessoa que é. Porque a este palco vai subir o menino Carlos, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

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Veja como está a correr a 'homilia' de Cristina Ferreira perante 10 mil pessoas na Altice Arena

Aplaudido com entusiasmo pela plateia, Carlos Moedas não começou a história da sua vida pelo clássico "era uma vez", mas antes por fazer uma confissão, que levou o público às palmas efusivas logo de imediato. "Eu nasci em 1970, num Alentejo pobre, numa família pobre e nesses anos 70, em que o país de certa forma ainda era a preto e branco, eu nasci numa família em que sentia um certo determinismo. Sentia que tinha nascido em Beja, ia viver em Beja e tinha que morrer em Beja", reconheceu, lamentando que assim fosse: "Isso era um orgulho para eles e também era para mim. Mas não era um orgulho quando alguma coisa diferente acontecia e a minha mãe me dizia: 'Ó Carlos foi assim, foi injusto, mas nós somos pobres e temos de perceber que é assim'".

Filho de um costureira e de José "Zé" Moedas, um "jornalista extraordinário", como lhe chama, Carlos orgulha-se, apesar do histórico pessoal do pai, nas proficiência profissional dele. "Apenas com o 9.º ano do liceu conseguiu ser um dos melhores jornalistas do Alentejo".

É muito amor: as imagens carinhosas do novo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, com a mulher, Céline
É raro vê-los juntos. Mas quando estão, há sempre uma nota de carinho. Ora espreite Carlos e Céline, junto e felizes.
Carlos Moedas e a mulher, Céline
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Carlos Moedas e a mulher, Céline
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ANGÚSTIA E VERGONHA DA SITUAÇÃO EM CASA

E continua a descrever o seu seio familiar e o quadro mental onde cresceu. "A minha mãe, que eu adoro, trazia-me sempre aquele pensamento de que não podíamos mudar nada. Nada podia ser mudado. Mas eu era miúdo e dizia que não, mas eu quero mudar. Mas eu também duvidava. Será que é possível, nascido aqui, eu conseguir ir para Lisboa para a universidade. Os meus pais não tinham dinheiro e com 11, 12 anos, quando a situação já não era boa, o meu pai adoeceu", relembra e explica porquê: "Ele adorava ser jornalista. Era a vida dele. De repente o jornal que ele tinha co-criado, o Diário do Alentejo, entra em falência. O meu pai perde o emprego. A minha mãe era costureira. Vivemos a angústia de pensarmos que não conseguíamos chegar ao fim do mês".

Mas o pior de tudo ainda estaria para vir. "O meu pai perdeu o gosto pela vida. Perdeu verdadeiramente o gosto pela vida. Não ser jornalista, para ele, era mais do que perder um salário, era perder a vida. E quando eu tinha para 11 anos ele refugia-se totalmente no álcool. E durante 30 anos eu nunca fui capaz de falar nisto. Não por vergonha, que eu tenho um orgulho enorme no meu pai, mas porque a dor foi tão grande, tão grande, tão grande... É difícil ter uma pessoa ao lado que todos os dias se está a destruir e nós não podemos fazer nada. Olhar para ele e dizer: 'Pai, pare de beber'. E ele beber de novo", recorda.


O PROFESSOR HOMOSSEXUAL QUE LHE MUDA A VIDA

Carlos Moedas, então adolescente, precisou do apoio de um professor para abrir os olhos para a realidade que vivia. E que só dependia dele mudá-la. "Com 12, 13 anos ninguém percebe isso. E a dor era tão profunda que eu tinha que me refugiar fora da família para, de certa forma, conseguir continuar a viver. O meu refúgio eram os meus professores. Eram os estudos. Estar na escola e sentir que aquela era a minha família".

E é então com 13 para 14 anos que conhece um professor que foi um mestre de vida e lha mudou. "Tenho então um professor de matemática que muda a minha vida. Era um homem de um meio muito diferente, homossexual. Eu era o melhor aluno a matemática e ele disse-me que eu podia ser o melhor engenheiro, que eu podia ser tudo o que quisesse. E eu dizia-lhe: "Eu não vou ser nada. Eu nem sequer vou sair daqui. O meu pai está doente, a minha mãe não tem dinheiro. Não temos absolutamente nada", relatou.

E foi então que o professor lhe disse: "'Ó Carlos tu vais conseguir. Porque tu és aquela pessoa que vai conseguir transformar o impossível em possível'... Mas como é que eu faço isso. Como transformo o impossível em possível? Como é que vou para Lisboa se nem tenho dinheiro para apanhar uma camioneta quanto mais estudar em Lisboa", questionava-o.

OS TRÊS PILARES DE VIDA DE CARLOS MOEDAS

"E ele, naquele dia, disse-me uma coisa que nunca mais esqueci. Havia três fatores que eu tinha que ter sempre presentes e focar-me neles. E que, com eles, podia transformar o impossível em possível. Ele disse-me: 'Carlos, há três factos na vida: a dor, os detalhes e a audácia. A dor está sempre presente e o pior que podes fazer é tentar afastar a dor. Recusar a dor. Todos temos esse sentimento. Não fujas, apanhada a dor e utiliza-a para mudar o mundo. E faz dessa dor uma força'", aconselhou-o, tendo o atual presidente da Câmara de Lisboa sugado estas palavras para sempre na sua mente.

Carlos Moedas conta tudo sobre como e onde conheceu a mulher da sua vida, Céline Abecassis
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Só o adolescente Carlos Moedas é não conseguiu deixar de fugir à dor, atitude que o salvou nesta fase da vida. "Eu retirava a dor e ia para aquele refúgio que era estudar e ser um bocadinho mais e melhor do que os outros, através dessa dor. Ele disse-me: 'Sei que és um sonhador, mas não te esqueças que os sonhos não servem para muito. O que serve são os detalhes, o que fazes todos os dias para seres aquilo que tu queres. Sonhar que queres ter isto ou aquilo não serve de muito. Mas podes todos os dias tratar dos detalhes do que é o teu caminho. E são esses detalhes que vão construir o teu sonho", sugeriu-lhe o professor.

"E dizia-me ele, que era um homem que tinha assumido ser homossexual naquela cidade pequena, nos anos 70 e 80, que eu não seguisse os outros, que eu tivesse a audácia de fazer o que quero. E estes três princípios são o centro da vida. Nem sempre os utilizei bem. Aliás, utilizei algumas vezes mal. A dor, fugi dela a vida toda. Quando consegui com 18 anos, com a ajuda da minha irmã, que era mais velha e salvou a minha vida, ir estudar engenharia para o Instituto Superior Técnico (IST) estava também a fugir da dor de todos os dias ver o meu pai doente", concluiu.

Depois desta fase é a história conhecida do Carlos Moedas público. Formou-se em engenharia civil após um Erasmus em Paris, trabalhou na Suez Lyonnaise des Eaux, atual Engie, a maior empresa de energia do mundo, que lhe pagava bem, depois foi para o banco Goldman Sachs, passou pelo Deutsche Bank e pela pequena banca de investimentos. Em 2011 torna-se o braço direito do então primeiro-ministro laranja Pedro Passos Coelho, que três anos depois o sugere para o lugar de comissário europeu, com a pasta da Investigação, Ciência e Inovação e um orçamento de 80 mil milhões de euros para distribuir.

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