O novo Presidente da República António José Seguro já tem a aprovação e a avaliação dos seus vinhos, quer do tinto quer do branco, por parte do seu antecessor, Marcelo Rebelo de Sousa. O jubilado professor de Direito deu nota bastante positiva aos néctares do seu sucessor, que provou no almoço de início de mandato que este deu a 9 de março no Palácio de Belém. "Provei porque ele nos ofereceu durante o almoço e é ótimo. Chama-se Serra P e provei o branco e o tinto", começa por afirmar numa entrevista que deu à revista TV Guia que esta semana está nas bancas. Mas o que terá achado Marcelo dos vinhos de Seguro? "Achei francamente bom. É um vinho da Beira Interior, muito graduado, mas que parece muito mais leve do que a graduação que tem. Tem 14,5 (de volume de álcool) mas não parece nada, nomeadamente o tinto. É bom, é bom", garante.
Habituado a fazer avaliações a tudo o que vê e prova, desta vez não escapou ao pedido da TV Guia para ajuizar da qualidade. "O vinho é genuinamente bom. É uma mistura de três castas: Touriga nacional, Syrah e Rufete, uma casta tradicional do Dão que se dá lindamente com o clima agreste da Beira Interior. É muito agradável, muito agradável. Até é um bocadinho enganador porque é mais alcoólico do que parece", sublinha o ex-Presidente, dando a entender que o teor alcoólico bateu no fim do repasto quando nos levantamos da cadeira e começamos a nossa marcha.
SEGURO, O EMPREENDEDOR DE NEGÓCIOS DE NICHO NO MUNDO RURAL
Não foi com a intenção de embebedar os amigos que António José Seguro plantou vinha nova e cuidou da que o pai, Domingos Seguro, plantou há mais de 40 anos num terreno da família em Serra Pedreira, no concelho de Penamacor, na Beira Interior. "Comecei a fazer vinho como homenagem ao meu pai, e como o vinho era bom pensei: tenho aqui uma área de negócios. Então, comprei uma quinta, replantei", disse, em conversa com Luísa Jeremias e Mónica Peixoto na CM Rádio, que mostrou o lado B dos candidatos durante a campanha para as Presidenciais. O político de 64 anos que agora chegou à Presidência da República, comprou em 2010 uma quinta na Beira Interior e plantou três diferentes castas para produzir o seu próprio vinho, a que chamou Serra P, que lançaria sem alarido em 2016 e à margem da sua exposição mediática, muito por força também de ter sido afastado por António Costa da liderança do PS em 2014.
A devoção por António José Seguro à família sempre foi bem visível e ainda hoje mantém uma ligação muito especial a Penamacor, no distrito de Castelo Branco, onde cresceu feliz ao lado dos pais e dos dois irmãos. O apelo de casa está sempre presente e há muitas coisas que o levam de volta ao município onde cresceu, entre os amigos e as futeboladas – jogou entre 1978 e 1981 a ponta de lança no Penamacorense. Uma delas, bastante inusitada. Foi quando estava no seu interregno político – que durou quase doze anos – que o atual Presidente da República decidiu investir em Penamacor, precisamente como forma de homenagear o pai, Domingos Seguro, “que plantou a primeira vinha há mais de 40 anos no seu prédio da Serra Pedreira, em Penamacor". Depois de provar o resultado.
"COMO O NOSSO PAI GOSTARIA DE O SABOREAR CONTIGO", DIZ O IRMÃO
"O vinho do Presidente Seguro, tem na sua génese uvas das castas Touriga Nacional e Syrah", afirmam os peritos, que na sua linguagem técnica que mais parece saída da cartomancia acrescentam apresentar "uma cor rubi profunda com reflexos violáceos, aroma frutado com notas de frutos negros bem maduros. Na boca é estruturado, fresco, poderoso e elegante, evidenciando uma boa persistência", dizem os especialistas das garrafeiras, mas as notas do coração de Alberto Seguro, irmão mais velho de Tozé batem mais fundo na mente do produtor vitivinícola: "Como o nosso pai gostaria de saborear este vinho contigo, meu irmão!".
Além de provar o vinho, Alberto é um dos familiares de Tozé que viu o esforço financeiro que o irmão fez nesta região podre do interior, no quarto concelho mais excluído do País, para o tentar dinamizar. Investiu num turismo rural com quatro unidades, as Casas da Penha, com uma ajuda ao investimento de 78 mil euros dos fundos comunitários para a coesão e começou a trazer pessoas à sua terra. Neste momento o pânico dos filhos, Margarida e António, os jovens que ficaram a tomar conta da AmaCor, o negócio do pai, é que toda a gente queira ficar umas noites nos turismos do Presidente. Os sites de hospedagem ocultaram as reservas e os preços. Ficar nas Casas da Penha, agora, só mesmo por chamada telefónica e com garantias de sigilo nas reservas.
TERRA INÓSPITA DE VINHOS QUE SÃO UMA SURPRESA
Seguro estava longe de imaginar que se candidataria à Presidência, ou mesmo que venceria, quando começou a investir na sua terra natal, mas cedo percebeu que tinha ali um diamante em bruto que estava por explorar e apostou num negócio de nicho, nos vinhos e nos azeites. Mas a Beira Interior é mesmo um território a reexplorar. A zona vitivinícola da Beira Interior foi uma das que durante muito tempo foi "relegada para segundo plano", segundo escreve a jornalista e especialista em vinhos e enoturismo Maria João Almeida, no seu livro 'Guia do Enoturismo', com chancela da Zest. E remata que o foi "muito injustamente". "O consumidor (...) ficaria certamente espantado ao provar produtos tão diferentes como os que se encontram na mais montanhosa das regiões portuguesas. São vinhos fortemente influenciados pela altitude e pelo clima agreste, bastante personalizados, muito aromáticos e frescos", descreve.
A mesma especialista garante que "todos os vinhos desta região terão em comum a influência da montanha, da altitude, dos solos do tipo granítico ou xistoso e do clima particularmente duro e agreste característico da região, com temperaturas negativas e neve durante o Inverno, e clima quente e seco no verão", condições que os antigos já tinham percecionado, mas que entretanto foram injustamente esquecidas: "A Beira Interior tornou-se região de Denominação de Origem Controlada (DOC) em 1999 apesar de terem sido os romanos que começaram a produzir vinho ali desde 25 A.C.. No século XII, os monges da Ordem de Cister, instalados no convento de Santa Maria de Aguiar, em Figueira de Castelo Rodrigo, desenvolveram a cultura da vinha de forma mais significativa" e não deixaram morrer castas como Síria (ou Roupeiro) e Fonte Cal ou Rufete, que se dá bem no pedregoso Dão mas também na inóspita terra do Presidente.