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"Já passei por muito": A vida simples de Pedro Passos Coelho, com ordenado de 2000 euros e irritações com o Governo

Em mais uma 'tacada' a Luís Montenegro, o antigo primeiro-ministro acabou por fazer algumas revelações sobre a sua vida atual, bem longe dos palcos políticos e sem paciência para "histórias da carochinha" por tudo aquilo que já foi obrigado a passar.
Rute Lourenço
Rute Lourenço
14 de maio de 2026 às 21:14
Passos Coelho critica o Governo e indica possível regresso à política
Passos Coelho critica o Governo e indica possível regresso à política

Aos 62 anos, Pedro Passos Coelho mantém-se afastado da vida política, tal como prometeu à mulher, Laura Ferreira, quando esta estava doente, garantindo que nada faltaria à filha de ambos. Em alternativa, começaria uma carreira como professor universitário, que o levaria a lecionar em duas universidades: no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e na Lusíada, em Lisboa, o que lhe assegura uma vida mais tranquila, mas nem sempre longe das principais polémicas. Isto porque o antigo Primeiro-Ministro não consegue manter arredado durante muito tempo daquilo que é a atual vida política em Portugal e, volta e meia, regressa aos escaparates devido às críticas ferozes que tece ao Governo e a Luís Montenegro.

Ao participar no colóquio 'Governação em Contexto de Crise', organizado pela Associação Académica da Universidade Lusíada, Passos Coelho não pouparia nas palavras dirigidas ao atual primeiro-ministro, ao mesmo tempo que revelaria um pouco daquela que é a sua realidade atual, nomeadamente quanto aufere como professor universitário. "O Estado trata qualquer pessoa com rendimentos medianíssimos como se fosse riquíssimo”, revelando que tem como rendimento líquido mensal um valor de 2000 mil euros, com uma taxa de imposto de 42% mais os 11% que paga para a Segurança Social. “O que se entrega ao Estado é uma brutalidade.”

Ao denunciar a situação, o antigo político garantiu também que a sua história de vida, depois de ter perdido a mulher para o cancro, em conjunto com o avançar da idade, faz com que se tenha tornado uma pessoa mais focada no que interessa. "É por isso que supostamente são líderes e têm essas responsabilidades. Não é para nos contarem histórias da Carochinha. Já não tenho mesmo paciência para histórias da carochinha. Primeiro, porque vou fazer 62 anos daqui a dois meses; e segundo porque já passei por muita coisa. A gente já devia ter aprendido com isto e parece que não aprendeu. Portanto, é deixar de contar histórias da Carochinha, falar das coisas, falar dos problemas que temos. Não é ser pessimista, é querer resolvê-los. Só podemos mobilizar o apoio das pessoas para mudar alguma coisa se lhes dissermos que alguma coisa precisa de mudar. E explicar porquê.”

A PROMESSA A LAURA E O INTERREGNO POLÍTICO

Foi em 2018 que Pedro Passos Coelho renunciou ao mandato de deputado. A decisão foi comunicada na reunião do grupo parlamentar do PSD, sendo que na altura o político era aplaudido de pé. A principal motivação para se abster da vida como deputado prendia-se, essencialmente, com o agravamento do estado de saúde da mulher, Laura Ferreira. A fisioterapeuta debatia-se há vários anos com um tumor num dos joelhos, mas foi naquela altura que a doença começou a galopar, com marcas severas para toda a família, principalmente para a filha em comum do casal, Júlia, então ainda uma menina.

Nos dois anos seguintes, Pedro Passos Coelho iria recolher-se numa espécie de bolha familiar, vivendo para Laura e para a filha e acompanhando o seu grande amor nos últimos tempos de vida. Laura Ferreira acabaria por falecer aos 53 anos, após cinco de uma dura batalha, que deixou marcas profundas no núcleo do político, que iniciara pouco antes um percurso académico a dar aulas no ISCSP e faria uma promessa a Laura, que nunca quebraria: estaria afastado dos principais palcos políticos enquanto a filha mais nova não fosse autónoma, o que acontece agora, uma vez que Júlia já é maior de idade.

Passaram-se vários anos desde o afastamento de Passos Coelho e ao longo dos últimos tempos tem havido sinais de alguma saudade por parte do político que, com a filha já encaminhada, e o bichinho da política a fervilhar dentro de si, não resiste a um ou outro apontamento, que sugerem que possa ter outras ambições que não uma reforma antecipada, aos 61 anos.

As críticas ao Governo têm sido muitas. Começou com a nomeação do antigo diretor da Polícia Judiciária para o cargo de ministro da Administração Interna, algo que considera um erro crasso. "Tenho a certeza que a escolha do primeiro-ministro se baseou na melhor das intenções. Mas o precedente é grave. Não se pode passar. Não é um bom sinal que se dá. Como não foi um bom sinal tirar um ministro das Finanças para o pôr como governador de Banco de Portugal", disse. E continuou, apontando o dedo à inércia do Governo em setores fulcrais como a saúde.

"A mudança depende sempre da liderança. Se o líder quiser mudar, muda. Pode acertar mais ou acertar menos. Mas muda. (...) O Governo está há dois anos e parece que está lá há quatro anos. Na política, só está quem quer. Só vai para política quem quer. Para fazer alguma coisa. Já houve muito tempo para pensar, imaginar e trabalhar os cenários. Esse tempo acabou. É preciso começar a trabalhar e a fazer qualquer coisa."

As palavras duras, proferidas ao longo de um discurso que durou uma hora, seriam mais tarde analisadas à lupa pelos principais comentadores políticos, que sugerem uma certa dose de saudades por parte do antigo primeiro-ministro que, apesar de estar afastado do universo, parece viver para e respirar política, tendo mantido, mesmo estando fora do circuito, todos os contactos importantes, almoçando esporadicamente com figuras de proa da política, mas rejeitando sempre um regresso a tempo inteiro, quando sobre isso confrontado.

UMA VIDA SOLITÁRIA

Pedro Passos Coelho não voltou a ter ninguém desde o fatídico ano de 2020, quando se despediu daquele que os amigos garantem ter sido o grande amor da sua vida – continua, inclusivamente, a usar aliança de casado. Por essa altura, e com o cancro espalhado, Laura há muito que tinha deixado os tratamentos, que já nada a podiam ajudar. Tinha passado o Natal em casa e Passos Coelho estava presente em todos os momentos, apoiando a mulher no seu final de vida. Já se dedicava, então, quase a tempo inteiro à família e, quem o conhece, assegura que as suas rotinas não se alteraram assim tanto desde essa época, muito por conta das mulheres que o rodeiam.

Pai de Joana e Catarina, filhas do primeiro casamento com Fátima Padinha, das Doce, o antigo primeiro-ministro acompanha firmemente a vida das mais velhas, mas tem em Júlia, da união com Laura, de 17 anos, a sua grande preocupação. Por isso, depois da partida da mulher, nunca mais colocou a profissão à frente da família. Aceitou o desafio de desempenhar o cargo de professor Catedrático, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, mas sempre com uma carga horária que lhe permitisse acompanhar Júlia nas rotinas escolares e levar a vida recatada que sempre fez questão de preservar.

Não mudou de casa. Continua a viver no mesmo apartamento, em Massamá, onde é frequentemente visto a passear o cão de família, Koda, e, ao longo dos últimos anos, esforçou-se por honrar a promessa que fez à mulher de estar ausente da vida política.

Sempre rejeitou voltar à cena política, justificando que isso causava uma distração mediática. "Cada vez que apareço, isso põe as pessoas a olhar para o passado e não para o futuro. Não quero de todo alimentar isso ou desviar a atenção do presente", fez saber, não tendo, no entanto, problemas em abordar temas polémicos como a imigração. "Nós precisamos de ter um País aberto à imigração, mas cuidado que precisamos também de ter um país seguro". E reiterou: "Na altura, o Governo fez ouvidos moucos disso, e na verdade hoje as pessoas sentem uma insegurança que é resultado da falta de investimento e de prioridade que se deu a essas matérias. Não é um acaso".

No entanto, e apesar de sempre ter rejeitado uma candidatura política, há quem diga que é uma questão de tempo e que, mais dia menos dia, Passos Coelho irá voltar. Se será esse o cenário, só o tempo o dirá. 

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