Não é todos os dias que se tem um ministro a cozinhar para nós. Jorge Rebelo de Almeida, o dono dos hotéis Vila Galé, desafiou Miguel Pinto Luz, titular da pasta das Infraestruturas no atual governo, para ser 'Chef Improvável' por uma noite num dos seus hotéis em Lisboa e este aceitou o desafio. E disse sim sem hesitar, explicando aos 32 comensais presentes na sala as razões porque o fez. "Cozinhar, para mim, é o maior escape que tenho na vida. Adoro cozinhar, ainda hoje fiz o almoço em casa. É algo que me permite viajar e adoro ter novas experiências de estar na cozinha e à mesa", confessou à The Mag by FLASH!, justificando e salientando porque não podia faltar à chamada do anfitrião: "E ao convite que o Jorge me endereçou disse logo que sim. Acompanho o trabalho que ele tem feito nos hotéis e louvo muito. Há 40 ou 50 anos havia a tradição em Lisboa de se ir comer aos hotéis e depois perdeu-se. Há um esforço de se trazer de novo a alta gastronomia aos hotéis e isso é muito importante".
O ministro sentiu ainda necessidade reviver os momentos e as razões porque tachos e panelas são o seu refúgio e bálsamo mental. "Cozinho desde criança, desde que me conheço. O chef que hoje nos ajudou começou a cozinhar quando teve que tirar o curso de culinária. Na minha casa é diferente. O meu avô materno é de Argel, em Caminha, a minha avó materna é da Murtosa, o meu avô paterno é de Lagos e a minha avó paterna é de Cascais. E portanto eu tenho costelas de norte a sul do país. Adoro doçaria, adoro salgados e hoje convido-vos a desfrutar, como está muito calor, dos meus pratos: Vamos começar com um gaspacho, porque a minha mulher, a Ana, é espanhola, os meus filhos têm todos dupla nacionalidade, e em homenagem à Ana, aos meus filhos, e a todos vós, fiz um gaspacho, servido com uns croûtons, uns pimentos picadinhos, com ovo para quem quiser", descreveu, deixando os detalhes para o parágrafo seguinte.
APAIXONADO PELOS PRODUTOS TRADICIONAIS DA TERRA
"Depois vamos para um pargo legítimo que veio de Sesimbra, numa cama de tomate coração de boi, algo com que estamos a voltar às raízes, perdemos muito do sabor nos legumes que tínhamos e hoje até nos supermercados estamos a voltar a esses sabores. O coração de boi tinha quase desaparecido e agora volta outra vez", descreve, revelando uma panóplia de condimentos secretos na sua receita: "Cama de coração de boi, dizia, com cebola roxa, com pimentos, com alho, regado com um bom azeite aqui do Jorge, regado com vinho branco, também do Vila Galé e do Jorge e depois com alecrim, com salsa, que é essencial na parte interior do peixe, para dar muito sabor. Com batatinhas nova pequenina assada no forno com orégãos".
E porque está calor e sabe bem comer algo fresco a fechar uma refeição, Miguel Pinto Luz optou por frutos da época, dando-lhes frescura e também acidez. "Para terminar uma sopa de frutos vermelhos que foram macerados em xarope de agave, lima e raspa de lima. Tem uma colher de iogurte para quem achar doce, e depois tem uns suspiros esmagados por cima, uma coisa leve", reconhece, resumindo o menu: "Frio, peixe bom, português, e o doce".
Ao contrário da calma que mostra nas lides políticas, principalmente quando os temas são mais complexos, o ministro das Infraestruturas confessou estar receoso de desiludir amigos que convidou, como a presidente da Fundação Champalimaud, Leonor Beleza, ou o amigo Francisco Calheiros, o patrão do turismo em Portugal, ou ainda o autodidata crítico gastronómico Isaltino de Morais, edil de Oeiras, um dos comensais sobre quem recaíram muitas da atenções nessa noite. "Não provei nada, estou nervoso, já disse ao Jorge que tenho medo que o pargo esteja seco. Temos dois pargos de três quilos e depois uns mais pequenos. O pargo é um peixe com muito sabor mas que depois seca. Este peixe tem esse comportamento, e essa particularidade. Obrigado por estarem aqui neste dia a experimentar uma loucura no meio de uma vida agitada", rematou.
UMA BATALHA PARA ELEVAR O SERVIÇO DE RESTAURANTE NOS HOTÉIS
Mais confiante no sucesso do repasto estava Jorge Rebelo de Almeida, o CEO do Grupo Vila Galé, que construiu a pulso ao longo de mais de 40 anos, e que tem inúmeras iniciativas para revitalizar e elevar a hotelaria em Portugal em geral, e no seu universo hoteleiro em particular. "Isaltino Morais foi o nosso primeiro 'cozinheiro Improvável' aqui nos hotéis Vila Galé, trouxe enchidos de Mirandela e fez um jantar criativo", começou por salientar, enquanto o ilustre referenciado sorria e comia umas azeitonas e umas pequenas fatias de pão: "Hoje temos que mostrar que nos hotéis, ao contrário do que algumas pessoas pensam, se come bem. Há ainda quem tenha uma suspeição sobre a qualidade gastronómica dos hotéis que é injusta. Hoje na restauração em Portugal come-se muito bem. Nos hotéis, então, houve uma evolução tremenda. Piorou-se no serviço de sala, mas com os chefs melhorou-se. Os chefs têm mais glamour, mais impacto".
Jorge Rebelo de Almeida, de 75 anos de idade, relembrou como tudo era diferente em 1985, quando começou a crescer no universo da hotelaria. "Quando eu comecei a hotelaria há 40 anos, os chefes de sala é que eram as vedetas. Vinham às mesas fazer uns crepe Suzete, um bife Marrare e com grande exibição. Hoje inverteu-se isto, a qualidade das salas caiu, mas estamos a puxar por elas para lhes dar mais charme e glamour", conta, mostrando a sua visão e o seu trabalho de inovar: "Hoje os hotéis são lugares de cultura. Nós às quartas-feiras temos as quartas de jazz, vem o Nicolau Santos, o Lourenço da banda dele. Vem o meu amigo Daniel Proença de Carvalho, a segunda das quartas é dele e da banda incrível dele. Vêm os irmãos Pinto Barbosa. Hoje vamos ter aqui uma experiência de ópera, uma pequena brincadeira. Temos hotéis onde se declama poesia".
Sobre o trabalho do ministro Miguel Pinto Luz na cozinha, Jorge Rebelo de Almeida confirmou à The Mag, by Flash, que o mesmo se estava a "safar" muito bem antes do jantar começar a ser servido. "Ainda meti um avental para o ajudar na cozinha mas percebi que não era preciso. Ele está a fazer tudo como se estivesse na casa dele. Está a controlar todas as estações, está a fazer o empratamento sob orientação do nosso chef". Quanto ao veredito final, o CEO do Grupo Vila Galé alvitrou: "Do que cheirei, que não provei, o jantar do senhor ministro está muito bom".