A polémica escalou ao ritmo frenético e explosivo das redes sociais e, num par de horas, poucos eram aqueles que não tinham opinião sobre a mais recente 'tirada' de Cristina Ferreira. Se, ainda assim, foi das raras exceções a quem o algoritmo não mostrou o vídeo, damos-lhe um contexto. Durante a crónica criminal do 'Dois às 10', da TVI, o painel de comentadores analisava o início do julgamento dos quatro jovens acusados de violar uma adolescente, de 16 anos, durante duas horas, enquanto expunham o vídeo na internet.
Ao tecer a sua opinião sobre o assunto, Cristina analisou o comportamento dos jovens e acabou a fazer uma declaração que fez explodir a polémica, que geraria revolta um pouco por todo o País, tornando-se viral. "Mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve – claro que têm de ouvir –, alguém entende aquele: 'não quero mais?'", questionou a apresentadora, sendo que as reações não se fizeram esperar.
O influenciador Kiko is Hot foi o primeiro a colocar o dedo na ferida. "Sim, entende Cristina, sabes porquê? Porque nós não ficamos surdos. Quando estamos a fazer sexo, não ficamos surdos. Como é que acham que uma jovem de 16 anos, que foi gravada, explorada, violentada, se sente ao ligar a televisão e ouvir isto? Há coisas que não são opiniões", atirou, numa polémica em que, pela primeira vez, vimos figuras públicas do contexto televisivo criticarem publicamente a diretora da TVI.
Nuno Markl também caricaturou o assunto, na sua conta de Instagram, e Andreia Rodrigues, da estação concorrente, não se calou perante o assunto polémico. "Há silêncios que não me pertencem. Há temas que não podemos relativizar, nem sobre os quais podemos desviar o olhar. Respeito e proteção são um direito. Há "nãos" que não têm de ser ditos. Não devem sequer precisar de ser ditos. Estão implícitos. E nada pode justificar ultrapassar essa barreira. Nada. Mesmo nada."
Já Iva Domingues, foi perepmtória ao afirmar: "Ou é consentimento ou é crime. Ponto final."
As declarações espalharam a revolta, e desta vez o silêncio foi a arma de Cristina, que na última grande polémica havia dito que as suas palavras foram tiradas do contexto e exacerbadas. No entanto, aquilo que muitos salientam e que a apresentadora nunca poderá negar está relacionado com os seus deveres enquanto cidadã no meio de tudo isto. É que se é certo que tudo o que inclua o seu nome possa ser empolado, extrapolado, tornando-se muito maior do que se o protagonista fosse outro qualquer, a verdade é que isso só acontece porque Cristina Ferreira é, ela própria, uma das figuras públicas mais idolatradas em Portugal, seguida por 1,6 milhões de pessoas e com o sucesso vem uma responsabilidade social acrescida, que faz com que, para o bem e para o mal, tudo o que a apresentadora diga possa ajudar a formar novas opiniões, especialmente quando o tema é o empoderamento feminino, uma das suas bandeiras. E claro que Cristina é falível, como comum mortal que, no fundo, é, mas talvez também aí se exija que se errar dê, depois, a mão à palmatória, tomando posição claras e explicando-se melhor quando os temas se prendem com assuntos cujos números geram alarme (no ano passado houve um aumento de 6,4% de crimes de violação em Portugal, com 578 casos reportados às autoridades).
AS (MUITAS) GAFES DE CRISTINA
As mais recentes polémicas de Cristina ainda estão bem frescas na memória de muitos e a associação foi quase imediata. Quando o mais recente caso explodiu, nas redes sociais lembrou-se prontamente a controvérsia do "ela pôs-se a jeito", relativamente à mulher, de 69 anos, que foi encontrada morta em junho, depois de se ter encontrado com o ex-namorado, Jair Pereira. "Não sei se esta mulher depois do baile entrou num carro com ele, e aí é que se calhar se pôs a jeito para que isso acontecesse", disse, o que tal como agora motivou uma queixa na ERC, que lembrou que as declarações infelizes colocam o ónus da questão na vítima e não no agressor. "Estas declarações transferem a responsabilidade do sucedido para a(s) vítima(s), sugerindo que a decisão da mulher de acompanhar o alegado homicida foi o fator determinante para o desfecho. O agressor é, assim, desresponsabilizado, já que a morte se terá dado com base naquela decisão da mulher. Declarações deste teor têm necessariamente um impacto, não só sobre a forma como a sociedade vê o problema da violência de género, incluindo feminicídios, como, igualmente, sobre as próprias vítimas, já que o discurso público mediático as responsabiliza e as revitimiza, podendo eventualmente ter impacto nas suas decisões de denunciar", podia ler-se na deliberação.
No entanto, os puxões de orelhas não ficaram por aqui e sobre a expressão utilizada, Teresa Silva, responsável da associação Rede de Jovens para a Igualdade afirmaria à 'Sábado': "Podemos ter uma reflexão crítica sobre porque é que continuamos a culpabilizar as mulheres [em casos de violência], mas isto não é uma expressão inocente. Quem utiliza esta expressão culpa diretamente as mulheres".
Após a onda de críticas, a estrela apresentadora afirmaria que a frase foi "retirada de contexto". "Na sequência do debate falei dos tempos que correm e de como não podemos já confiar em ninguém. O alerta tinha o propósito da defesa de cada um de nós em relação a desconhecidos ou relações abusivas e controladoras. A frase pôs-se a jeito usada, no contexto, tinha tudo menos o propósito de culpabilizar a mulher, aliás o que se pretende é exatamente o contrário".
No entanto, a polémica - que acabaria por ficar adormecida - acabaria por voltar à tona ainda durante o 'Secret Story', quando a opinião de Cristina sobre o triângulo amoroso Eva/Diogo/Ariana também daria que falar. "Porque é que ela é que tinha de recuar? Porque que é que ela tinha de ter respeito por uma pessoa - e isto é cru, o que vou dizer - que não conhece de lado nenhum?", questionou a apresentadora, num comentário não isento de críticas. "Porque o respeito não nasce da proximidade, Cristina. Nasce do carácter. Se só respeitamos quem conhecemos, então tudo o resto é terreno sem lei. As relações dos outros não me importam, os limites do outro não importam, os sentimentos dos outros não me importam, eu não os conheço. Isso não é liberdade, é uma ausência de princípios", afirmaria a influenciadora Rute Dias.
Ainda recuando ao passado, a um outro comentário infeliz sobre a temática da violência doméstica, Cristina explodiria para garantir. "Esta coisa de pôr a tromba da Cristina numa cena que já sabem que é viral e que vêm não sei quantos dizer que vergonha isto aquilo e vai dar resultado", atirou, num discurso irritado que, porém, talvez não reflita o essencial, e que se prende com a tal responsabilidade social de quem é admirado por um País e tem de ter consciência de que, num dia, esse mediatismo nos pode levar a esgotar o stock da marca e no seguinte a ser questionado por uma declaração infeliz, que provavelmente nem reflete aquilo que pensamos.