Todos vimos na televisão, durante o jogo entre Portugal e o Uzbequistão, Cristiano Ronaldo a preparar-se para marcar um livre à entrada da área. Era o minuto 17, todas as câmaras de televisão apontavam para CR7, dando um plano fechado do rosto do jogador. O avançado português mira a baliza, respira, volta a mirar a baliza. Um estádio e dois países estão congelados. Um com medo que Portugal marque o tento. Portugal com o coração aos saltos com medo que Ronaldo falhe o lance. A barreira de defesa estava filada em Cristiano. Os jogadores portugueses criaram alguma distração ao questionar a posição dos uzebeques no terreno. E, quando o arbitro marroquino Jalal Jayed apita, quem se movimenta do lado direito e marca o livre e o golo é Nuno Mendes. Esta jogada estranha, pouco usual da equipa das Quinas, tem um segredo. E um responsável. Ela saiu da cabeça de Austin MacPhee, o escocês de 46 anos de idade que Roberto Martínez escolheu em fevereiro de 2025 para ser um dos seus adjuntos na Seleção Nacional.
Mas quem é afinal este especialista em bolas paradas que fala inglês com sotaque da Escócia e prepara cantos e livres a régua e esquadro e deixa os adversários a coçar a cabeça sobre como foi possível ou mesmo intrigados sobre o que acabou de acontecer? O guru de tudo isto chama-se Austin MacPhee, é um treinador de futebol escocês que trabalha como treinador de bolas paradas no Aston Villa, a última equipa vencedora da Liga Europa, e é reconhecido no futebol moderno como sendo um dos maiores especialistas mundiais em bolas paradas e jogadas de laboratório.
O GURU DAS BOLAS PARADAS QUE CONVENCEU RONALDO
Foi ele quem conseguiu convencer Cristiano Ronaldo de que não tinha de ser sempre ele a marcar todos os livres e tem em especial trabalhado bolas paradas com CR7 e Bruno Fernandes. Mas a sua fama vem das terras de Sua Majestade Carlos III. Tem sido ao serviço do clube de Birmingham, sob a orientação do mister Unai Emery, que o seu trabalho meticuloso tornou a equipa inglesa numa das mais bem sucedidas da Europa em lances de bola parada. A eficácia destas dinâmicas refletiu-se no culminar de uma campanha vitoriosa da equipa na última temporada da UEFA Europa League.
Conhecido pela sua imagem irreverente de cabelo loiro longo, ao bom estilo de vocalista ou baixista de banda de heavy metal, MacPhee foca-se na análise de vídeo intensiva e no envio de animações e gráficos explicativos diretamente para os telemóveis dos jogadores que prepara, sempre com o a obsessão de otimizar os tempos de reação em campo.
Não foi um jogador de futebol brilhante, mas a sua perícia nas bolas paradas tornaram-no num dos mais cobiçados técnicos da atualidade. Austin teve uma curta e mal sucedida carreira enquanto jogador profissional. Mudou-se para os EUA aos 20 anos, onde jogou durante três épocas no Wilmington Seahawks. Não se afirmou na equipa e foi transferido depois para o Dacia Unirea Braila, da Roménia. Alinhou ainda, durante três temporadas, no modesto FC Kariya, onde acabou por pendurar as chuteiras.
DEIXOU TUDO PARA SALVAR O PAI DO CANCRO
Atuou como treinador adjunto e especialista na seleção escocesa entre 2021 e 2024, tendo deixado o cargo por motivos estritamente familiares ligados à saúde do seu pai, cujo nome nunca quis divulgar por uma questão de privacidade, mas que travou, com o apoio do filho, que o acompanhou em todos os tratamentos, uma dura batalha contra um cancro. MacPhee abandonou em 2024 a Seleção escocesa por motivos particulares e a sua saída acabou por abrir as portas ao convite de Roberto Martínez, que em boa hora o captou para a Seleção portuguesa meses depois, para viver um dos momentos mais duros praticamente no arranque desta ligação.
Semanas após as comemorações da Liga das Nações de Portugal, em 2025, Diogo Jota morre num acidente de carro, com apenas 28 anos. A morte da estrela do Liverpool e da Seleção de Portugal chocou o futebol em toda a Europa e Austin MacPhee viajou para Portugal para estar presente no funeral, junto com toda a equipa técnica e os jogadores portugueses.
O mestre nas bolas paradas desempenhou funções na Seleção da Irlanda do Norte (onde se estreou nas grandes competições no Euro 2016), no FC Midtjylland da Dinamarca (clube pioneiro na análise de dados e lances de estratégia) mas antes, em 2007, treinou o Cupar Hearts, que levou à vitória na Taça Amadora da Escócia, pela primeira vez em 112 anos. Cupar foi, aliás, a terra que o viu crescer e tentar afirmar-se no futebol. Ao jornal 'The Courier', Austin contou que, em criança, "deslizava pelos campos de cascalho de locais saindo de lá com cortes, hematomas e pedras cravadas nos joelhos", problemas que competiam à sua mãe, Nora MacPhee, tratar sempre que chegava a casa depois das futeboladas.
MIÚDO POBRE DE CUPAR, GANHA BOLSA DE ESTUDOS NOS EUA
Apesar da sua longa jornada desde a Escola Primária Castlehill até à universidade nos EUA, a pequena cidade de Cupar, e Fife, na Escócia, foi o centro da sua vida. Criado em lares modestos em Falkland e Cupar, Austin MacPhee não era um prodígio adolescente como Kenny Dalglish ou Denis Law. Após frequentar a Castlehill Primary e a Bell Baxter High School, aproveitou bem todas oportunidades que lhe surgiram. Quando jogava nas categorias de base do Forfar Athletic, não se conseguiu afirmar na equipa principal. Se para alguns isso seria o fim do sonho, para ele foi o começo. Ganha uma bolsa de estudos que o levou aos Estados Unidos, onde foi capitão do equipa de futebol americano Wilmington Seahawks enquanto estudava na faculdade. Nos EUA, ele aprimorou a sua atitude proativa e resolutiva. Após passagens profissionais pela Roménia e pelo Japão, retornou ao seu país e à sua pequena cidade determinado a construir algo próprio. E venceu sempre.
Roberto Martínez não estava satisfeito com a capacidade técnica dos seus jogadores nas bolas paradas, sobretudo as ofensivas, e quis ter a seu lado um técnico fresco que está no ativo na Liga Inglesa, uma das melhores do Mundo, e em constante atualização, garantindo que nenhuma nova tendência ficaria fora do radar da Federação Portuguesa de Futebol. MacPhee tinha sido um futebolista discreto mas, ao enveredar pela carreira de treinador, muito cedo começou a mostrar trabalho nos clubes e seleções por onde foi passando: Cowdenbeath, St. Mirren, Irlanda do Norte (primeira qualificação para um Europeu), Heart of Midlothian, Escócia, Midtjylland, Aston Villa e agora a Seleção de Portugal.
O MAIS EFICAZ TÉCNICO DO MUNDIAL 2026
Num ano, o efeito do escocês na finalização das bolas paradas (recorde-se que só na última temporada as suas jogadas de laboratório valeram ao Aston Villa 18 golos, cerca de 32% de todos os golos da equipa, excluindo penaltis) já está a dar resultados práticos no Mundial 2026, um ano e quatro meses depois da sua chegada. MacPhee tornou-se mesmo uma estrela entre os jogadores convocados da nossa Seleção e todos param atentos para escutar as suas palestras, que Roberto Martínez integra em cada treino.
Além das palestras, o escocês integrou treino de livres diretos com barreiras formadas por bonecos em bicos de pés, mas que mecanicamente também se elevam para simular o que acontece habitualmente nos jogos.
O grande salto na carreira acabaria por acontecer em 2021, quando o trabalho de MacPhee chamou a atenção do Aston Villa. Ao mesmo tempo que se mudava para Birmingham, o treinador desvinculou-se da seleção da Irlanda do Norte e passou a treinar a Escócia durante os períodos de compromissos de seleções. O seu desempenho na Premier League não desiludiu. Na temporada 2023–24, o Aston Villa marcou o maior número de golos de bola parada de sempre numa equipa europeia, convertendo com sucesso 25 destes lances, e qualificou-se para a Liga dos Campeões. Na última época, os golos de bola parada contribuíram também muito para a conquista da Liga Europa, o que levou os adeptos do Aston Villa a cantar o nome de MacPhee nas bancadas durante o jogo da final. Os villans já não venciam uma competição europeia desde 2002 e MacPhee tornou-se um herói para os adeptos. Será que Portugal também lhe vai dedicar um cântico? Temos que esperar para ver. Para já, a Croácia que o aguarde...