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Vamos viajar com livros? Três propostas para descobrir novos mundos nestes dias de solstício

Um clássico, uma redescoberta e uma bela surpresa. Aproveite os dias longos e o fim de semana para por a leitura em dia. Trazemos três propostas pouco comuns para escritas de forma magistral e que nos transportam para cenários que fazem parte do nosso imaginário.
Luísa Jeremias
Luísa Jeremias
16 de junho de 2022 às 22:12

1.

"Podemos até ter conhecido pouco da Rússia - mas o que se aprende é a observar e julgar a Europa com um conhecimento consciente do que se passa na Rússia". A frase data de 30 de janeiro de 1927. Faz parte do 'Diário de Moscovo', um dos capítulos de 'Diários de Viagens' do nómada Walter Benjamim, filósofo, intelectual e assumidamente viajante sem domicílio, ávido de conhecer o mundo que serviria de matéria prima para o seu pensamento. 

Os 'Diários de Viagem', agora publicados pela Assírio & Alvim, num dos volumes da coleção que recupera a obra do autor, valem a pena cada segundo que lhe dedicamos, um século após serem escritos. Itália, Moscovo, Paris, Ibiza... Walter Benjamim descreve locais e vivências, sensações e a criação de um mundo novo que se vivia no início do século, antes que a guerra arrasasse tudo à sua volta. Benjamim, berlinense, conta nestes 'Diários' a História de uma Europa dividida, receosa, por vezes livre, que ajudam, de forma leve, ao melhor estilo de um viajante a conhecer quiotidanos e porquês.

Acha o leitor que se vai "enfadar" destas descrições? Nem pense. Irá ler tudo como quem suga História para com ela perceber melhor o presente que vivemos. Glória a Benjamim que escreveu para que a realidade não se perdesse na espuma da memória. 

Walter Benjamim

'Diários de Viagem'

Assírio & Alvim

'Diários de Viagens', de Walter Benjamim
'Diários de Viagens', de Walter Benjamim

2.

Mudamos de cenário. E de tom. Entramos num espaço onde ficção se mistura com realidade e ficamos sem perceber onde começa uma e termina a outra, tantas e de tal forma as obras de Hemingway são biográficas. 'As Verdes Colinas de África', romance (será?) reenditado pela Livros do Brasil, leva-nos a um território familiar ao autor: a caça, que ele tanto amava, neste caso particular na paisagem seca da savana do Serengueti. Ao longo de todo o livro ficamos sem perceber se o que aqui é descrito foi o ou não. Supostamente a história descreve o que se passou num safari onde o autor participou com a mulher. Dois meses pelas planícies do coração de África, plenos de aventuras de fazer parar o coração, com descrições minuciosas de animais e seus hábitos e da atividade defendida por Hemingway como nobre: a caça.

"Havia uma pista de caça ao longo do ribeiro e Droopy estava curvado a examiná-la. M'Cola acercou-se também para olhá-la; seguiram-na durante uma pequena distância, pararam para olhá-la mais de perto e regressaram de novo para junto de nós. 

- Nyatti - disse M'Cola  meia-voz - Búfalo."

Literatura de viagens, reportagem ou ficção? Caberá ao leitor tirar as suas conclusões - se lhe apetecer ou conseguir. Na certeza de que, com este livro conseguirá uma coisa: sonhar. 

Ernest Hemingway

'As Verdes Colinas de África'

Livros do Brasil 

'As Verdes Colinas de África', de Ernest Hemingway
'As Verdes Colinas de África', de Ernest Hemingway

3.

Garante na própria capa que é um "romance inspirado na história real", mas na verdade não é romance nenhum. É, isso sim, uma espécie de tese, um relato histórico de um Portugal colonial que estendia braços por África e Brasil e se via e desejava por entender quem nessas paragens vivia. 'Páscoa e seus dois maridos' (titulo sugestivo) é assinado pela historiadora Charlotte de Castelnau L'Estoile. E, resumindo de forma "fria", narra o destino de uma escrava "apanhada" num caso de bigamia e julgada pelo mesmo na preconceituosa capital do Império, no início do séc. XVIII. Entre muitas explicações que nos situam no tempo e nos vão contextualizando na realidade da época, é não só contada a bizarra história da protagonista como (e isso é o mais apelativo) feita a descrição do que era Angola e do que era a Bahia. O triângulo dourado. O livro podia ser mais ágil, é certo, seguindo o exemplo do seu título, mas vale bem a leitura por tudo o que consegue relatar sobre esse tempo, tão pouco detalhado nas compilações de História, de forma "informal", minuciosa e falando sa escravatura sem pudores e sob a forma de costumes. 

No final, o destino da escrava Páscoa e dos seus "dois maridos" é o que menos conta nesta narrativa que, acredite, vale a pena.

Charlotte de Castelnau L'Estoile

'Páscoa e seus dois maridos'

ASA

ASA

eus dois maridos', de Charlotte de Castelnau L'Estoile
eus dois maridos', de Charlotte de Castelnau L'Estoile

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