“Apoiar o Chega nunca foi impeditivo de receber um convite.” Foi desta forma que Ricardo Araújo Pereira, durante a participação na rubrica 'Facto Político', da SIC Notícias, afastou a ideia de que a ligação ao partido de André Ventura esteja na origem da ausência do líder do Chega do 'Isto É Gozar Com Quem Trabalha', da SIC. Para sustentar a sua posição, o humorista lembrou um nome em concreto: “Jaime Nogueira Pinto apoia o Chega e foi convidado do programa.”
A questão é, então, outra. Ricardo Araújo Pereira lembrou que a própria ERC já se pronunciou sobre o assunto e aproveitou para questionar a preocupação em torno da sua decisão, sobretudo quando compara a atenção dada a um programa de entretenimento com a presença de André Ventura nos espaços jornalísticos.
“Não posso deixar de achar interessante que a nossa sociedade se preocupe mais com o facto de eu não convidar o André Ventura para um programa de entretenimento do que com o facto de os jornalistas estarem constantemente a convidar André Ventura”, afirmou o humorista.
Na opinião de Ricardo Araújo Pereira, há uma diferença entre um político ser convidado para uma entrevista e aceitar esses convites de forma recorrente. “Imagino que os jornalistas formulem convites ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro, ao líder da oposição, o que é justo, aos líderes de outros partidos e que eles não aceitem. Mas o facto de um aceitar sempre não significa, provavelmente, que deva ser sempre convidado.”
Ricardo Araújo Pereira recordou depois uma situação que, para si, ilustra precisamente essa ideia. “No outro dia, André Ventura despediu-se de uma entrevista e disse: ‘Até...’. Fez uma pausa e disse: ‘Até à próxima’. Eu acho que ele iria dizer até amanhã. Ia com o balanço de dizer: ‘Já sei que amanhã vou cá estar outra vez’.”
Mas houve ainda outro ponto que acabou por entrar na conversa: a acusação de que o 'Isto é Gozar com Quem Trabalha' dedica particular atenção ao Chega nas suas sátiras. Ricardo Araújo Pereira rejeita essa perceção e garante que basta consultar os guiões do programa. “As pessoas dizem que estamos sempre a falar do Chega. Vou ver os guiões, posso disponibilizá-los, e desafio a encontrarem um enfoque especial no Chega.”
O humorista entende que a sensação de uma presença constante do partido também resulta da reação às sátiras. “O que se passa é que, sempre que falamos no Chega, o Chega faz uma choradeira bastante conspícua.” E compara essa reação com a de outros partidos: “A questão é que os outros políticos têm o bom senso de dizer: ‘Olha, calhou-me a mim esta semana’.”
Ricardo Araújo Pereira deixou ainda uma última explicação para aquilo que considera justificar uma maior atenção dos humoristas a determinadas forças políticas. “Há partidos que têm uma índole, digamos, mais espalhafatosa do que outros. Por isso, é normal que isso esteja mais sob a lupa de humoristas, que tenham uma inclinação especial para o bizarro, do que outros partidos.”