José Maria Ricciardi, de 71 anos, morreu esta terça-feira, 24, vítima de doença prolongada. Para a história do antigo administrador do BES fica a guerra que travou com o primo, Ricardo Salgado, de 81 anos, e que sofre de Alzheimer.
Mas como é que dois primos, que foram criados como irmãos, chegaram ao ponto de se tornarem inimigos quando o império BES começou a desmoronar? O próprio Ricciardi contou tudo em tribunal: "Na primeira vez que cheguei ao Conselho Superior, estavam já quase todos os membros e o meu pai, que era o presidente, informou que o Conselho não podia começar porque Ricardo Salgado não estava. Causou-me espanto, porque ele era um vogal como qualquer outro, mas tivemos de ficar à espera. Foi o começo de um certo desentendimento com Ricardo Salgado", recordou perante a juíza.
"Em vez de começarmos a discutir assuntos, Ricardo Salgado começou a debitar o que tinha sido feito e o que se ia fazer, tanto no setor financeiro, como não financeiro. E eu levantei o braço e perguntei se era para discutirmos os assuntos ou se era para ouvir Ricardo Salgado dizer o que íamos fazer… a partir daí começou a tomar-me de ponta, porque viu que eu não estava disposto a fazer a mesma figura dos outros no Conselho Superior do grupo", frisou, acrescentando que o primo "fazia tudo o que lhe apetecia", enquanto o Governador do Banco de Portugal "assobiava para o lado", disse ainda o antigo administrador do BES.
José Maria Ricciardi era visto pelos Espírito Santo como o grande traidor do clã, o homem que não vacilou em denunciar Ricardo Salgado. A família virou-lhe as costas: "A relação é quase inexistente, para não dizer zero, para minha grande mágoa. Digo-o com amargura, mas a reação familiar neste desenlace é uma desilusão e uma grande lição de vida. Ainda hoje predomina o entendimento familiar de que a minha oposição ao Dr. Salgado foi a alavanca do desmoronamento do grupo – o que não é verdade", disse o agora falecido José Maria Ricciardi em entrevista ao jornal 'Sol.