Quando o "Palito 2" começou a dar baile às autoridades e a assustar populações pouco habituadas a caçadores deste calibre nas redondezas, eu estava fora. Estava. Andava mais preocupada com as mentiras do Donald Trump e as sérias hipóteses que tinha de levar a melhor nas eleições norte-americanas que se aproximam, andava mais ralada com o IMI, com o orçamento, com as contas lá de casa. Enfim, com questões de somenos importância comparando com uma novela com audiências como esta.
Quando voltei à realidade e aterrei em Lisboa, a primeira notícia que me mostraram foi a "deste escândalo! Tu já viste?!" Eu não tinha visto nada. Nem sabia quem era Pedro Dias, o "Palito 2", "o fugitivo" (que muito fica a dever a Harrison Ford), o Tom Cruise na ‘Missão Impossível’ (mais uma vez salvaguardando as devidas comparações de parecença...), enfim, a nova personagem mais detestada do país (só comparável ao Passos Coelho, coitado, nos tempos de "aperta o cinto", e sendo que este nunca teve a capacidade de dar a volta à bófia como este novo perigoso meliante.
Desde o "tu já viste este escândalo" até agora, a novela correu, os dias passaram, a CMTV somou pontos, a concorrência alegadamente generalista foi atrás e abriu jornais de horário nobre com notícias dignas de primeira página do finado ‘24Horas’. E eu, que ia vendo aquelas imagens de filme português subsidiado, com muita chuva, paisagens improváveis mas um protagonista de primeira, comecei a achar que esta história, de facto, era tão boa como a do Trump (mas em versão pobrela) e que quase dava um guião ao estilo ‘Apanha-me se Puderes’, de Spielberg, mas em comédia. Calma, não quero ofender ninguém.
Estou solidária com quem argumenta que "isto é um escândalo", aceito que o núcleo cómico desta novela é o das autoridades desautorizadas a quem o protagonista troca as voltas (e consegue sempre fugir)... Só me aflige, confesso com o peso que uma novela destas ganha no dia a dia dos seus fiéis espectadores. Bem sei que os bons policiais são best-sellers. E, sim, acho que é "um escândalo".
Mas o pior é que é sinónimo do país real. O que ainda não fez a revolução. O que foi esquecido. E criou "isto", monstros, perseguidores sem faro, avistamentos que podiam ser de ovnis mas são de um ser humano, populações com medo. Este é o país que já não devia existir, mas está aqui. E que não vem nos guias turísticos. Mas dá um filme. Infelizmente. E cujo desfecho, seja qual for, deixa um gosto amargo na garganta. Como a campanha presidencial americana. Porque depois do que se viu, já não e possível voltar atrás e esquecer a realidade.