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Luísa Jeremias
Luísa Jeremias No meu Sofá

Notícia

Como tudo acaba em samba

Uma sexta-feira luminosa na qual o Maracanã se encheu de graça para dar as boas vindas aos tão desejados Jogos na América do Sul
14 de agosto de 2016 às 17:21

Depois de meses de terror em que tudo parecia desabar, em que os "velhos do Restelo" vaticinavam já não ser possível, "não ter jeito", o sol voltou a brilhar na Cidade Maravilhosa. O milagre deu-se na semana passada. Uma sexta-feira luminosa na qual o Maracanã se encheu de graça para dar as boas vindas aos tão desejados Jogos na América do Sul. E num banho de cor, um caleidoscópio de ideias, tão cinematográficas como carnavalescas, os Jogos tiveram início, imponentes, criativos, magníficos, belos, como seria de esperar na cidade do samba e dos desfiles de Carnaval. Os rostos abriram sorrisos e os "velhos" exclamaram sempre terem acreditado ser possível – como se alguém lhes desse ouvidos. As crianças pularam e os que cresceram mas continuam seus pares entreolharam-se, olhos brilhantes, como quem sussurra: ainda é possível.

Mas como chegámos aqui? Em quatro anos o Rio de Janeiro transformou-se numa nova cidade. Não maravilhosa pois isso está na sua geografia, mas a preparar-se para o futuro. Obras gigantes foram traçadas, raras estão já terminadas. Mas as que estão, são de tirar o fôlego. O Museu do Amanhã nada fica a dever ao vizinho de Niterói, de Arte Contemporânea, Oscar Niemeyer. Lança a cidade para o amanhã. É certo que o metro ainda não chega à Barra (nem a quase lugar nenhum), que a favela voltou a descer até ao asfalto (sim, ainda é assim), que as unidades pacificadoras se tornaram focos de distúrbio, e, pior que tudo, que se perdeu (quase) definitivamente a esperança na classe política, arrastada pela lama da corrupção a toda a linha.

É certo tudo isto. Mas numa noite em que os fogos que jorram do Maracanã se assemelham as penas reais de um ocã índio, o momento faz-nos acreditar no tal milagre, na tal frase repetida vezes sem conta de que "Deus é brasileiro" e é por isso que o país se saberá reinventar e reinventar as vezes necessárias para renascer mais forte e saudável. Foi o que aconteceu na tal noite iluminada de sexta-feira. A do nosso contentamento. A que abriu aquele sorriso de satisfação, de prova superada, de golo marcado, de chegada à meta. Ou, se calhar, de regresso à casa de partida, agora para jogar a sério.

A festa acabou em samba, claro, com Zeca a deixara vida levar, Ben Jora recordar que mora "num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza", Paulinho da Viola a adoçar o hino com o seu violão, e Gisele, coisa mais linda, mais cheia de graça, a mostrar o seu doce balanço a caminho não só do mar mas de todo um mundo global rendido à sua beleza. Tudo isto é Rio. E continuará a ser: selvagem, imprevisível, criativo, belíssimo, desconcertante – no que nos enerva e nos atrai – mas que fica para sempre porque nunca nos faz perder a esperança de que é vida. E futuro.

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