Da "lua castanha" ao drama familiar que levou os astronautas às lágrimas. Os bastidores da missão que colocou o mundo de olhos postos no céu
Numa missão em que a tripulação viveu um momento "surreal" ao ver cortadas todas as comunicações com a Terra, uma embalagem de nutella rasou a cabeça da primeira astronauta mulher a sobrevoar a lua e houve até um problema técnico no único WC da nave. Os bastidores da viagem espacial que fica para a história e deixou o mundo a sonhar com planetas distantes.“Quanto mais olho para a Lua, mais castanha parece”, observou Christina Koch, a primeira mulher a sobrevoar a o astro, enquanto o colega, Reid Wiseman garantia, como uma criança que é confrontada com algo inacreditável: "Isto é ficção científica. Conseguimos ver tanto a superfície da lua. É a coisa mais estranha." Entre os quatro tripulantes do Artemis II - três homens e uma mulher - há uma sensação de "avassaladora emoção", que se propaga e não desacelera à medida que os dias passam e principalmente desde que tiveram a possibilidade de observar, ao vivo a superfície lunar. O caso não é para menos. Há 54 anos que a NASA não enviava astronautas para a lua, pelo que a missão Artemis tem o fascínio inerente aos grandes feitos da humanidade.
Uma missão tão transcendente quanto atribulada, em que aconteceu um pouco de tudo aos astronautas, desde assistirem a um eclipse solar - durante 57 minutos, em que tiveram de colocar os óculos especiais que levaram caso se deparassem com o fenómeno - até perderem a comunicação com a Terra, o que um dos ocupantes descreveu como "surreal". Ainda assim, os astronautas garantiram que tinham tanta confiança na missão que mantiveram a calma, enquanto continuavam a tirar notas daquilo que observavam através do lado oculto da superfície lunar e a tirar fotografias com a máquina fotográfica Nikon.
Durante a interrupção das comunicações, a nave espacial passou a cerca de 6500 km da Lua e atingiu ainda o marco que assinala a maior distância da Terra desde o momento em que partiram, no dia 1 de abril, tendo pouco depois iniciado a trajetória de regresso a casa, com chegada prevista para dia 10 de abril. Quando retomaram as comunicações, Khristina Koch, que aproveitou o momento para deixar uma mensagem à Ásia, África e Oceania: “Podem olhar para o céu e ver a Lua. Nós estamos a olhar para vocês também. Vamos continuar a visitar a Lua, mas escolher sempre a Terra. Vamos escolher-nos sempre uns aos outros”, afirmou.
Foram, ao todo, quase seis horas de observação pura e dura em que a cápsula Orion ficou às escuras - foram utilizadas t-shirts para cobrir as janelas - como forma de garantir que a tripulação conseguia observar condignamente a superfície lunar. “É um pouco desgastante para os olhos”, fez saber Victor Glover.
Durante a missão, houve ainda um momento bastante emotivo, quando os astronautas nomearam uma das crateras lunares com o nome Carroll, a mulher do comandante da missão, Reid Wiseman, que morreu de cancro em 2020. De lágrimas nos olhos, os quatro astronautas abraçaram-se, então, numa comoção coletiva que marcou a missão. "É um ponto brilhante. E gostaríamos de chamá-lo de 'Carroll'”, disse, com a voz embargada, Jeremy Hansen durante uma transmissão ao vivo."
NUTELLA A VOAR E PROBLEMAS NO WC
Viajar na na missão Artemis tem as suas particularidades e, como em qualquer missão especial, houve eventos que ficam para a história não propriamente pela beleza rara das imagens, mas pelo inusitado da situação. Foi o caso do momento em que uma embalagem de Nutella passou a centímetros da cabeça de Christina Koch e seguiu atrás das pernas do piloto Victor Glover. A cena tornou-se viral e, em tom de brincadeira, comentou-se que era uma das maiores publicidades espontâneas, uma vez que a missão é seguida atentamente por milhões em todo o Mundo. No meio do insólito até a marca entrou na brincadeira e comentou: "Honrados por ter viajado mais longe do que qualquer outro creme de barrar na história."
Para a história fica também o momento em que foi tornado público um pequeno problema técnico relacionado com a casa de banho da cápsula, que estava como que entupida. Como no Espaço não há gravidade, as fezes ficam armazenadas na parte isolada da nave. O problema é a urina que, sendo líquida, é normalmente expelida diretamente para o Espaço, só que devido às baixas temperaturas congelou, o que provocou um cheiro forte sentido pelos tripulantes. No entanto, o problema foi resolvido a partir da Terra, com a posição da nave a ser alterada, o que permitiu que levasse diretamente com raios solares, desobstruindo o WC.
Entre os detalhes curiosos desta viagem especial está ainda a banda sonora da viagem, um repertório de cerca de 200 canções com temas tão diferentes, mas nos quais a temática do espaço estava muitas vezes presente. 'Fly Me to the Moon' de Frank Sinatra, 'Space Oddity' de David Bowie ou 'Across the Universe' de The Beatles foram algumas das músicas ouvidas na nave.