O público pediu e ele voltou! Fábio Porchat, a alma da 'Porta dos Fundos' explica como é fazer humor em Portugal
Comediante brasileiro está de volta a Portugal para desfiar humor numa pequena digressão de três datas pelo nosso país. Diz que gosta de rir de si próprio, que nunca teve problemas com a lei, revela o que o tira do sério, fala do sentido de humor dos portugueses e lamenta a ignorância do Brasil em relação a Portugal.
Quem nunca voltou de uma viagem ao estrangeiro com um quase infindável rol de histórias e peripécias para contar? Pois bem, é este o mote para o espetáculo de 'stand up comedy' que o humorista brasileiro Fábio Porchat, um dos mais conceituados e respeitados do Brasil, elemento fundador do coletivo 'Porta dos Fundos', traz a Portugal: uma massagem na Índia, um encontro com gorilas, um safari em África, o bolinho de maconha em Amesterdão ou uma dor de barriga no Nepal. O espetáculo teve a sua estreia mundial em fevereiro do ano passado, precisamente em Portugal, e regressa agora para três novas datas, a 13 de fevereiro no Coliseu do Porto, a 14 no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada (Açores) e a 15 no Coliseu de Lisboa.
No ano passado Fábio Porchat atuou em Portugal para mais de 20 mil pessoas com um espetáculo que é um hino à comédia de observação, mas o humorista garante agora novas histórias e assegura que tudo está muito mais apurado. "Desde então já estive em cartaz no Brasil, fiquei cinco meses no Rio de Janeiro a fazer quatro apresentações por dia e então o espetáculo agora tomou forma, "azeitou" como a gente diz no Brasil. Tem novas histórias e peripécias. No fundo acho que o espetáculo está agora muito mais firme", explica à The Mag o comediante que tem andado também em digressão por vários países da Europa como Suiça, Espanha, França e Irlanda a atuar para as comunidades brasileiras. "Os brasileiros são como formigas e entretanto parece que tomaram conta do mundo", ironiza.
Filho do político, escritor e guionista Fábio Ferrari Porchat de Assis (atualmente filiado no Partido Verde já foi deputado estadual por S.Paulo), Fábio Porchat é hoje um dos nomes mais respeitados do humor brasileiro. Ainda quando era um ilustre desconhecido foi convidado por Jô Soares para fazer um sketch da sua autoria, mas a sua estreia em palco aconteceu "mais a sério" em 2005 quando montou o espetáculo 'Infraturas'. Autor de várias peças de teatro, foi, no entanto, em 2012, quando com Antonio Tabet, Gregório Duvivier e João Vicente de Castro, entre outros, criou o coletivo 'Porta dos Fundos' (uma espécie de Gato Fedorento do Brasil), que Fábio Porchat alcançou a popularidade.
A sua relação com Portugal ainda é recente, mas o suficiente para já ser sobejamente conhecido entre nós. Para além do sucesso que 'Porta dos Fundos' fez na internet, tornando-se num verdadeiro fenómeno online (já ultrapassou a marca das 7 mil milhões de visualizações), Fábio Porchat apresentou no ano passado, na RTP, o programa 'Viagem a Portugal' (inspirado na obra de José Saramago) e outro está já a caminho 'Só Como e Bebo, Por Acaso Trabalho', ainda sem data de estreia definida e que pretende ser uma espécie de talk show com muito humor à mistura, claro! A entrevista que se segue é um verdadeiro manual prático de como fazer humor.
O português é de riso fácil?
Sim. Na verdade o português gosta de rir, o que é uma coisa muito boa. Nunca tive qualquer problema de todas as vezes que me apresentei em Portugal. O português gosta de rir, está pronto para rir, mas da boa piada, o que é algo muito bom para um comediante. Se a piada funciona, então ele "está dentro" (risos). Atualmente eu já nem fico nervoso em Portugal. Antigamente eu pensava sempre "ai meu Deus, uma plateia diferente", mas hoje devo dizer que me sinto verdadeiramente em casa, como se Portugal fosse um pedacinho do meu Brasil.
Neste espetáculo conta muitos episódios caricatos que viveu pelo mundo, mas qual foi o episódio mais insólito que viveu em Portugal?
Epá, geralmente por aqui as coisas correm sempre bem demais (risos)... deixa ver...... Ah, lembrei! Uma vez fui almoçar a um restaurante na Póvoa de Lanhoso, que só serve bacalhau e onde comi o melhor bacalhau da minha vida. Então fui falar com a filha do dono que tem 90 anos para lhe dar os parabéns e qual não foi o meu espanto quando ela me disse: "Eu já sei que o senhor é uma pessoa muito famosa, mas queria pedir-lhe uma coisa, para não falar do nosso restaurante a ninguém". Eu ainda lhe disse que só ia falar bem, mas ela não quis. Disse-me que depois ia aparecer muita gente e eu achei aquilo delicioso.
Sendo este um espetáculo com histórias reais não ficcionadas é a prova de que a realidade é sempre mais rica, mesmo no que toca ao humor?
Eu acho que sim. Se estivermos abertos a vivenciar novas experiências, eu acho que recebemos sempre coisas diferentes daquelas a que estamos habituados. É por isso que eu gosto de contar aquilo que aconteceu comigo. É verdade que toda a gente vê a mesma coisa - a torre Eiffel está lá igual para todos, aquele 'troço' enorme feito em ferro - mas aquilo que cada um viveu no dia em que visitou a torre Eiffel foi único, só aconteceu com ele.
O Fábio sente ou não dificuldade em fazer-se compreender por cá por causa das diferenças que existem entre o português do Brasil e o português de Portugal?
Não. Na verdade, a minha preocupação, quando me apresento em Portugal, tem mais a ver com algumas referências de artistas de que eu falo nas minhas piadas e que cá não são conhecidos. Mas isso geralmente eu consigo antever com antecedência e então modifico a piada.
"No fim das contas eu acho que as pessoas riem todas das mesmas coisas, dos mesmo lugares, das mesmas situações e das mesmas piadas. O que existe é uma mudança de plateias"
Há publicos mais difíceis do que outros?
Sabe que eu acho que não! No fim das contas eu acho que as pessoas riem todas das mesmas coisas, dos mesmo lugares, das mesmas situações e das mesmas piadas. O que existe é uma mudança de plateias de um local para o outro, mas por motivos alheios à minha vontade. No Rio de Janeiro, por exemplo, uma sessão mais cedo tem um público diferente de uma sessão que é mais tarde. O público das onze da noite é um público mais adulto que já jantou e já bebeu (risos). O público das seis da tarde já é um público mais velho, que ri mais baixo e que tem um outro ritmo.
Há quem diga que o humor, nem sequer é um estado de espírito, mas mais uma visão que se tem sobre o mundo. É possível retirar o lado humorístico de qualquer situação?
Eu acho que sim. Claro que quanto mais envolvido emocionalmente uma pessoa estiver com um assunto, mais dificuldade tem em rir dele. Se você estiver a tentar pagar uma conta que não consegue, aquilo só te pode ir irritando. No entanto, quem está de fora, só consegue rir.
Contesta-se muito o humor negro, por exemplo!
É possível fazer uma piada sobre o falecimento da minha mãe? Claro que sim, mas se ela morreu ontem, eu provavelmente não vou conseguir rir disso. No entanto, se calhar, daqui a cinco anos eu vou conseguir contar uma piada sobre o enterro porque teve algo de estranho. Eu acho sim que é possível rir de qualquer coisa. Quantas vezes rimos de alguém que caiu na rua? E, no entanto, isso é sempre algo ruim. O riso vem de um lugar bem irracional nosso.
"É possível fazer uma piada sobre o falecimento da minha mãe? Claro que sim, mas se ela morreu ontem, eu provavelmente não vou conseguir rir disso. No entanto, se calhar, daqui a cinco anos eu vou conseguir contar uma piada sobre o enterro porque teve algo de estranho. Eu acho sim que é possível rir de qualquer coisa."
E é mais importante aquilo que se conta ou a forma como se conta?
Eu acho que não é possível separar os dois. É importante o que se conta, da forma como se conta. Não adianta ter uma história muito interessante e depois não saber contá-la e vice versa. O melhor é unir sempre as duas vertentes.
E quando o público não ri? Um comediante tem botões de pânico?
É dificil para caramba quando o público não ri, nossa!!!!! Por isso é que é sempre aflitivo quando começamos a trabalhar num material novo, porque nunca percebemos quando e do quê as pessoas vão rir. Mas o pior de tudo é quando a gente acha que público vai rir de uma piada da qual afinal ninguém ri.
E o que é que se faz nessas situações?
Bom... isso depende de cada um, mas quando se tem alguma experiência de palco é só contornar a situação, porque na verdade o público não conhece o nosso texto, ele não sabe onde nós vamos fazer a piada. Se não se der muita 'entonação' de que aquilo foi uma piada que não deu certo, o público vai achar apenas que aquilo foi um comentário. Eu digo sempre que essa é uma boa tática: fingir que aquilo não era uma piada.
O Fábio ri de si próprio? Acha-se graça?
Eu divirto-me muito comigo. Se estiver numa ilha deserta, eu sei que vou rir da minha cara. Eu acho que dá sempre para rir de mim e comigo.
As pessoas têm a ideia errada de que um comediante passa a vida a rir e não se chateia com nada. O que é que tira o Fábio Porchat do sério?
Acima de tudo a falta de civismo. A pessoa que 'fecha' o cruzamento no trânsito ou a pessoa que 'fura' a fila é algo que me irrita muitíssimo.
"Eu divirto-me muito comigo. Se estiver numa ilha deserta, eu sei que vou rir da minha cara"
Já teve problemas com a autoridade por causa de uma piada que fez?
Não. Todo o tipo de processo que eu tive, não chegou a avançar. Eu nem nunca fui chamado a depor.
Nem teve problemas com a 'Porta dos Fundos'?
A 'Porta dos Fundos' atiraram de facto bombas enormes, mas na verdade nós nunca tivemos problemas com a lei. Tivemos sim problemas com os fora da lei (risos).
E como é a sua relação com o humor em Portugal?
A minha relação é muito boa. Eu comecei a criar laços muito interessantes com pessoas daqui e é pena os comediantes portugueses não entrarem tanto no Brasil.
Porquê?
Porque o Brasil é muito ignorante no que toca à cultura portuguesa, o que é uma tristeza. O Brasil é muito dependente da cultura americana e muito pouco da europeia. Ou seja, o Brasil acompanha muito pouco as mudanças interessantes que acontecem aqui em Portugal. Aliás, um dos meus objetivos é precisamente esse, levar um bocadinho de Portugal para o Brasil.