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Afinal, quem é Jerry Seinfeld, que levou tantos artistas a cancelarem a presença no Festival Commedia a La Carte? “Vamos partir do princípio de que o homem é um pulha”

A polémica já ultrapassou as fronteiras portuguesas e chegou a Javier Bardem. O ator espanhol partilhou nas redes sociais notícias internacionais sobre a vaga de cancelamentos no festival de humor de Lisboa, enquanto em Portugal continuam a ouvir-se opiniões muito diferentes sobre a presença de Jerry Seinfeld.
Ana Cristina Esteveira
Afinal, quem é Jerry Seinfeld, que levou tantos artistas a cancelarem a presença no Festival Commedia a La Carte? “Vamos partir do princípio de que o homem é um pulha”
Jerry Seinfeld
Inês Aires Pereira, Jerry Seinfeld
Jerry Seinfeld no Meo Commedia a La Carte Fest
Jerry Seinfeld
Jerry Seinfeld
Inês Aires Pereira, Jerry Seinfeld
Jerry Seinfeld no Meo Commedia a La Carte Fest
Jerry Seinfeld

Jerry Seinfeld é o nome que está no centro de uma das maiores polémicas que marcam a primeira edição do MEO Commedia a La Carte Fest. Vários artistas portugueses retiraram os seus espetáculos do cartaz, numa contestação relacionada com as posições públicas do humorista norte-americano em relação a Israel e ao conflito em Gaza. A imprensa internacional já deu conta do caso, com o 'The Hollywood Reporter' a noticiar as desistências portuguesas.

Entre os nomes que abandonaram o festival estão Inês Aires Pereira, Cebola Mol, Pedro Tochas, Vhils, Carolina Deslandes, Bárbara Tinoco, Tatanka e o Conjunto Cuca Monga. Nem todos explicaram publicamente as razões, mas algumas das mensagens deixadas nas redes sociais fizeram referências claras à causa palestiniana.

Inês Aires Pereira foi uma das mais explícitas. Sem mencionar Jerry Seinfeld pelo nome, explicou que um dos artistas do cartaz “defende insistentemente ideias e atos que considero indefensáveis” e afirmou: “Não podemos relativizar ou normalizar um genocídio”. Já os Cebola Mol, Eduardo Madeira e Filipe Homem Fonseca, acompanharam o anúncio da saída com uma imagem de uma melancia, símbolo associado à solidariedade com a Palestina, e escreveram: “Vamos celebrar a justiça, liberdade e alegria convosco noutra ocasião”.

Mas a polémica está longe de reunir consenso entre os próprios humoristas. Ana Garcia Martins e David Cristina, por exemplo, decidiram manter a participação no festival. David Cristina chegou a ser acusado nas redes sociais de “compactuar com o genocídio”, mas recusou a ideia de que partilhar um cartaz com Seinfeld signifique subscrever as suas opiniões. “Foi-me explicado melhor que o problema é que o Jerry Seinfeld é cabeça de cartaz do festival e que, tendo ele opiniões pró-Israel, eu, ao atuar no mesmo festival que ele, também as teria”, explicou. E deixou clara a sua posição: “Eu não costumo apanhar as dos outros por partilhar cartaz num evento temático de entretenimento humorístico”. O humorista acrescentou: “Não me revejo nas opiniões dele, mas os bilhetes do senhor são para o espetáculo de comédia e não para uma palestra de geopolítica”.

Também Bruno Nogueira e José Diogo Quintela questionaram os cancelamentos. No podcast 'Isso Não se Diz', Bruno Nogueira considerou que “tudo ficou a dever-se à pressão das redes sociais” e afirmou que César Mourão, mentor do festival, “foi apanhado no meio do furacão”. Sobre as desistências, foi ainda mais direto: “Acho desleal para com um festival”. Já José Diogo Quintela defendeu que “a pressão das redes sociais fez-se sentir” e falou numa “postura intransigente e radical” que o deixa “um bocadinho preocupado”. Fernando Rocha, por sua vez, disse respeitar quem decidiu sair, mas garantiu que nunca faria o mesmo: “Nunca na minha vida falharia um contrato profissional seja com quem for. E se sou pró-democrata tenho que aceitar uma opinião diferente da minha”.

É neste ponto que entra Luís Osório, com uma reflexão mais ampla sobre o cancelamento de artistas por razões políticas. “Compreendo que alguns humoristas estejam a cancelar a participação no festival que trará o genial Seinfeld a Portugal. Percebo-os, mas não deixa de ser uma fantochada”, escreveu. O jornalista lembra que as posições de Seinfeld eram conhecidas quando os artistas aceitaram participar no festival. “Em primeiro lugar, por ser conhecida a militância da estrela americana pela causa israelita – após o ataque do Hamas, assumiu a sua posição com clareza. O facto era conhecido quando toda a gente aceitou o convite”, defende.

Depois, lança uma provocação: “Vamos partir do princípio de que o homem é um pulha. Um assassino moral, um defensor do inominável”. E questiona até onde deve ir o julgamento da obra de um artista quando as suas convicções ou comportamentos são controversos. Luís Osório recorre a vários exemplos da história da cultura para defender a separação entre criação artística e autor. “Não suporto dois pesos e duas medidas. Detesto o paroquialismo. E separo o artista do que o artista é ou pensa. Se não o fizesse metade da minha biblioteca teria de ser queimada.”

Mas afinal, quem é Jerry Seinfeld?

Para perceber a dimensão desta polémica é preciso perceber primeiro quem é o homem que está no centro dela. Jerry Seinfeld, nascido em Nova Iorque em 1954, é um dos nomes mais importantes da comédia norte-americana e uma das figuras que ajudaram a transformar o 'stand-up' e a comédia televisiva nas últimas décadas. A carreira ganhou uma dimensão mundial com 'Seinfeld', a série que criou com Larry David e que chegou à televisão em 1989. Durante nove temporadas, a produção acompanhou o quotidiano de quatro amigos em Nova Iorque, com Jerry Seinfeld a interpretar uma versão ficcionada de si próprio. A série terminou em 1998 e tornou-se uma referência da comédia televisiva.

O humor de Seinfeld assenta sobretudo na observação do quotidiano: relações humanas, comportamentos, pequenas contradições e situações aparentemente banais transformadas em matéria para comédia. Foi precisamente essa abordagem que ajudou a fazer da série um fenómeno e que definiu grande parte da carreira do humorista. Depois da televisão, Seinfeld manteve-se ligado ao 'stand-up' e a outros projetos. Entre eles está 'Comedians in Cars Getting Coffee', formato da Netflix em que conversa com outros humoristas enquanto conduz e toma café. Mais recentemente, realizou e protagonizou 'Unfrosted', mantendo uma carreira que continua a passar pelo palco, televisão e cinema.

E porque é que está a ser tão contestado?

A resposta está nas posições públicas que assumiu sobre Israel, sobretudo depois dos ataques de 7 de outubro de 2023. Seinfeld viajou até Israel após os ataques do Hamas, reuniu-se com familiares de pessoas feitas reféns e tem manifestado publicamente o seu apoio ao país. Essas posições já tinham provocado protestos nos Estados Unidos, nomeadamente quando estudantes abandonaram uma cerimónia de graduação da Universidade de Duke, em 2024, onde o humorista era o orador convidado.

Agora, a discussão chegou a Portugal e ganhou uma dimensão inesperada. Javier Bardem, conhecido pelo seu apoio à causa palestiniana, partilhou nas redes sociais notícias internacionais sobre os cancelamentos dos artistas portugueses. Entre elas estava uma publicação com o título "Comediantes cancelam participação em festival devido ao nome de Jerry Seinfeld" e outra que descrevia o humorista como “negacionista do genocídio”. 

Partilha de Javier Bardem
Partilha de Javier Bardem Foto: Instagram

O resultado é uma polémica que já não se limita à presença ou ausência de alguns nomes num festival. De um lado estão os artistas que entendem que não podem dividir um cartaz com alguém cujas posições consideram inaceitáveis. Do outro, os que defendem que uma participação profissional num festival de comédia não significa subscrever as opiniões políticas do cabeça de cartaz.

Entretanto, o próprio futuro do Commedia a La Carte Fest chegou a estar em dúvida. A organização chegou a equacionar cancelar o festival e manter apenas o espetáculo de Seinfeld, mas a possibilidade de substituir alguns dos artistas que desistiram voltou a colocar o evento em cima da mesa. A atuação de Jerry Seinfeld continua prevista para 1 de novembro, na MEO Arena, naquela que será a sua estreia ao vivo em Portugal. E, muito antes de subir ao palco, o humorista norte-americano já conseguiu aquilo que nenhum comediante deseja para um festival de humor: tornou-se o centro de uma discussão que está a dividir colegas, público e até figuras internacionais.

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