Apesar das tempestades televisivas que, invariavelmente, atiram alguns nomes, outrora sonantes, para o esquecimento, trazendo à tona novos fenómenos, Júlia Pinheiro, com o seu estilo característico e uma carreira assente no valor do trabalho, conseguiu sempre resistir, afirmando-se como um dos nomes mais marcantes do pequeno ecrã. Hoje, com 40 anos de trabalho, continua a ter um programa em nome próprio, o seu público fiel e, em entrevista ao podcast do 'Observador' '40 Minutos' não tem dúvidas de que um dos segredos para a longevidade televisiva é o facto de se manter igual a si própria e não cedendo a pressões, especialmente no início do percurso, quando estar à frente das câmaras implicava corresponder a um determinado estereótipo de beleza. "Faltava-me a beleza estonteante, a voz era péssima, ainda é, eu não preenchia uma série de coisas. As grandes vedetas da televisão eram todas mulheres muito bonitas, e nos programas de entretenimento tudo tinha de ser lindíssimo, estávamos a construir um imaginário novo", começou por contar, acrescentando: "Nunca fui a mulher ideal da televisão, mas aos 63 anos continuo no ar. E não estava à espera."
Ainda assim, manteve-se sempre fiel àquilo em que acreditava, não cedendo ao que esperavam relativamente à sua imagem. "Nunca tive a tentação de me submeter a alterações do rosto, de me modificar. A única coisa que me castigou um bocadinho ao longo dos anos foi a questão do peso, que hoje me é completamente indiferente, mas que à época eu não sabia lidar", refere, adiantando, no entanto, que isso não teve tanto a ver com questões de imagem, mas sobretudo pelo grande drama familiar que a apresentadora vivia na altura.
É público que ambas as filhas gémeas de Júlia lutaram contra problemas de anorexia, sendo que uma delas teve mesmo de ser internada devido à gravidade da situação. Um cenário que afetou todas as dinâmicas familiares da apresentadora e do marido, Rui Pêgo, que de repente viveram um drama a dobrar. "Isto aconteceu sobretudo em dois processos da minha vida: um foi a doença das minhas filhas, que tiveram anorexias graves e passávamos muito tempo à mesa para elas comerem, para que conseguíssemos que elas comessem alguma coisa. Portanto, enquanto eu esperava que as minhas filhas sobrevivessem com um prato à frente, que não queriam comer, eu e o pai, que já tínhamos feito a refeição, íamos protelando com um pão com manteiga, um queijinho e isto é um momento que estou aqui a relatar com relativa leveza, mas foram momentos de grande sofrimento familiar. Nesse processo eu fiquei com mais 15 quilos", afirma, acrescentando que quando voltou ao peso normal, com o problema das filhas já debelado, entraria em menopausa, o que complicou novamente as contas.
No entanto, admite que está completamente apaziguada com a balança e que hoje o que a move é poder desfrutar de uma vida mais calma, com menos responsabilidade, ao lado do marido, com quem está casada há 40 anos e mantém uma relação feliz, e da neta mais nova, Pilar, que trouxe uma aura de encantamento à família. "Este bebé veio surpreender-nos, é uma descoberta".
Aquela que é a terceira neta do clã trouxe ainda mais amor a um lar bafejado pela harmonia e tranquilidade, num casamento que se uniu nos momentos bons e também nos mais dolorosos. O casal conheceu-se na Renascença, há quatro décadas, ainda que o primeiro impacto não tenha sido o melhor. "Começou muito mal, ele tratou-me tão mal: mal-disposto, arrogante", brinca hoje a apresentadora, revelando que nesse dia Rui Pêgo disse que ia casar com ela. "Um ano depois estávamos casados. E agora já vão 40 anos de casados e 41 de vida em comum."