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O médico psiquiatra Daniel Sampaio, de 79 anos de idade, falou em exclusivo com a The Mag, by Flash!, denunciando um dos maiores problemas da saúde mental em Portugal, desafiando os decisores políticos a serem corajosos para diagnosticar os problemas desta área da saúde, um flagelo nos tempos modernos. "A ansiedade e a depressão são a grande doença do século XXI", começa por afirmar, sendo interpelados por nós com um axioma: "Consegue explicar como é que Portugal tem níveis de consumo de ansiolíticos e antidepressivos tão elevados?". A resposta é surpreendente. E afinal tem solução, segundo o especialista.
"Em Portugal esses excessos medicamentosos são muito fáceis de explicar", garante, respondendo com precisão: "É porque não existem mecanismos de tratamento que não sejam os medicamentosos. Quando receitamos só medicamento seria preciso, em concomitância, fazer psicoterapia. Nós aumentamos a prescrição de medicamentos e, com isso, prolongamos muitas vezes o estado depressivo e de ansiedade porque não conseguimos ter consciência do contexto do paciente".
Uma resposta destas poderia colocar o ônus da culpa de os portugueses estarem sobre-medicados nos médicos que os prescrevem, mas não será assim. A explicação não será tão linear e Daniel Sampaio clarifica-a: "Os medicamentos são muito bons para os sintomas, mas temos que compreender o contexto: família, escola, emprego. Há pouca possibilidade de fazer isso. Faltam recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), temos muito poucos psicólogos e psicoterapeutas, e a posição atual ainda é muito de medicar. Medicar é importante, em muitas circunstâncias, mas não chega".
ESCÂNDALO! ÚLTIMO ESTUDO DE SAÚDE MENTAL É DE... 2013
Antes de avançarmos nas explicações de Daniel Sampaio, um dos médicos de saúde mental em Portugal mais habilitados a falar sobre o tema, vamos só entender do que estamos a falar, sobre os dados estatísticos existentes nos registos farmacêuticos nacionais. Portugal está consistentemente no topo do consumo europeu de psicofármacos. Somos o país que ocupa o 1.º lugar na Europa em termos de consumo de ansiolíticos (benzodiazepinas) e o 2.º na União Europeia e na OCDE no consumo de antidepressivos. Em antidepressivos perdemos apenas para a Islândia, uma nação com clima gélido, noites longas de inverno e dias curtíssimos em que mal se vê o sol
Indagado pela The Mag a avançar se os dados estatísticos tornados públicos serão assim tão exatos como se noticia, Daniel Sampaio sente que esbarra num problema grave e crónico de falta de informação. E faz uma revelação chocante, que deveria obrigar os responsáveis políticos a serem mais proativos na decisões que tomam. "Não sabemos quais são, exatamente, os números da ansiedade e da depressão. O último estudo significativo sobre os números da ansiedade e depressão em Portugal é de 2013. Situação completamente diferente da realidade atual. Não temos um estudo mais recente", lamenta.
O que falta então para que se faça um estudo mais atual e que espelhe a realidade? "Falta vontade política para estudar estas condições de saúde. Vontade política dos responsáveis pela saúde mental que já deviam ter feito esse estudo há muito tempo", acrescenta, sublinhando que "é essencial ter um estudo atualizado para percebermos a dimensão da situação. O que nós sabemos é que se prescrevem muitos medicamentos antidepressivos e ansiolíticos. São números muito grandes. É preciso saber porquê e sobretudo dar outras alternativas terapêuticas às pessoas".
LEITURA DE LIVROS FAZ PARTE DO TRATAMENTO DE DANIEL SAMPAIO
Daniel Sampaio foi um dos autores do universo literário Leya que embarcou recentemente na iniciativa 'Comboio Literário', que levou dezenas de autores e centenas de leitores até Évora, onde decorria a Feira do Livro da cidade alentejana. À margem de um debate entre leitores e autores na Biblioteca Municipal local, o médico psiquiatra ainda conversou com a The Mag, by Flash, sobre a importância dos livros e sobre benefícios, mas sobretudo, malefícios da internet e das redes sociais. Mas tudo com muita tranquilidade e naturalidade. "Eu quero transmitir a todas as pessoas a importância de ler. Ler abre caminhos e é muito importante para o cérebro. E eu, como médico psiquiatra, tenho que me preocupar com o cérebro dos meus pacientes", relembra.
O clínico explica então como um livro pode ajudar a adiar degenerações mentais ou até a combater depressões: "A leitura é um dos principais estímulos para o cérebro, em todas as idades. E neste momento, na época das redes sociais, em que as pessoas leem muito superficialmente, estamos a ter cada vez mais pessoas com dificuldades de atenção e de concentração. Por isso é que é muito importante falar dos livros e por as pessoas a ler".
O DRAMA DAS REDES SOCIAIS E A ESPERANÇA DE UM NOVO MOVIMENTO
Sampaio não vê como um grave problema os avanços das tecnologia, encara-os de frente, com serenidade. "Estamos numa época de adaptação. A sociedade passa por mudanças e períodos de adaptação. Ainda nos estamos a adaptar à novidade da internet que apareceu nos anos 90, tem 30 anos, e nós ainda não estamos completamente cientes da importância da internet. Com as redes sociais é a mesma coisa", relembra, mostrando-se antes preocupado com os efeitos delas nos mais jovens que lhe chegam ao consultório: "Neste momento as redes sociais têm uma grande presença, sobretudo junto dos jovens. E uma presença que lhes causa ansiedade".
É efetivamente um problema, mas avança ter percepcionado estar a haver um movimento de equilíbrio. "Já há movimentos no sentido das pessoas estarem menos tempo nos telemóveis, fazerem mais atividade física, portanto a sociedade evolui com avanços e recuos, esperemos que esteja na fase de avanço", deseja, deixando pistas: "É importante termos estratégia para sair dos ecrãs. Ter um animal de estimação com responsabilidade ou fazer exercício físico regular é uma boa forma. Temos que por as pessoas a mexerem-se. Estamos a ter muitas questões de excesso de peso e obesidade nas pessoas mais novas. Isso tem grandes implicações na saúde física e mental".