A notícia da morte de Carlos Castro às mãos de Renato Seabra, em Nova Iorque, a 7 de janeiro de 2011, deixou o mundo em choque, mas uma pequena comunidade em particular: Cantanhede. Na terra onde o jovem vivia, ninguém queria acreditar que uma coisa daquelas pudesse ser verdade. Descreviam-no como um rapaz normal, pacato, nada que fizesse crer uma tamanha barbárie. "Deve ter tido razões muito fortes para fazer aquilo", afirmava à época um antigo colega do basquetebol ao 'Público', recusando as alegações de que o jovem era gay. Não senhor, ele gostava de mulheres. "Sempre deu a entender que gostava de mulheres, como todos nós", reiterou, acrescentando que Renato até tinha uma namorada.
A tese era comprovada pela mãe e pelo próprio Renato, que sempre negou ser homossexual, antes e depois do crime. Segundo uma das muitas teorias, foi aliciado pelo cronista social a troco de uma promessa de um futuro dourado na moda. "O Carlos tinha intenções de o pôr em Londres numa universidade. Em centros comerciais, pedia ao Carlos para comprar coisas, inclusivamente para a família do Renato, e o Carlos pagava tudo. Eu até lhe disse, ao telefone, que achava que o Renato se estava a aproveitar dele, mas ele dizia que não. Apercebi-me de que a viagem dele com o Carlos foi para tirar proveito de tudo aquilo, mas não do Carlos. Não era amor, não o via como a pessoa ideal para estar ao lado do Carlos", disse Vanda Pires, amiga do cronista e uma das últimas pessoas a privar com os dois em Nova Iorque.
Em Portugal, e antes da partida para aquela que via como uma espécie de lua-de-mel, Carlos Castro mostrava-se apaixonado, eufórico. Se o modelo pouco falava sobre o socialite à família e amigos – garantindo apenas que este o estava a ajudar na carreira no mundo da moda – o cronista não tinha pudor em dizer que tinha um namorado e, para que não restassem dúvidas, na gala da Abraço, que Carlos Castro organizava anualmente, o veterano pegou no microfone e partilhou, a alto e bom e som, que tinha conhecido o amor da sua vida e que ia partir com ele para Nova Iorque, surpreendendo muitos dos presentes.
Quem também lá estava era Lili Caneças que, ao 'Observador', partilhou o choque que sentiu com essa revelação e o momento em que tentou chamar Carlos Castro à razão. "Eu quando ouvi aquele disparate todo, de que encontrou a alma gémea, o amor da vida, disse pronto, agora é que ele está passado. Fui ao camarim, peguei nele, arriscando pela primeira vez na vida ser muito desagradável, e disse: ‘olha para o espelho, diz-me o que é que tu vês. Vês um homem baixo, de cabelo branco, velho, cheio de rugas, barrigudo... E tu achas que um miúdo, com 1,85m, lindo de morrer, vai-se apaixonar por ti e que vão para Nova Iorque passar a honeymoon?'", revelou.
No entanto, Carlos estava cego de amor e não relevou o aviso da amiga de longa data. "Ele disse: 'O Renato está apaixonado pela minha alma, pela minha inteligência'. Ele estava mesmo convencido de que ele estava apaixonado por ele."
No entanto, Renato nunca confirmaria tal orientação sexual, e à polícia afirmaria mesmo que matou Carlos Castro para "o curar da sua homossexualidade"'. "Ele disse que queria livrar o homem dos seus demónios homossexuais", citou à época o 'Daily News'.
"É VISTO COMO A VÍTIMA"
Toda esta questão em torno da sexualidade e a tese de que Renato terá sido pressionado por Carlos Castro para uma relação amorosa dividem a opinião pública. Sempre que o assunto vem à tona, há uma franja que defende o ex-modelo, sugerindo que o contexto serviria como uma espécie de atenuante, que foi forçado a ter sexo com o cronista e teria chegado a um limite. Um discurso que o psicólogo Quintino Aires considera perigoso e afirma que não se deve alimentar.
Ouvido pela FLASH!, o profissional de saúde não tem dúvidas de que Renato estaria consciente do que estava a viver com Carlos, ainda que estivesse reticente em assumi-lo publicamente, pelas circunstâncias e meio pequeno onde vivia.
"Acompanhei a história, era um grande tema e na altura eu tinha grande presença na comunicação social. Hoje, há uma diferença grande em relação àquele tempo, e falo como psicólogo mas também como homossexual. Hoje fala-se muito mais sobre o assunto, mas o que se faz é exatamente a mesma coisa. Por isso, a leitura que fiz do quadro é a de um rapaz que experimentava, que tinha a curiosidade como muitos. Era um rapaz que estava a interessar-se e a querer conhecer... E portanto a visão que o Carlos Castro teria do que estava a acontecer não era ilusão nenhuma, era real", começa por contar, acrescentando que o surto psicótico de Renato Seabra não esteve, a seu ver, relacionado com a homossexualidade, mas sim com outras questões.
"O que aconteceu em Nova Iorque, para mim, não teve a ver com a homossexualidade, mas com a fragilidade do Renato, num tempo e espaço em que está sem o seu suporte familiar, a ansiedade que isso lhe possa ter gerado, já havendo uma base de personalidade com predisposição à esquizoidia e até a fazer algum surto psicótico."
À nossa publicação, o psicólogo afirma ainda que desculpabilizar Renato e apontar o dedo a Carlos Castro é de uma "injustiça brutal".
"Para mim não havia dúvida nenhuma. Não faz sentido e acho que é uma injustiça brutal em relação ao Carlos Castro, que resulta da ignorância da nossa sociedade em relação à sexualidade, continuamos a viver no século XVIII, em que tudo se faz mas nada se pode dizer e há uma necessidade de apaziguar o tema, colocando o rapaz no papel de capuchinho vermelho e o Carlos Castro no papel de lobo mau. Não, não é isso. Não existe isso de ficar iludido e ter sido forçado a. Aliás, bata olhar para as constituições físicas de ambos para perceber que se alguém podia forçar alguma coisa era o Renato e não o Carlos Castro. Por isso, acho que uma das maiores injustiças contra o Carlos Castro é quando alguém tem a leviandade de dizer: 'coitado do Renato, foi iludido pelo papão, pelo lobo mau."
Quintino Aires desvaloriza ainda o que Renato terá dito durante o surto psicótico - que no hospital afirmava poder curar as pessoas da sida e homossexualidade com o seu toque - referindo que este é um estado que não tem qualquer conexão com a realidade.
"Num surto psicótico, a característica marcada é a de que a base do cérebro produz uma enorme quantidade de dopamina, que vai para o lobo pré-frontal e faz com que o nosso cérebro comece a funcionar num registo semelhante ao do sonho, muitas coisas sem lógica nenhuma. Por isso, analisar o discurso durante o surto psicótico não permite inferir nada sobre as intenções, desejos e personalidade do Renato", reitera, acrescentando que o jovem de Cantanhede difcilmente terá memórias do momento do homicídio. "Uma característica essencial nestes surtos é a incapacidade de descrever o que se passou naquele momento."
Uma coisa é certa, para o psicólogo, a condição de Renato tem de ser analisada à luz da neurociência, mas este está longe de ser uma vítima.
"Aqui temos uma questão que é 'coitadinho do assassino que foi vítima do predador homossexual velho, baixinho e gordo, que o dominou e estragou a vida do garotinho'. Há um julgamento moral em que o Renato em sociedade é mais visto como a vítima do que como o criminoso."