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"É de uma injustiça brutal para com o Carlos Castro dizer-se que o Renato Seabra foi iludido pelo papão": Quintino Aires analisa relação que terminou em tragédia

Quinze anos depois do brutal assassinato do cronista social às mãos de Renato Seabra, o caso continua a regressar à esfera mediática na tentativa de perceber o que aconteceu para motivar o crime bárbaro. Entre o que se sabe e o que se especula, para o psicólogo Quintino Aires uma coisa é certa: o modelo não foi iludido, sabia o que estava a fazer e não deve ser desculpabilizado. "Há um julgamento moral em que o Renato em sociedade é mais visto como a vítima do que como o criminoso", diz à FLASH!.
Rute Lourenço
Quintino Aires analisa relação de Renato e Carlos Castro
Quintino Aires analisa relação de Renato e Carlos Castro Foto: D.R.

A notícia da morte de Carlos Castro às mãos de Renato Seabra, em Nova Iorque, a 7 de janeiro de 2011, deixou o mundo em choque, mas uma pequena comunidade em particular: Cantanhede. Na terra onde o jovem vivia, ninguém queria acreditar que uma coisa daquelas pudesse ser verdade. Descreviam-no como um rapaz normal, pacato, nada que fizesse crer uma tamanha barbárie. "Deve ter tido razões muito fortes para fazer aquilo", afirmava à época um antigo colega do basquetebol ao 'Público', recusando as alegações de que o jovem era gay. Não senhor, ele gostava de mulheres. "Sempre deu a entender que gostava de mulheres, como todos nós", reiterou, acrescentando que Renato até tinha uma namorada.

Imagens retiradas da Internet do modelo Renato Seabra, de 21
Imagens retiradas da Internet do modelo Renato Seabra, de 21 Foto: DIREITOS RESERVADOS

A tese era comprovada pela mãe e pelo próprio Renato, que sempre negou ser homossexual, antes e depois do crime. Segundo uma das muitas teorias, foi aliciado pelo cronista social a troco de uma promessa de um futuro dourado na moda. "O Carlos tinha intenções de o pôr em Londres numa universidade. Em centros comerciais, pedia ao Carlos para comprar coisas, inclusivamente para a família do Renato, e o Carlos pagava tudo. Eu até lhe disse, ao telefone, que achava que o Renato se estava a aproveitar dele, mas ele dizia que não. Apercebi-me de que a viagem dele com o Carlos foi para tirar proveito de tudo aquilo, mas não do Carlos. Não era amor, não o via como a pessoa ideal para estar ao lado do Carlos", disse Vanda Pires, amiga do cronista e uma das últimas pessoas a privar com os dois em Nova Iorque.

Em Portugal, e antes da partida para aquela que via como uma espécie de lua-de-mel, Carlos Castro mostrava-se apaixonado, eufórico. Se o modelo pouco falava sobre o socialite à família e amigos – garantindo apenas que este o estava a ajudar na carreira no mundo da moda – o cronista não tinha pudor em dizer que tinha um namorado e, para que não restassem dúvidas, na gala da Abraço, que Carlos Castro organizava anualmente, o veterano pegou no microfone e partilhou, a alto e bom e som, que tinha conhecido o amor da sua vida e que ia partir com ele para Nova Iorque, surpreendendo muitos dos presentes.

Quem também lá estava era Lili Caneças que, ao 'Observador', partilhou o choque que sentiu com essa revelação e o momento em que tentou chamar Carlos Castro à razão. "Eu quando ouvi aquele disparate todo, de que encontrou a alma gémea, o amor da vida, disse pronto, agora é que ele está passado. Fui ao camarim, peguei nele, arriscando pela primeira vez na vida ser muito desagradável, e disse: ‘olha para o espelho, diz-me o que é que tu vês. Vês um homem baixo, de cabelo branco, velho, cheio de rugas, barrigudo... E tu achas que um miúdo, com 1,85m, lindo de morrer, vai-se apaixonar por ti e que vão para Nova Iorque passar a honeymoon?'", revelou.

Lili Caneças avisou Carlos Castro sobre Renato Seabra antes da viagem fatal a Nova Iorque
Lili Caneças avisou Carlos Castro sobre Renato Seabra antes da viagem fatal a Nova Iorque

No entanto, Carlos estava cego de amor e não relevou o aviso da amiga de longa data. "Ele disse: 'O Renato está apaixonado pela minha alma, pela minha inteligência'. Ele estava mesmo convencido de que ele estava apaixonado por ele."

No entanto, Renato nunca confirmaria tal orientação sexual, e à polícia afirmaria mesmo que matou Carlos Castro para "o curar da sua homossexualidade"'. "Ele disse que queria livrar o homem dos seus demónios homossexuais", citou à época o 'Daily News'.

"É VISTO COMO A VÍTIMA"

Toda esta questão em torno da sexualidade e a tese de que Renato terá sido pressionado por Carlos Castro para uma relação amorosa dividem a opinião pública. Sempre que o assunto vem à tona, há uma franja que defende o ex-modelo, sugerindo que o contexto serviria como uma espécie de atenuante, que foi forçado a ter sexo com o cronista e teria chegado a um limite. Um discurso que o psicólogo Quintino Aires considera perigoso e afirma que não se deve alimentar.

O psicólogo, comentador posa, durante a entrevista
O psicólogo, comentador posa, durante a entrevista Foto: Vítor Mota/Medialivre

Ouvido pela FLASH!, o profissional de saúde não tem dúvidas de que Renato estaria consciente do que estava a viver com Carlos, ainda que estivesse reticente em assumi-lo publicamente, pelas circunstâncias e meio pequeno onde vivia.

"Acompanhei a história, era um grande tema e na altura eu tinha grande presença na comunicação social. Hoje, há uma diferença grande em relação àquele tempo, e falo como psicólogo mas também como homossexual. Hoje fala-se muito mais sobre o assunto, mas o que se faz é exatamente a mesma coisa. Por isso, a leitura que fiz do quadro é a de um rapaz que experimentava, que tinha a curiosidade como muitos. Era um rapaz que estava a interessar-se e a querer conhecer... E portanto a visão que o Carlos Castro teria do que estava a acontecer não era ilusão nenhuma, era real", começa por contar, acrescentando que o surto psicótico de Renato Seabra não esteve, a seu ver, relacionado com a homossexualidade, mas sim com outras questões. 

O jovem modelo português acusado de homicídio, foi presente a
O jovem modelo português acusado de homicídio, foi presente a Foto: Valério Boto

"O que aconteceu em Nova Iorque, para mim, não teve a ver com a homossexualidade, mas com a fragilidade do Renato, num tempo e espaço em que está sem o seu suporte familiar, a ansiedade que isso lhe possa ter gerado, já havendo uma base de personalidade com predisposição à esquizoidia e até a fazer algum surto psicótico."

À nossa publicação, o psicólogo afirma ainda que desculpabilizar Renato e apontar o dedo a Carlos Castro é de uma "injustiça brutal".

"Para mim não havia dúvida nenhuma. Não faz sentido e acho que é uma injustiça brutal em relação ao Carlos Castro, que resulta da ignorância da nossa sociedade em relação à sexualidade, continuamos a viver no século XVIII, em que tudo se faz mas nada se pode dizer e há uma necessidade de apaziguar o tema, colocando o rapaz no papel de capuchinho vermelho e o Carlos Castro no papel de lobo mau. Não, não é isso. Não existe isso de ficar iludido e ter sido forçado a. Aliás, bata olhar para as constituições físicas de ambos para perceber que se alguém podia forçar alguma coisa era o Renato e não o Carlos Castro. Por isso, acho que uma das maiores injustiças contra o Carlos Castro é quando alguém tem a leviandade de dizer: 'coitado do Renato, foi iludido pelo papão, pelo lobo mau."

O psicólogo durante a entervista
O psicólogo durante a entervista Foto: D.R.

Quintino Aires desvaloriza ainda o que Renato terá dito durante o surto psicótico - que no hospital afirmava poder curar as pessoas da sida e homossexualidade com o seu toque - referindo que este é um estado que não tem qualquer conexão com a realidade.

"Num surto psicótico, a característica marcada é a de que a base do cérebro produz uma enorme quantidade de dopamina, que vai para o lobo pré-frontal e faz com que o nosso cérebro comece a funcionar num registo semelhante ao do sonho, muitas coisas sem lógica nenhuma. Por isso, analisar o discurso durante o surto psicótico não permite inferir nada sobre as intenções, desejos e personalidade do Renato", reitera, acrescentando que o jovem de Cantanhede difcilmente terá memórias do momento do homicídio. "Uma característica essencial nestes surtos é a incapacidade de descrever o que se passou naquele momento."

O jovem modelo Renato Seabra, homicida do cronista num hotel
O jovem modelo Renato Seabra, homicida do cronista num hotel Foto: Valério Boto

Uma coisa é certa, para o psicólogo, a condição de Renato tem de ser analisada à luz da neurociência, mas este está longe de ser uma vítima. 

"Aqui temos uma questão que é 'coitadinho do assassino que foi vítima do predador homossexual velho, baixinho e gordo, que o dominou e estragou a vida do garotinho'. Há um julgamento moral em que o Renato em sociedade é mais visto como a vítima do que como o criminoso."

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