'
The Mag - The Daily Magazine by FLASH!

Farto da reforma antecipada? Com a filha mais nova já criada, Passos Coelho cumpre promessa a Laura e dá sinais políticos

Há oito anos, Pedro Passos Coelho renunciava ao cargo de deputado e fechava a porta política para apoiar a mulher, Laura, no inferno do cancro. Depois da morte da fisioterapeuta, honrou a promessa de estar ao lado da filha menor, enquanto dele dependesse, e fechou-se num casulo familiar. Hoje, com o clã organizado, dá cada vez mais sinais de estar pronto para voltar e, na última terça-feira, 24, declarou-se como uma voz crítica do Governo e não deixou nada por dizer. Da vida de recato ao furacão político, conheça a nova vida do antigo primeiro-ministro.
Rute Lourenço
Rute Lourenço
25 de fevereiro de 2026 às 19:44
Passos Coelho critica o Governo e dá sinais de regresso à política
Passos Coelho critica o Governo e dá sinais de regresso à política

Foi em 2018 que Pedro Passos Coelho renunciou ao mandato de deputado. A decisão foi comunicada na reunião do grupo parlamentar do PSD, sendo que na altura o político era aplaudido de pé. A principal motivação para se abster da vida como deputado prendia-se, essencialmente, com o agravamento do estado de saúde da mulher, Laura Ferreira. A fisioterapeuta debatia-se há vários anos com um tumor num dos joelhos, mas foi naquela altura que a doença começou a galopar, com marcas severas para toda a família, principalmente para a filha em comum do casal, Júlia, então ainda uma menina.

Nos dois anos seguintes, Pedro Passos Coelho iria recolher-se numa espécie de bolha familiar, vivendo para Laura e para a filha e acompanhando o seu grande amor nos últimos tempos de vida. Laura Ferreira acabaria por falecer aos 53 anos, após cinco de uma dura batalha, que deixou marcas profundas no núcleo do político, que iniciara pouco antes um percurso académico a dar aulas no ISCSP e faria uma promessa a Laura, que nunca quebraria: estaria afastado dos principais palcos políticos enquanto a filha mais nova não fosse autónoma, o que acontece agora, uma vez que Júlia tem 17 anos.

Passaram-se oito anos desde o afastamento de Passos Coelho e ao longo dos últimos tempos tem havido vários sinais de alguma saudade por parte do político que, com a filha já encaminhada, e o bichinho da política a fervilhar dentro de si, não resiste a um ou outro apontamento, que sugerem que possa ter outras ambições que não uma reforma antecipada, aos 61 anos.

Convidado de honra de uma conferência da SEDES, o antigo primeiro-ministro não deixou nada por dizer e lançou um olhar crítico sobre o Governo, ainda que partilhe a mesma família política, a todos os níveis. Começou com a nomeação do antigo diretor da Polícia Judiciária para o cargo de ministro da Administração Interna, algo que considera um erro crasso. "Tenho a certeza que a escolha do primeiro-ministro se baseou na melhor das intenções. Mas o precedente é grave. Não se pode passar. Não é um bom sinal que se dá. Como não foi um bom sinal tirar um ministro das Finanças para o pôr como governador de Banco de Portugal", disse. E continuou, apontando o dedo à inércia do Governo em setores fulcrais como a saúde.

Passos Coelho critica o Governo e indica possível regresso à política
Passos Coelho critica o Governo e indica possível regresso à política

"A mudança depende sempre da liderança. Se o líder quiser mudar, muda. Pode acertar mais ou acertar menos. Mas muda. (...) O Governo está há dois anos e parece que está lá há quatro anos. Na política, só está quem quer. Só vai para política quem quer. Para fazer alguma coisa. Já houve muito tempo para pensar, imaginar e trabalhar os cenários. Esse tempo acabou. É preciso começar a trabalhar e a fazer qualquer coisa."

As palavras duras, proferidas ao longo de um discurso que durou uma hora, seriam mais tarde analisadas à lupa pelos principais comentadores políticos, que sugerem uma certa dose de saudades por parte do antigo primeiro-ministro que, apesar de estar afastado do universo, parece viver para e respirar política, tendo mantido, mesmo estando fora do circuito, todos os contactos importantes, almoçando esporadicamente com figuras de proa da política, mas rejeitando sempre um regresso a tempo inteiro, quando sobre isso confrontado.

UMA VIDA SOLITÁRIA

Pedro Passos Coelho não voltou a ter ninguém desde o fatídico ano de 2020, quando se despediu daquele que os amigos garantem ter sido o grande amor da sua vida – continua, inclusivamente, a usar aliança de casado. Por essa altura, e com o cancro espalhado, Laura há muito que tinha deixado os tratamentos, que já nada a podiam ajudar. Tinha passado o Natal em casa e Passos Coelho estava presente em todos os momentos, apoiando a mulher no seu final de vida. Já se dedicava, então, quase a tempo inteiro à família e, quem o conhece, assegura que as suas rotinas não se alteraram assim tanto desde essa época, muito por conta das mulheres que o rodeiam.

Pai de Joana e Catarina, filhas do primeiro casamento com Fátima Padinha, das Doce, o antigo primeiro-ministro acompanha firmemente a vida das mais velhas, mas tem em Júlia, da união com Laura, de 17 anos, a sua grande preocupação. Por isso, depois da partida da mulher, nunca mais colocou a profissão à frente da família. Aceitou o desafio de desempenhar o cargo de professor Catedrático, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, mas sempre com uma carga horária que lhe permitisse acompanhar Júlia nas rotinas escolares e levar a vida recatada que sempre fez questão de preservar.

Não mudou de casa. Continua a viver no mesmo apartamento, em Massamá, onde é frequentemente visto a passear o cão de família, Koda, e, ao longo dos últimos anos, esforçou-se por honrar a promessa que fez à mulher de estar ausente da vida política.

Sempre rejeitou voltar à cena política, justificando que isso causava uma distração mediática. "Cada vez que apareço, isso põe as pessoas a olhar para o passado e não para o futuro. Não quero de todo alimentar isso ou desviar a atenção do presente", fez saber, não tendo, no entanto, problemas em abordar temas polémicos como a imigração. "Nós precisamos de ter um País aberto à imigração, mas cuidado que precisamos também de ter um país seguro". E reiterou: "Na altura, o Governo fez ouvidos moucos disso, e na verdade hoje as pessoas sentem uma insegurança que é resultado da falta de investimento e de prioridade que se deu a essas matérias. Não é um acaso".

O LONGO E PENOSO CICLO DE DISSABORES DE PASSOS

Pedro Passos Coelho está hoje mais sereno, conformado, mas sem esquecer a dor que tem pautado a sua vida ao longo dos últimos anos. Numa reportagem feita pela revista 'Sábado' há cerca de dois anos, os amigos garantiam que ele não se isolou depois dos infortúnios da vida, mas colocou, mais do que nunca, os olhos na família, até porque é aí que se sente bem.

Os desgostos aconteceram uns atrás dos outros. A mulher foi o mais duro embate e aquele de que dificilmente irá recuperar. Em 2015, a família susteve a respiração quando a fisioterapeuta foi diagnosticada com um tumor ósseo num dos joelhos. Na altura, o político estava no final do seu mandato como primeiro-ministro e, apesar de ter continuado na cena política, declarou guerra à doença com a mulher. Foram juntos a praticamente todas as consultas, tratamentos e, quando eram fotografados lado a lado, numa altura em que Laura já não tinha cabelo, Passos apertava-lhe a mão, enquanto ela sorria.

Pedro Passos Coelho com as filhas
Pedro Passos Coelho com as filhas

Foi neste espírito de união que celebraram os recuos da doença, mas também que enfrentaram o cenário cada vez mais dramático traçado pelos médicos que acompanhavam Laura no IPO, quando as metástases não davam tréguas, e que culminou com a sua morte, em 2020. Aconteceu um ano depois de Pedro Passos Coelho ter perdido o pai e a paz tardaria a chegar. Apenas oito meses depois de ter ficado sem a companheira, Passos Coelho deparou-se com a notícia da morte do irmão mais velho, Miguel, que tinha paralisia cerebral desde criança e faleceu no hospital onde estava internado, vítima de uma infeção. Dois anos mais tarde, perderia também a mãe.

Num ano negro que parecia não ter fim, o antigo político viu ainda a irmã ser diagnosticada com um cancro, assim como a antiga companheira, Fátima Padinha, que também continuava a braços com a doença. No meio deste cenário e com uma filha menor a seu cargo, era também o cuidador dos sogros.

No ano em que questionou se era possível suportar mais sofrimento, desceu ao fundo, mas, de acordo com os mais próximos, nunca se desviou do foco: a filha mais nova, que tinha sido privada da mãe em tão tenra idade e dependia inteiramente de si. Afastou-se da política, dedicou-se à família e honrou a promessa que fez a Laura. Agora com a filha já mais crescida, dizem que está pronto para voltar e que tudo o que dá são sinais inequívocos dessa vontade. Ele não confirma nem desmente, mas deixa no ar a dúvida. Será?

Saber mais sobre

você vai gostar de...