Ao fechar-se a porta da vida de António "Tony" Muchaxo, fecha-se também um dos últimos capítulos da história mais exclusiva de Cascais. Aos 96 anos, morreu o homem que conheceu reis como poucos, que assistiu em silêncio às aventuras de juventude de Juan Carlos I e que transformou uma simples barraca de praia num ponto de encontro da aristocracia europeia, de chefes de Estado e de algumas das maiores figuras do século XX.
Discreto por natureza, Tony Muchaxo nunca fez da proximidade ao poder um motivo de exibição. Pelo contrário. Durante décadas conviveu com Juan Carlos I, ainda antes de este subir ao trono espanhol, acompanhou muitos dos episódios mais reservados da sua vida e preferiu guardar para si aquilo que sabia. Num tempo em que o silêncio valia mais do que qualquer manchete, conquistou a confiança de quem procurava precisamente isso: um lugar onde podia estar longe dos olhares do mundo.
Mas reduzir Tony Muchaxo à amizade com o rei emérito seria esquecer uma vida absolutamente extraordinária. Nasceu em 1930, na casa que mais tarde passaria para a família Champalimaud. Ainda criança testemunhou um dos acontecimentos mais marcantes da história de Espanha, quando o avião do general José Sanjurjo caiu na Quinta da Marinha. Anos depois, trocou os livros de Economia pela hotelaria, uma decisão que acabaria por mudar para sempre o seu destino.
Foi o pai quem, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, acreditou que o Guincho podia ser muito mais do que uma praia batida pelo vento. Numa época em que não existiam estradas, pelo menos dignas desse nome, nem eletricidade ou água canalizada, abriu uma pequena barraca de madeira com apenas quatro mesas. O sonho ganhou forma e em pouco tempo a barraca da praia do Guinho passou a ser uma referência.
Como? A fama espalhou-se rapidamente entre as famílias reais que viviam exiladas em Portugal. O Conde de Barcelona [pai de Juan Carlos], Umberto II de Itália, Simeão da Bulgária e tantas outras figuras começaram a fazer do Muchaxo uma paragem obrigatória. O marisco fresco e a famosa Lagosta à Muchaxo, preparada segundo uma receita guardada durante décadas, tornaram-se uma atração quase tão forte como a paisagem do Guincho.
Foi também ali que se escreveram episódios que atravessaram gerações. Juan Carlos pediu Sofia de Espanha em casamento no Muchaxo. António Ramalho Eanes escolheu o espaço para celebrar o casamento. Francisco Sá Carneiro incentivou Tony a construir uma esplanada virada para o mar, convencido de que o vento nunca afastaria os clientes. Walt Disney deixou a assinatura no livro de honra do hotel, Evita Perón almoçou no restaurante e Olof Palme protagonizou uma das histórias mais caricatas, ao mergulhar completamente nu nas águas do Guincho até alguém ameaçar chamar a polícia.
Nem tudo acontecia entre as paredes da estalagem. Ainda jovem, Tony geriu uma pequena loja na praia do Tamariz, onde começou por vender sumos naturais preparados numa máquina importada dos Estados Unidos. Mais tarde reinventou o negócio, apostando em roupa de praia e produtos de bronzeamento, numa altura em que o turismo começava a transformar a linha de Cascais.
O espírito empreendedor nunca o abandonou. Participou na criação da Casa de Chá dos Oitavos, abriu o restaurante O Abano e esteve ligado ao nascimento da primeira escola de surf do Guincho, muito antes de a praia ganhar fama internacional entre surfistas.
As histórias acumuladas ao longo de quase um século pareciam inesgotáveis. Contava, com o mesmo entusiasmo, como um milionário do Catar ofereceu ao motorista uma limusina em forma de gorjeta, como um dos homens mais ricos da Bolívia discutia o valor das gratificações ou como os guitarristas de Amália Rodrigues abandonaram uma festa porque ninguém lhes prestava atenção.
Até ao fim continuou a percorrer os corredores da Estalagem Muchaxo, mostrando com orgulho os antigos livros de honra onde permanecem as assinaturas de reis, artistas e chefes de Estado. Gostava de recordar o passado, mas nunca viveu dele. Preferia falar das pessoas do que de si próprio.
Com a morte de Tony Muchaxo desaparece uma das últimas testemunhas privilegiadas de uma época irrepetível. Um homem que viu Cascais transformar-se num destino internacional, que recebeu algumas das figuras mais influentes do mundo e que fez da discrição o seu maior legado. Muitos dos segredos que ouviu nunca serão conhecidos. E talvez seja precisamente isso que torna a sua história tão fascinante.