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Sem tabus! Vamos falar de como engravidar e das dores do período: Patrícia Lemos é educadora menstrual e garante que não sabemos nada!

Acha-se uma "expert" no diz respeito ao seu corpo e ao seu útero? Desengane-se. Há todo um mundo feminino para explorar. Quer engravidar e não consegue? Já monitorizou o seu ciclo? Mede a temperatura todos os dias? Isto parece-lhe do século passado? Patrícia Lemos explica-lhe "tim tim por tim tim" o que pode estar por detrás desse gravidez tão desejada mas ainda não conseguida.
Carolina Pinto Ferreira
Carolina Pinto Ferreira
14 de outubro de 2021 às 23:00
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patricia lemos, círculo perfeito

Aos 43 anos de idade, Patrícia Lemos tem um grande objetivo de vida: acabar esta jornada com a certeza que as mulheres conhecem o seu corpo e o seu ciclo menstrual. Há mais de uma década abriu as "portas" de um dos seus maiores projeto: o Círculo Perfeito, uma plataforma educacional sobre o ciclo menstrual e a fertilidade. Desdobra-se para tentar ajudar os pedidos de ajuda, muitas vezes, desesperado que lhe chegam e quanto maior fosse o ano, mais consultas teria por marcar. No Instagram é seguida por mais de 70 mil pessoas e é conhecida pela sua forma de escrita leve, direta e que deixa as mulheres a pensarem e a "olharem" para o seu útero. 

Mas, afinal, o que é que está mal? Atualmente as mulheres têm mais dificuldade em engravidar? Devemo-nos ou não agarrar à pílula como a "salvadora"? A famosa educadora menstrual revela (quase) tudo numa conversa com a FLASH!

Antes de mais, o que é uma educadora menstrual?

É uma pessoa que disponibiliza informação, idealmente com base científica com fontes seguras e fidedignas e actualizadas, e talvez esta seja a parte mais importante, sobre o que é o ciclo menstrual. Nos últimos 20 anos a ciência tem devolvido muita informação em cima do ciclo menstrual e a forma como devemos olhar para ele. Esta figura da educadora menstrual surge para ajudar a construir novas narrativas, que na verdade têm mais a ver com o ciclo do que com a menstruação. Vem contrariar essa narrativa: não queremos focar-nos tanto no sangue mas como parte integrante do que o alberga, que é o ciclo. Estivemos focados no sangue ou para lhe dar superpoderes ou para tirar as mulheres da cena social. Um bocadinho para restringir movimentos e presenças das mulheres, justificando os seus humores e etc… Já sabemos que estão histórias da carochinha. As educadoras menstruais têm que vim com esta missão de dar o enquadramento de saúde para o ciclo.

Mas é importante perceber que não substitui um ginecologista…

Exactamente. É muito importante saber isso. É um acompanhamento até para os próprios médicos que continuam, alguns deles, desactualizados e a insistir que o ciclo menstrual não faz falta, que é uma maçada, que temos libertar as mulheres disso… O objectivo é das mulheres educarem-se e recolherem informações sobre aquilo que é "normal" para saber e poder ter informação do seu lado para que as ajudem a pré-diagnóstico.

O seu primeiro emprego foi como professora de inglês. Como é que surge esta necessidade de chegar às mulheres com este tema?

O meu caminho fez-se um bocado ao contrário. Ser professora foi mesmo o meu primeiro emprego com 18 anos. O Círculo Perfeito decorre do trabalho que estava a fazer na altura: trabalhava na área da Procriação Medicamente Assistida (PMA), no apoio terapêutico a casais que estavam a passar por processos de infertilidade. No meio disto tudo já tinha feito o mestrado em Estudos sobre Mulheres, outro em Saúde e Risco e aquilo que comecei a sentir é que havia uma desinformação de base nestes casais que funcionava como um fator ansiogénico, ou seja, eles cumpriam o protocolo que lhes era dado: tem entre 6 meses ou 1 ano para tentar engravidar e, se ao fim desse tempo não conseguir, começa-se à procura do que se passa. Muitos deles davam por si em processo de PMA que são muito exigentes a nível emocional, financeiro, físico… Comecei-me a questionar se houvesse informação sobre o que realmente é o ciclo menstrual podia ser fundamental. Existe aí o conceito de literacia do corpo, que me sai tão caro, e que é perceber realmente o que se passa no corpo das mulheres.

Exatamente por as mulheres não conhecerem o seu corpo e, por isso, muitas vezes, não conseguirem ter finais felizes no que diz respeito à fertilidade...

Venho para as questões da infertilidade, para os avanços da tecnologia ao serviço dos casais que não conseguem ter bebés e depois começo a regredir e a andar para trás: não se pode construir casas pelo telhado. Aquelas pessoas não conseguiam perceber o que lhes tinha acontecido. Pensei que a falta de literacia do corpo podia estar mesmo a aumentar os casos de infertilidade. Há coisas básicas: quando se toma a pílula não se tem o período, tem-se uma hemorragia de privação. Se chamarmos as coisas como elas têm que ser chamadas, será que as pessoas vão compreender que estão num caminho paralelo? Que é um sucedâneo. Isto não é bem uma paixão sobre a cena menstrual mas sim uma paixão pelo direito das mulheres à informação e autonomia e independência para decidir sobre o seu corpo.

É também uma luta feminista?

Sem dúvida. Se não se souber quais são as opções, elas não existem. As pessoas sabem que afinal não foram assim tão certinhas enquanto tomavam a pilula em termos de ciclo menstrual porque ele não existia? É dar estas informações às mulheres para serem elas a decidir o que querem fazer e que o possam fazer de uma forma consentida, informada e consciente.

Ou seja, as pessoas deixam-se "cegar" pelos conselhos dos médicos sem procurarem outras opções?

Quero que as pessoas percebam que o que resulta para uma mulher não tem que resultar para a outra. As mulheres percebem isso em termos de dieta, por exemplo, e quero que questionem exatamente o mesmo no que diz respeito à sua fertilidade e ao ciclo menstrual. As mulheres se não têm aquele padrão, de 1960, de 28 dias de ciclo, com uma ovulação ao 14º, é-lhes dada a pílula; se tem borbulhas, tem que tomar a pílula… Não é assim. Há coisas básicas: dormir as horas necessárias que o corpo precisa, comer de forma saudável, beber água, fazer exercício físico ou pelo menos movimentar o corpo. Se formos a ver, maior parte das pessoas não está a cumprir estas coisas.

"As mulheres se não têm aquele padrão, de 1960, de 28 dias de ciclo, com uma ovulação ao 14º, é-lhes dada a pílula; se tem borbulhas, tem que tomar a pílula… Não é assim."

É um mito ou é verdade que atualmente existe uma maior dificuldade em engravidar?

Temos poucos dados em Portugal comparativamente com outros países. Cá, os últimos números apontavam entre os 150 e os 300 mil casais. É muita gente. Mas depois a informação que temos é que sim, está mais difícil engravidar.

Porquê?

Por dois motivos: a idade dos casais. Estamos cada vez mais a ter bebés mais tarde, mas começo a notar que a situação se está a inverter aos poucos. Nas mulheres a idade impacta de forma muito direta e pouco misericordiosa. Em relação aos homens tem havido um declínio da qualidade do esperma na última década. Por outro lado, o estilo de vida que temos agora não tem nada a ver com o que tínhamos há 50 anos. Não vamos resolver isto com PMA mas sim com informação. Há tantas campanhas de sensibilização para o tabaco e não há campanhas de sensibilização nem para o sono nem para as questões da fertilidade. Quando há é: "se és jovem e queres ajudar, doa ovócitos" ou "congela os teus óvulos porque estás a ficar velha". Isto não é a prevenção de que eu falo. É garantir que toda a gente sabe o que tem impacto na sua fertilidade. As mulheres não fazem ideia e os homem também não.

"Cá, os últimos números apontavam entre os 150 e os 300 mil casais [com dificuldade em engravidar]. É muita gente."

Quais são os conhecimentos base que as mulheres deviam ter?

O mais explicado são estes 28 dias de menstruação, com uma ovulação a meio e com o objetivo de fazer bebés num dia. A educação menstrual serve para desconstruir isto tudo. A educação menstrual acompanha o corpo. Se dorme mal, anda stressada, não descansa como deve ser, faz pouco exercício físico, se come muito ou muito pouco, se está doente, se levou uma vacina: é normal que o ciclo menstrual se altere na forma como se apresenta. Uma coisa tão básica como anti-inflamatórios não esteróides pode atrasar a ovulação, por exemplo. Não temos que deixar de tomar medicamentos mas perceber que estes podem alterar o nosso ciclo, logo a nossa ovulação pode atrasar e, consequentemente, a menstruação também. Perceber que o ciclo menstrual é um barómetro do que acontece na nossa vida no imediato. É um retrato da saúde geral: se tem um ciclo menstrual que está muito irregular, muito longos, hemorragias muito abundantes, dor ou coágulos, há alguma coisa que se passa e que tem que ser investigada! Se podemos solucionar isto tudo com a pílula? Podemos mas não estamos a solucionar nada. Só diminui ou trava a sintomatologia mas não se consegue perceber o que se passa.

Então, onde fica a contraceção hormonal?

Faz imensa falta. Nunca o objetivo foi que a PMA deixe de acontecer ou que a contraceção hormonal não esteja disponível. A questão é garantir que as pessoas têm opções e que percebem quando as escolhem ou quando elas fazem sentido. A informação que tem que vir de base é: o que é o ciclo menstrual? De que maneira ele se estrutura? Que coisas impactam nele? E qual é a expressão, neste momento da minha vida, do meu ciclo?

Uma das suas grandes batalhas é acabar com esta receita da pílula, que cada vez mais serve "para toda a gente"...

Há pessoas que têm consequências por causa da toma de contraceção hormonal e que pensamos que não existem. Há factores de risco que devem ser mencionados logo no início no diagnóstico de uma rapariga: questionar se há algumas doenças na família, por exemplo. Se há uma miúda que começou a tomar a pilula e tem cefaleias ou se sente mal disposta e com a pilula continua com vómitos, se calhar temos que olhar para contraceção hormonal e tentar perceber o que se passa. Se for a um centro de saúde e só houver uma pilula disponível, todas as miúdas vão levar a mesma. A questão é: Quer tomar a pilula para quê? Porque não quer engravidar? Ok, mas está numa relação fixa? Tem só um namorado? Caso tenha mais é importante mencionar que então também tem que usar um preservativo para prevenir as DST’s. A minha grande duvida é essa: então, toma lá um comprimido, tem o problema resolvido? Não tem nada!

Porque as DST's também podem influenciar no momento de tentar engravidar?

Uma das principais causas complicações das DST’s é o impacto que podem ter na fertilidade das mulheres. Muitas deixam arrastar inflamações pélvicas, por exemplo, porque não tiveram a informação certa e não recorreram a tempo a um médico e porquê? Porque a única preocupação era não engravidar, quando na verdade a preocupação tem que ser a salvaguarda da sua integridade física e da sua infertilidade.

"A questão é: Quer tomar a pilula para quê? Porque não quer engravidar? Ok, mas está numa relação fixa? Tem só um namorado? Caso tenha mais é importante mencionar que então também tem que usar um preservativo para prevenir as DST’s. A minha grande duvida é essa: então, toma lá um comprimido, tem o problema resolvido? Não tem nada!"

Há também um regresso aos métodos naturais

Há um recuperar mas muito mais informada e atualizada. Temos que entender que os métodos naturais ou aquilo que quisermos chamar a essa monitorização do ciclo ou compreensão da fertilidade da janela fértil, neste momento, apresenta uma vantagem de podermos fazer o uso de métodos barreira que não estavam disponíveis no meu tempo áureo e glorioso dos métodos naturais de fertilidade.

Como assim?

Ou seja, ninguém obriga a ser abstinente – depende dos métodos e da forma como são ensinados – mas, no meu método, no Círculo Perfeito, é ensinar de forma secular, democrática e aberta a toda a gente sem pendor religioso, e portanto podem escolher não ficar abstinentes na altura que está fértil. Desde os preservativos internos aos externos, dos femininos ou masculinos; há uma pílula do dia seguinte na eventualidade de alguma coisa não correr bem e há ainda o acesso, se tudo o resto falhar, a uma interrupção voluntária da gravidez, feita de uma forma apoiada e com um enquadramento que há 40 ou 50 anos não tínhamos. Cada pessoa tem que saber em cada ciclo onde é que está. Dá imenso trabalho? Claro, mas escovar os dentes também. Mas aquilo que dá de volta é tanto…

E as luas? Há pessoas que ainda vivem muito agarradas à influências que as luas podem ter no ciclo menstrual.

É uma narrativa que cola muito bem com as questões das mulheres porque a lua tem fases, temos ciclos, essas coisas todas… Sabemos que ao nível do consciente estas histórias são as que marcam. Sabemos que o ciclo lunar não tem nada a ver com o ciclo menstrual, o que me vale um número de haters. Entendo, é uma narrativa que é muito apelativa porque é muito bonita. Mas pensar que isso vai sanar os problemas de saúde menstrual ou de fertilidade, é completamente romântico.

Entretanto, apareceu aqui outro perigo: o das aplicações de telemóvel que dizem controlar a fertilidade e ajudar a conseguir uma gravidez…

É, porque de repente desenvolveram-se apps sem atualizar a informação que temos e lá voltamos nós para os 28 dias e as ovulações a meio do ciclo. Portanto, 1987 telefonou e quer-te de volta. De onde é que retiramos benefícios dos anos todos que passaram? De todos os estudos que se fizeram? Lá está, com o conhecimento percebe-se quais são as aplicações que se seguem pelas informações que lhes dás ou aquelas para quem tu "estás a falar" e não te ouvem e estão a dizer o mesmo a ti e a outras mulheres. Nunca se escolheria um namorado com esta base, não é? Que está a dizer o mesmo a uma mulher e a todas as outras que não se conhece.

A Patrícia lida diariamente com mulheres desesperadas, cujo maior sonho é engravidar e não conseguem. Como é que se gere estas emoções?

Cada vez mais acredito que se não fosse a estrutura que tenho enquanto terapeuta dificilmente as coisas funcionaria como funcionam no Circulo Perfeito. Cada vez menos, e isso é muito bom, sou a última hipótese que essas pessoas procuram. Cada vez mais há miúdas novas a pararem, lerem e a começarem a monitorizar o seu ciclo e isso emociona-me. Nunca pensei ter miúdas jovens a chegarem até mim com esta informação. Mas tenho muitas pessoas que chegam até mim porque já tentou tudo e não conseguiram engravidar ou porque já não querem mais continuarem a tentar. Também há quem já tenha baixado os braços à procura de respostas externas e só querem perceber como é que isto funciona. Há pessoas que querem sessões para ontem porque já têm 42 anos e eu não tenho e dificilmente chegam a uma sessão comigo porque o tempo de espera tão grande que elas raramente esperam. Tenho pessoas que desistiram da PMA e algumas delas vêm fechar o ciclo com o seu corpo. Por um lado é um luto. Por outro, há pessoas que vêm e engravidam. Isto não é milagroso, dá trabalho.

Tem noção de quantas pessoas conseguiu "engravidar" nos últimos tempos?

Sim! Tenho 4 ou 5 pessoas que já tinham estado em procriação medicamente assistida e que neste momento têm bebés do Círculo Perfeito na barriga. Em 2020 terminei com 93 gravidezes. Este ano, a 29 de Setembro recebi o 62º positivo. Este ano tenho tido menos gente para engravidar, a pandemia teve um efeito de pausa para muitos casais.




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