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Um susto dos diabos. Cristina Ferreira perdeu milhares de euros com venda de sapatos. Este é o segundo revés da mulher que construiu um império na TV

Cristina e a sua empresa Amor Ponto são credoras em milhares de euros da plataforma que faliu. Ela diz que o fracasso do parceiro não a afetou, mas afetou. A apresentadora faturava milhões com o negócio em Gaia e só falta saber quem será o administrador de insolvência para apurar o tamanho do rombo.
João Bénard Garcia
Apresentadora Cristina Ferreira
Apresentadora Cristina Ferreira Foto: Instagram

Atenção que a Cristina Ferreira não faliu nem está insolvente. O culpado da bronca com a loja online da apresentadora da TVI e o corte de fornecimento dos sapatos, roupa e outros acessórios que a estrela da TVI vendia com as suas marcas é Nuno do Amaral Correia Ricardo Romão, o homem que levou à falência a fábrica Pontual em Avintes e por arrastamento fez colapsar a plataforma de venda online Blissfulbreeze, de que também era dono. Cristina Ferreira é agora uma das credoras do parceiro que foi à falência com estrondo e foi declarado insolvente pelo tribunal de Vila Nova de Gaia em agosto último.

Vamos então por partes. Uma notícia publicada a 11 de agosto deste ano no 'Jornal de Notícias' (JN) dava a conhecer que cerca de 60 trabalhadores da fábrica de calçado Pontual, em Avintes, Vila Nova de Gaia, estavam sentados em cadeiras de campismo à porta da mesma a guardar o que ainda lá restava dentro. Há uma semana que estavam ali, depois de o patrão Nuno Ricardo Romão os ter chamado às 17 horas do dia 31 de julho, uma sexta-feira, anunciando-lhes que os deixaria na rua sem trabalho assim que os portões se encerrassem.

Cristina Ferreira
Cristina Ferreira

O cenário não é novo. Na década de 1990, com o fim do protecionismo e dos subsídios fáceis da era cavaquista, após a adesão à CEE, hoje União Europeia, Portugal viu-se confrontado com a sua desatualização tecnológica e com a incapacidade de competir com os preços praticados por países como a China ou a Índia. Fábricas fecharam em massa, sendo o caso do Vale do Ave o mais emblemático e trágico dessa época, com milhares de pessoas, famílias inteiras no desemprego. Uma segunda crise viria a afetar a indústria têxtil e de calçado em Portugal. Entre 2004 e 2009 a UE abriu as suas fronteiras a produtos chineses e a crise do subprime de 2008 criou as condições perfeitas para que mais empresas encerrassem portas, asfixiadas com dívidas e sem acesso a crédito. Mais de 500 fábricas faliram e fecharam nesses anos, dezenas de marcas históricas do nosso tecido empresarial desapareceram, milhares de pessoas perderam o pão.

Agora a história repete-se, com a quebra do consumo na Europa, a concorrência agressiva das plataformas chinesas online e os custos da energia. E calhou a vez de Cristina Ferreira, a mais mediática das apresentadoras portuguesas, ser afetada pela crise e pelas falhas de gestão do seu fornecedor. Sim, é verdade: Cristina também está a arder com milhares de euros que pagou antecipadamente ao seu fornecedor por produtos que dificilmente receberá.

Quando JN foi conversar com os homens e as mulheres que produziam os sapatos de Cristina eles estavam ali há mais de uma semana em vigília, junto às grades da vedação da Pontual. Estavam firmes para repetir os gestos que milhares de outros operários fabris já haviam tido: vigiar as instalações para impedir o roubo de material, a fuga de maquinaria que poderia garantir-lhes o crédito e pagar-lhes os salários em atraso, os de julho e os subsídios de férias. Os cerca de 60 funcionários revezaram-se por turnos à porta da empresa e garantiram que só terminariam a vigia quando fosse designado um administrador da insolvência. O que entretanto aconteceu

O fim da Pontual, que Nuno do Amaral Correia Ricardo Romão comprou à família de José Oliveira Moura Costa em 2023, arrastou consigo a plataforma de vendas online que Cristina Ferreira tinha escolhido para suportava a venda e distribuição dos seus produtos de moda. A sociedade responsável pela gestão do e-commerce e venda online das marcas de moda, calçado e vestuário associadas a Cristina Ferreira (através do site shop.dailycristina.com) acabou arrastada pela falência do negócio maior do seu fundador, que em 2023 injetou 340 mil euros numa unidade fabril achando que a crise que se vislumbrava no setor do calçado não afetaria a Pontual.

A lista de credores da Blissfulbreeze é vasta e nela consta o nome de uma das várias empresas de Cristina Ferreira. No rol dos afetados estão entidades financeiras como o banco Santander, a empresa de telecomunicações Vodafone, a própria fábrica Pontual e por inerência os seus trabalhadores com crédito de salários em atraso, e a empresa Amor Ponto (detida por Cristina). Face à divulgação pública desta falência, a apresentadora veio a terreiro esclarecer, através de em comunicado divulgado pela plataforma SAPO, que a insolvência se limita à empresa gestora do site (Blissfulbreeze) e não afeta o seu património pessoal ou a continuidade independente das suas marcas, embora tenha perdido bastante dinheiro.

Nuno do Amaral Correia Ricardo Romão tem formação em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), exerceu funções de intervenção política local, tendo participado como deputado municipal substituto na Assembleia Municipal do Porto em diversas sessões e era ele o gerente e sócio único da plataforma e da fábrica que faliram. O encerramento abrupto da Pontual foi o principal "efeito dominó" que causou a insolvência da Blissfulbreeze, Lda. Como a Pontual parou a produção, a plataforma online deixou de ter material para fornecer a loja online de calçado e vestuário de Cristina, o que inviabilizou por completo o negócio.

DA ASCENSÃO À QUEDA DA REVISTA 'CRISTINA', O PRIMEIRO REVÉS

Este é segundo grande revés que Cristina Ferreira sofre na sua vida empresarial, obrigando-a agora a procurar uma parceria credível e confiável. Em janeiro de 2025 a publicação encerrou oficialmente após dez anos nas bancas. A justificação dada pela sua fundadora foi o de o fim de um ciclo de mercado e o da crise no setor da imprensa escrita. A própria apresentadora clarificou que a decisão foi estratégica. Conforme abriu dez anos antes, a revista saiu das bancas sem dívidas, sem falências ou insolvências judiciais, tudo de forma tranquila.

Na altura, em declarações ao portal ECO, Cristina Ferreira afirmou explicitamente que considerava o ciclo terminado, "tendo em consideração a falta de perspectivas futuras para o setor" da imprensa em papel. Embora inicialmente, em 2015, tenha sido um enorme fenómeno de popularidade aquando do seu lançamento, o formato físico em banca foi sofrendo desgaste com a quebra generalizada de leitores e a transferência do público para as plataformas digitais.

A apresentadora sublinhou que a decisão foi tomada com total serenidade, preferindo fechar o projeto em grande em vez de o deixar desgastar-se. A última edição "normal" teve como capa o seu histórico companheiro televisivo Manuel Luís Goucha (em dezembro de 2024), seguida de uma edição especial de despedida a 13 de janeiro de 2025 e contou na capa com Cristina Ferreira e o namorado, João Monteiro, marcando o encerramento definitivo da publicação após 10 anos. A manchete da edição especial foi "Amor é amor, ponto final"

O IMPÉRIO DA CRISTINA VISTO À LUPA: DA PIPY ÀS PALESTRAS, DA ROUPA AOS MEDIA

À margem de parceiras que saem furadas com empresário do Norte ou revistas em papel que se esgotam no goto pela debandada dos leitores para a plataformas online, Cristina Ferreira construiu um dos impérios empresariais e de personal branding mais robustos e rentáveis de Portugal. Ela foi considerada uma das mulheres mais poderosas no mundo dos negócios pela Forbes Portugal, a sua atuação divide-se em grandes investimentos nos media e várias marcas próprias.

A base do seu poderio económico está na área da Comunicação e Media (Grande Investimento), sendo este o setor onde detém maior poder institucional e financeiro, como ações na Media Capital, através da sua empresa Do Casal Investimentos. Em sociedade com o pai, Cristina adquiriu 2,5% do capital social do grupo Media Capital (proprietário da TVI), posicionando-se não apenas como colaboradora, mas como acionista e administradora executiva da Media Capital Digital, desempenhando um papel preponderante na área da ficção.

Além das aplicações em Media, Cristina criou, desde o tempo em que era apenas coapresentadora com Manuel Luís Goucha do programa das manhãs 'Você na TV!', marcas de roupa e acessóriosem torno da marca umbrella Casiraghi Forever, que é também a sua icónica loja de vestuário multimarca física, localizada na Malveira. Além da loja de porta aberta, a comunicadora lançou as plataformas Cristina Collection e Daily Cristina, com marcas de roupa e acessórios comercializadas tanto no espaço digital como em parceria com outras plataformas de distribuição. Tem 1,6 milhões de seguidores na plataforma online Instagram.

O marca exclusiva do negócio do calçado gerou milhões de euros em volume de negócios a Cristina, mas a falência da empresa parceira Blissfulbreeze que geria o e-commerce, fê-la mudar de estratégia e de parcerias este verão, revendo o negócio. A apresentadora esclareceu publicamente que já não mantinha qualquer ligação de gestão com essa estrutura operacional, focando agora os canais online noutros parceiros e segmentos, apesar de ter sofrido um rombo de milhares de euros com o fim da parceria no início de agosto.

E depois existe todo um universo onde a apresentadora tem tentado entrar mas onde tem apenas tido picos de euforia pelos seus produtos que se esvanecem passada a novidade. Aconteceu com os perfumes MEU, em arceria com a multinacional LR Health & Beauty, lançou fragrâncias em seu nome (feminina e masculina). O sucesso de vendas destas linhas tornou-se um caso de estudo de rentabilidade em Portugal, mas depressa se extinguiu. A plataforma digital GIRA, criada com o foco no empoderamento feminino e venda de produtos associados à sensualidade feminina, como uma bruma vaginal PIPY, causaram sensação, mas o público rapidamente perdeu interesse pelo produto.

Rentável a sério também têm sido a autoria de livros de receitas, autobiográficos e de desenvolvimento pessoal, que alcançam rapidamente o estatuto de bestsellers, e ainda mais rentável ainda têm sido as conferências 'Cristina Talks', com arenas repletas de milhares de pessoas focadas em motivação, liderança e partilha de histórias de superação.

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