Vinha de Nova Iorque com a mulher, Pamela Addison, e os filhos, Marshall Legend e Addison Lad, a caminho de Sevilha, quando uma paragem em Lisboa, e em especial numa das suas valentes caminhadas, desta feita no Parque de Monsanto e a ver o Tejo, lhe mudou a vida, o propósito e o futuro de um clube de futebol e está a gerar uma movida cultural na zona ocidental de Lisboa. Falamos de Gifford Miller, 56 anos de idade, um ex-político americano, professor e consultor estratégico de negócios na Miller Strategies, e ainda de uma empresa imobiliária, que em 2024 comprou, com a ajuda de um colega que consigo jogava futebol no ensino secundário, e de um fundo de investidores, o Atlético Clube de Portugal e o está a revolucionar. Ah, e a paixão por Lisboa foi tão assolapada que, 36 horas depois de pisar o solo da capital, ele e a família já estavam à procura de casa.
Miller nasceu em Manhattan, uma zona rica da cidade de Nova Iorque, mas cresceu em Inglaterra com a mãe, Lynden B. Miller, uma proeminente designer paisagista, e o pai, Leigh Miller, que foi nomeado político pelos presidentes Kennedy e Johnson. Foi um dos mais jovens autarcas democratas de Nova Iorque pois aos 26 anos ganha a sua primeira eleição para o Conselho da Cidade. Sai em 2006, agastado pelas críticas à sua governação considerada despesista. Hoje em dia integra o conselho de administração de um fundo de hedge e de diversas organizações sem fins lucrativos, incluindo a 'Friends of the High Line', a 'NYC Outward Bound' e a 'Academia de Medicina de Nova Iorque.
Hoje, o antigo presidente do Conselho da Cidade de Nova Iorque é o principal dono do Atlético Clube de Portugal, liderando um grupo de investidores que adquiriu a maioria da SAD do histórico clube de Alcântara. Desde que assumiu a agremiação, o empresário tem apostado num projeto inovador de revitalização que une futebol, arte, cultura e gastronomia. A transformação na emblemática casa do clube, o Estádio da Tapadinha, envolveu a criação de espaços de gastronomia e convívio (como a esplanada Curva) e a colocação de obras de arte de criadores nacionais conceituados (como Vhils e Joana Vasconcelos) nas bancadas.
Gifford Miller esteve recentemente à conversa com Tony Gonçalves, um emigrante ligado aos media, que tem um podcast associado ao semanário Expresso intitulado 'The Heart & Hustle of Portugal', onde afirmou que “existem muitas razões para acreditar no futebol português”, mas deixou também dicas para sobreviver às colinas da cidade de Lisboa, propostas para caminhadas, outra das suas paixões, e também sugestões gastronómicas, comidas e bebidas portuguesas favoritas, incluindo a sua paixão pelos vinhos Madeira.
A sua revolução no Estádio da Tapadinha aguçou também a curiosidade do jornal Diário de Notícias (DN) que o foi entrevistar e procurar decifrar este americano exótico que gosta de futebol, de arte, cultura e moda retrô e que está a transformar, por dentro e por fora, a vida de um clube do qual já quase ninguém falava. Ousado, tal como foi quando esteve à frente dos destinos da cidade de Nova Iorque e foi incompreendido na sua forma de fazer política, carreira que decidiu abandonar, diz, por motivos familiares. "Não tinha tempo para nada, família, crianças, e resolvi sair da política. Fomos ao Mundial da Alemanha e o amor pelo jogo reacendeu-se em mim", relembra Gifford.
DA GLÓRIA DOS ANOS 40 À INSOLVÊNCIA ÀS MÃOS DOS CHINESES
Democrata e crítico da administração Trump em geral, e muito crítico em particular da postura do Presidente Donald Trump na condução dos destinos dos EUA, não esconde a sua frustração pelo momento político do seu país, "especialmente nos últimos meses, tem sido muito mais agradável estar em Portugal do que estar nos Estados Unidos", como afirmou na conversa com o DN.
A sua paixão pelo futebol, apesar de ter nascido num país onde esse desporto tinha uma implantação residual, mas hoje está a sofrer um boom devido à proliferação de clubes com escolas para os mais jovens, devido aos videojogos e à presença de Leonel Messi no Inter Miami, fazendo do craque argentino curiosamente uma estrela idolatrada pelos americanos. Por ter vivido em Inglaterra, apaixonou-se pelo futebol do Liverpool, equipa da qual é adepto, mas há muito tempo que germinava nele o sonho de ser dono de um clube de futebol na Europa. A sorte do investimento calhou ao Atlético Clube de Portugal e ao futebol português. Ao ver o Tejo do Alto de Monsanto reparou também num estádio de futebol em degradação a meio de uma colina. Zás, estava ali a oportunidade que esperava.
Fascinado por Lisboa e empolgado com a hipótese de adquirir um clube na capital, à qual chama "uma São Francisco mais romântica", o ex político novaiorquino deu início a um processo de aquisição do Atlético em 2023, quando entrou em contacto com Ricardo Delgado, então seu presidente. O clube atravessava um período negro da sua existência, depois de um fracassado investimento de empresários chineses que o levou à insolvência e ao terceiro escalão das distritais, muito longe das velhas glórias no futebol nos anos de 1940, quando nasceu da fusão de dois clubes de Alcântara - o Carcavelinhos e o União de Lisboa.
Nova no cenário desportivo, a agremiação alcançou na primeira década de existência as suas classificações mais relevantes, com duas presenças na final da Taça de Portugal, em 1946 e 1949, tendo perdido a final em ambas as ocasiões. Dois lugares no pódio do Campeonato Nacional da 1.ª Divisão e a conquista da 2.ª Divisão em 1944/45, ficam como sendo os maiores feitos do Atlético na sua história.
A descida à Liga III marcou a reviravolta na gestão de Ricardo Delgado. Miller explica como tudo começou ainda em 2023. "O clube tinha tido essa má experiência com antigos investidores e o que achámos melhor para ambas as partes, num primeiro momento, foi uma política de co-administração. Portanto, na primeira temporada, suportámos os custos do clube, com o presidente e a diretoria a trabalharem diretamente no futebol. Já em 2024, assumimos 90% da participação da SAD, portanto, sendo a nossa primeira temporada como sócios maioritários, tendo tido o apoio quase incondicional dos associados", explica o dono do clube, que já fala português.
TODOS À TAPADINHA, É O LEMA DO HOMEM QUE VAI INVESTIR 7 MILHÕES
O Atlético sonha subir à II Liga, mas Gifford Miller não se contenta em ter um estádio fechado que só abre um dia, de quinze em quinze dias para 90 minutos de jogo. Aproveitar ao máximo a infraestrutura da Tapadinha tornou-se uma das suas missões. "Se este estádio não estivesse aqui, ninguém pensaria: ‘Olha, que belo lugar para construir um estádio!’ Por isso, a nossa ideia é tornar este espaço a coisa mais acolhedora e apelativa para a comunidade em geral. Não queremos que seja apenas um local para as pessoas se reunirem duas vezes por mês quando há jogos, mas sim algo que permita uma experiência muito mais incrementada tanto para o público como para os jogadores", confessou na mesma entrevista ao DN.
Vai por isso investir sete milhões de euros em obras de melhoria de iluminação, coberturas e a construção de novos lugares, balneários, casas de banho, não só pela consolidação do espaço cultural, mas também para cumprir os requisitos no futuro e sonhado acesso à II Liga. Miller idealizou transformar uma parte do estádio num verdadeiro hub cultural para atrair a maior variedade de pessoas que vivem na cidade. "O que é a cidade de Lisboa? É futebol, comida, arte e um clima maravilhoso. Queremos que a Tapadinha seja o centro disso", deseja o novo visionário de Alcântara.
E a pergunta que se impõe, sendo ele essencialmente em Nova Iorque um consultor de imobiliário e negócios, é o que percebe de hubs, cultura e revitalização de espaços públicos? Pelos vistos muito. O próprio revelou na mesma entrevista como ajudou a transformar uma zona degradada e urbanisticamente inútil num dos maiores sucessos de Nova Iorque. "O Highline. Antes espaço de uma linha de comboio abandonada, recebeu um parque que hoje em dia é o segundo mais visitado na Big Apple. Era um problema do bairro [Chelsea], uma linha abandonada não é algo que atraia atividades propriamente positivas. Transformámos o espaço num parque, que além de atrair turistas, é algo que a comunidade local usa diariamente”, frisa.
Além do relançamento do merchandising vintage do clube de Alcântara em 2024, com uma linha de equipamentos desportivos que remeteu para os anos 40, a época da fundação e de glória do Atlético Clube de Portugal, o evento começou a chamar mais pessoas ao estádio, deu nas vistas, e Miller acredita que a moda retrô, a da saudade dos pais e avós, é um negócio com pernas para andar. "A recepção e o sucesso de vendas foi acima dos nossos sonhos mais selvagens. Além de ser uma maneira de chamar a atenção de ainda mais pessoas: o futebol e a moda estão muito interligados nos dias de hoje", defende.
ARTISTA PORTUGUESES DE RENOME JÁ EXPÕEM NO ESTÁDIO, E A ENTRADA É GRÁTIS
Com as bancadas cada vez mais concorridas e resultados desportivos um pouco mais animadores na Liga III, Miller sonha que o seu clube seja uma espécie de Belenenses, mas mais universal: "Queremos é que o Atlético seja o clube de toda a gente de Lisboa”, finaliza Miller, que entretanto desafiou artistas portugueses para começar a revolução que deseja ser tudo menos silenciosa do espaço. Hoje, no Estádio da Tapadinha existem peças e instalações de Vhils, Bela Silva e Joana Vasconcelos, que transformaram o espaço numa verdadeira galeria a céu aberto.
A iniciativa integra o projeto 'MAAT + Atlético', promovido pela Fundação EDP em parceria com o Atlético Clube de Portugal e com curadoria do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT). O objetivo passa por aproximar dois universos que raramente se cruzam: a arte contemporânea e o desporto, abrindo o estádio ao público também fora dos dias de jogo. As obras inauguradas são: 'Scratching The Surface Project', de Vhils, 'Dança na Relva', de Bela Silva e 'Solitário #3', de Joana Vasconcelos, construída com jantes de automóveis de alta cilindrada e copos de uísque. Instalada num ponto elevado do estádio. As três obras de arte foram inauguradas a 17 de julho, e podem ser visitadas gratuitamente no Estádio da Tapadinha, de quarta-feira a domingo, entre as 12:00 e as 19:00.