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Entrevista

Exclusivo! Quintino Aires acusa TVI de "censura" e pede proteção para Cristina Ferreira

O psicólogo e agora ex-comentador da TVI fala em exclusivo à FLASH! sobre a forma como foi afastado dos comentários do 'Big Brother', responde a todas as perguntas e revela como ficou a relação com a diretora da estação de Queluz de Baixo.
Por Amarílis Borges | 15 de setembro de 2021 às 23:49
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Um dia depois das declarações polémicas que o levaram a ser afastado da TVI, Quintino Aires acusou o canal de "censura", reafirmando a "vergonha" que sente da marcha do orgulho LGBTI+. 

Em entrevista exclusiva à FLASH!, o psicólogo explicou os seus comentários no 'Extra' do 'Big Brother' esta terça-feira, 14, e como foi surpreendido por um blogue com a notícia que tinha deixado de ser colaborador da TVI.

Como reagiu quando a TVI tomou a decisão de afastá-lo?

Chocado, nós vivemos num tempo em que estamos todos tristes com o que se está a passar no Afeganistão, com as mulheres a terem de cobrir o rosto. Acho que estamos todos incomodados com isso. Perceber que essa censura é semelhante em Portugal, com outro formato, claro, é muito chocante.

Já fazia comentários há quanto tempo?

Há 24 anos que colaboro com a TVI.

Neste momento, vê todas as portas fechadas ou é uma situação do ‘reality show’?

Não sei dizer.

O que lhe disseram quando falaram consigo?

Não me disseram nada.

Mas recebeu uma notificação oficial de que não ia mesmo fazer comentários?

Não, não recebi. Estava a trabalhar na obstetrícia no hospital e à hora do almoço, quando saí, soube pelo ‘Dioguinho’.

Agora, um dia depois, como vê os seus argumentos de ontem…

Repare, eu fui comentar coisas ditas no domingo à noite na terça-feira, de maneira que tive 48 horas para pensar cada palavra que queria dizer. Foi tudo tão pensado, tão refletido que aquilo que disse no programa digo outra vez, e continuo a dizê-lo. No fundo, o que disse na questão de colar a Direção Geral de Saúde [DGS] com uma atitude homofóbica, quando na verdade nem sequer entendem por que é que estava ali a questão de ser-se homossexual, que eu acho que era obrigatório também perceber, é um erro gravíssimo e perigoso, e, portanto, o que ali foi dito em termos científicos era a minha obrigação. Não era uma escolha minha, com a minha formação, esclarecer ou não esclarecer aquilo que milhares de pessoas ouviram, era a minha obrigação. A parte científica é como é e não podia ficar calado - isso não tem discussão.

Relativamente à questão do meu comentário sobre a marcha gay, como homossexual, tenho o direito de não me identificar, como muitos homossexuais. Eu, como homossexual, não me reconheço naquela marcha, nem naquilo que ali acontece, e tenho direito a isso. Hoje é o dia 15 de setembro, dia internacional da democracia, não estamos no Afeganistão. Como homossexual, tenho o direito a dizer que não me reconheço naquela marcha como representante dos gays.

Mas a verdade é que ontem à noite não disse que não se identificava, chamou a marcha de "vergonha".

Sim, porque eu sinto vergonha! Já disse muitas vezes na comunicação social: sinto vergonha de ver aquela marcha! E tenho direito de dizer isso, estamos num país democrático, tenho direito à minha opinião. Calha de eu ser homossexual, mas mesmo que eu não fosse, poderia ainda assim dizer que achava aquela marcha uma vergonha. Aqui acresce o facto de eu ser homossexual, não me reconhecer ali e talvez até por ser homossexual sentir de forma mais profunda uma vergonha em relação ao que ali acontece. E tenho direito a isso, a ter opinião e a me expressar num espaço em que me contratam como comentador - não sou apresentador. Como comentador, para expressar a minha opinião, é mais do que natural que o faça. Como dizia, não se trata de uma coisa que de repente me surgiu, acordei virado para a esquerda e disse aquilo, não. Refleti durante 48 horas cada palavra. A parte da ciência nem sequer vou discutir. Outra coisa que vi durante a tarde, de ter chamado "bicha", eu estou dentro do mundo gay há 35 anos e quem está sabe perfeitamente que é uma palavra que utilizamos normalmente: "bicha preguiçosa"; "bicha desocupada", isso faz parte do vocabulário. Eu não retirava essa palavra.

"O preconceito hoje está sobretudo em alguns homossexuais"

O que pensou quando relacionaram os seus comentários à homofobia?

É lamentável que se exija que as pessoas tenham todas a mesma opinião. Não sei em quê o facto de um homossexual não se reconhecer na marcha gay faz dele homofóbico, faz apenas dele alguém que não se identifica com aquela marcha. Ponto. Absolutamente mais nada. Imagine… sou alentejano, gosto muito de açorda, mas se não gostasse de açorda não estava a ter uma atitude contra os alentejanos, estava simplesmente a expressar que não gostava de açorda. Eu sou homossexual, não me identifico com a marcha e sentir-me envergonhado cada vez que vejo a marcha não faz de mim homofóbico. Isso mostra aquilo que disse ontem também no programa, o preconceito hoje está sobretudo em alguns homossexuais. O que senti foi que o preconceito deles é tão forte que chegam ao ponto de fazer raciocínios destes.

Hoje de manhã passaram algumas imagens de Bruno d'Almeida que tinham diretamente a ver com os seus argumentos sobre a norma da DGS. Ele explicava o que tinha acontecido com ele que o levou a tentar discutir a norma de doação de sangue [dos homossexuais], e ele falava que tinha tido contato com uma pessoa que referia estudos científicos sobre os homossexuais estarem mais vulneráveis para o VIH. Para ele, isso era uma realidade dos anos 1980. 

Está a juntar duas coisas. Há duas coisas que são ditas pelo Bruno. Uma é que durante um período havia uma probabilidade maior de alguém que fosse homossexual pudesse ter um comportamento promíscuo e, portanto, havia uma maior probabilidade de se ter mais cuidado com o sangue que depois íamos dar a outras pessoas - é uma questão de proteger as outras pessoas, isso é um assunto. O outro que ele fala a seguir é quando alguém vai dar sangue. Quanto tempo tem de passar depois de ter sexo com várias pessoas? E a norma era: quem teve sexo com várias pessoas há menos de seis meses não pode dar sangue e, segundo ele dizia, umas das conquistas dele foi conseguir que se passasse para três meses. Ou seja, bastava passar três meses sem fazer sexo com várias pessoas para poder avançar. E, inclusive, o comentário foi ‘mas então o que querem? Que sejamos todos freiras?’ Não é isso, cada um faz da sua vida o que entende, cada um faz da sua vida o que quer, e quem quer ter sexo com muitas pessoas, tem. Tem é que entender que se quer dar sangue tem que estar um período sem fazer sexo com muitas pessoas, ter um parceiro certo ou uma parceira certa, ou então não pode dar sangue. Nós temos que perceber que o serviço de sangue só pode aproveitar sangue que possa testar e os testes não são ao momento. Não estamos a falar só do VIH, estamos a falar de muitas outras coisas. Se a ciência tivesse um teste que conseguisse dizer com segurança no dia seguinte se você tinha ficado infetado ou não, então bastava um dia, ou na véspera, podia ter sexo com muitas pessoas. O problema é que a ciência não tem testes que consigam dizer com segurança assim tão rápido, passado tão pouco tempo. Da maneira como ele falou no domingo, isto é que eu senti obrigação de explicar, não é uma questão de a DGS querer que as pessoas sejam freiras ou estejam sem sexo, é que não há na ciência testes que nos digam de um dia para outro… E isto é ridicularizado no programa, no domingo, com milhares de pessoas a ver, como se fosse a DGS ou os médicos ou os profissionais de saúde tivessem uma maluqueira qualquer com vontade de proibir as pessoas de fazer sexo, usando as palavras que ele disse no programa: ‘Querem todos que sejamos freiras’.

Uma das coisas que Bruno defendia é que, como há uma mudança no comportamento, hoje em dia os homossexuais fazem muito mais testes [às DST] e estão sempre a pensar no assunto, ao contrário dos heterossexuais. Ele diz um "heterossexual nem se lembra de ir fazer um teste às DST".

E, como sabe, é mentira, muitos heterossexuais fazem.

Essa mudança de comportamento, exatamente porque os homossexuais fazem mais testes, já não é justificação para a mudança da norma?

Por isso comecei a conversa por dizer que não é preciso ser tão ativista, era só alertar, porque realmente o que mudou no comportamento foi que os heterossexuais mantiveram o comportamento de risco, os homossexuais reduziram tanto que ficaram com níveis de comportamento de risco abaixo. Inclusive, eu falava no programa ontem [terça-feira], se procurasse há 10 anos filmes pornográficos sem preservativo ou com preservativo era difícil encontrar os homossexuais sem preservativo – até nos filmes era sempre com [proteção]. E nos heterossexuais encontrava [sem proteção]. Ou seja houve um desleixo nos heterossexuais e um cuidado muito grande nos homossexuais. Por isso, fazia sentido que essa regra fosse retirada da DGS, mas agora. Quando ela foi lançada, foi fundamental. Este é um aspecto. O outro aspecto, onde me foquei mais, foi nesta questão de não entenderem que ninguém está a mandar que as pessoas não façam sexo com outras. Estão apenas a dizer: não temos exames para testar e poder aproveitar o sangue maravilhoso que querem oferecer em tão poucos dias. É preciso um período até as pessoas poderem dar sangue. E isso é dito por ele no programa com uma atitude de querer que as pessoas fossem freiras sem sexo, não, não tem nada a ver com isso […] São coisas demasiado sérias, porque está muita gente a ver o programa. Eles podem dizê-lo - ninguém pode exigir que um concorrente de um programa destes tenha formação médica - e têm o direito de falar, mas se há a oportunidade de haver comentadores, e calha até comentadores que conhecem a matéria poder explicá-lo... É só isso. Fico chocado que fiquem chocados de se explicar, em vez de dizerem ‘olhe, ainda bem, agora já entendi’.

Há alguma coisa que sinta que precisa de se defender?

Não tenho nada que me defender. Como disse, tive 48 horas para escolher cada palavra que queria dizer, mas gostava de acrescentar duas coisas. Uma é a minha desilusão com uma sociedade onde as pessoas não podem expressar a sua opinião, isso deixa-me triste. Muitos portugueses lutaram muito para podermos expressar as nossas opiniões. Que um homossexual diga que não se identifica com os comportamentos de outros homossexuais, acho que é um direito que ele tem e que as pessoas se espantem com isso é, para mim, ofensivo em relação a tantos que lutaram para podermos falar à vontade. Eu nasci num tempo em que tínhamos de ter cuidado com o que dizíamos aos nossos vizinhos, convivi com muita gente que podia convidar um amigo para jantar em casa, falar alguma coisa para esse amigo e no dia seguinte esse amigo ir entregá-lo à PIDE. Tenho muita pena que 50 anos depois tenhamos que não expressar as nossas opiniões, opiniões como esta, por exemplo, um homossexual dizer que não se identifica com a marcha gay, e dizer que sente vergonha quando vê a marcha. A outra coisa que eu gostava muito de dizer é que o carinho e a gentileza (mútuo) que tenho para com Cristina Ferreira é exatamente o mesmo que tenho há 17 anos. Gostava que as pessoas não colocassem alguém que em 24 anos de televisão é a única pessoa em quem eu confio a 100%... que não a metam neste assunto. 

O nome de Cristina Ferreira não veio à tona com a polémica.

Ela é a diretora da estação de televisão que me afasta, portanto é natural que algumas pessoas venham fazer alguns raciocínios: ‘Então, o que é que aconteceu aqui?’. Não tem nada a ver com isso. O carinho e a gentileza é mútuo, ainda há pouco estivemos os dois a conversar. O meu carinho e a minha gentileza são os mesmos dessas duas décadas em que partilhamos. Gostava que ficasse de fora desta confusão. Que me desilude a sociedade em que estamos a viver agora! Muito. Que me desilude a atitude da empresa onde colaborei durante 24 anos! Muitíssimo. Mas que não coloquem a Cristina Ferreira nisto. Como disse, é a única pessoa em quem confio a 100% de todas as que fui partilhando 24 anos de televisão.

No princípio da conversa disse que não recebeu nenhuma notificação da TVI sobre ter sido afastado.

Sim.

No entanto, agora comentou que esteve a trocar mensagens com Cristina Ferreira.

Não, a conversar.

O que ela disse sobre este assunto?

Isso é uma conversa nossa, de dois amigos que têm um carinho mútuo muito grande […] Porque é que só conversamos ao fim do dia? Porque trabalho muito, ela também.

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