A recuperar de um AVC hemorrágico sofrido no final do ano passado, Nuno Markl viveu um autêntico balde de água fria ainda durante o período de internamento no Hospital Egas Moniz, em Lisboa. Quando tudo parecia encaminhado para uma alta breve, o humorista, radialista e apresentador, então com 54 anos de idade – celebrou 55 a 21 de julho –, sofreu um segundo Acidente Vascular Cerebral, um episódio isquémico que o deixou completamente devastado.
Em entrevista a Daniel Oliveira no programa 'Alta Definição', da SIC, o humorista recordou em pormenor a fase em que o corpo voltou a falhar, descrevendo o momento como “uma sequela do terramoto”.
Tudo aconteceu numa altura em que Nuno Markl já se encontrava animado com os progressos conquistados na fisioterapia e fazia planos para regressar à sua rotina. “Já estava no Egas Moniz, já estava a planear sair e refazer a minha vida. A fisioterapia estava já a pôr-me a andar, já conseguia lavar a cabeça com os dois braços e estava animado a pensar: ‘Vou para casa depois disto e vou continuar a fisioterapia em casa’”, começou por relatar.
Contudo, durante uma refeição normal no quarto do hospital, o corpo deu o sinal de alarme. “Estou sentado no meu quarto com uma mesa à frente e a almoçar calmamente, quando, de repente, há uma enfermeira que me pede para eu afastar um pé para levar uma coisa lá para dentro e nada acontece”, recordou.
Num primeiro impacto, o comunicador ainda equacionou tratar-se de um obstáculo físico: “A minha primeira ideia foi que o pé estava preso em alguma coisa da mesa, mas não. Olho para o pé e percebo que ele não está a 'funcionar' outra vez. Viro-me de imediato para o braço e para a mão e estava morto outra vez”.
Perante os sintomas e o retrocesso na recuperação, Nuno Markl foi encaminhado de urgência para realizar uma Tomografia Axial Computorizada (TAC). Sozinho no hospital naquele momento, sem a presença da família, o humorista não conteve a emoção ao ouvir o diagnóstico do médico João Pedro Marto.
“Lembro-me de ir na maca para a zona das TACs do Hospital Egas Moniz e de estar em lágrimas. Não estava ninguém da minha família quando aquilo aconteceu, eu estava lá sozinho e apareceu o doutor João Pedro Marto, que me disse: ‘É possível que isto seja um outro AVC, às vezes acontece isto’. As lágrimas escorrerem-me pela cara abaixo, tipo cascata”, desabafou Markl comovido, destacando o apoio humano do clínico: “O médico pôs-me uma mão no ombro e disse: ‘Tenha calma, amigo. Vamos tratar disto’.”
Com o diagnóstico confirmado, o radialista explicou a raridade do seu quadro clínico: “Tive um AVC isquémico depois de um hemorrágico (...) Geralmente, primeiro há um isquémico e depois um hemorrágico. Para mim, estava reservada a bizarria deste processo todo”.
A notícia representou um duro golpe no estado anímico do apresentador, que confessou ter ido ao fundo no que toca à sua saúde mental e motivação. “Fui-me abaixo mais do que nunca. Nem sequer é voltar tudo para trás, é voltar tudo ainda mais para trás. Não é voltar a zero, é voltar a -1000”, admitiu.
O médico que o acompanhava tentou tranquilizá-lo, perspetivando um caminho longo, mas com solução: “O médico disse-me: ‘A resolução disto é a mesma que eu já tinha dito: fisioterapia. Vai ser um bocado mais e vai ser um processo longo, mas vai conseguir’.”
Nuno Markl fez questão de esclarecer as diferenças entre os dois episódios, justificando a razão pela qual o segundo AVC acabou por ser ainda mais limitador: “O hemorrágico mata mais pessoas, na verdade, porque há uma inundação de sangue no cérebro. Mas, quando a pessoa se safa de um hemorrágico, o sangue é absorvido e tudo volta a funcionar. Já no isquémico, há mesmo ali um corte. Há uma zona do cérebro que morre. Para voltar a mexer a perna é quase como se tivessem de vir neurónios bombeiros de outros sítios do cérebro para colmatar aquela falha e temos que reaprender uma série de coisas.”
Apesar do forte impacto emocional e das dificuldades acrescidas na reabilitação, o humorista continua focado no processo de recuperação, embora reconheça que os resultados surgem de forma gradual e exigem paciência.
“Este braço ainda não mexe grande coisa, já mexe alguma coisa. A perna ainda não está propriamente forte, mas fui mesmo muito, muito abaixo nessa altura”, concluiu o rosto do 'Taskmaster', mostrando a resiliência necessária para ultrapassar uma das fases mais complexas da sua vida.