[a explicação do heroísmo]
Há heróis anónimos espalhados pelo mundo. E não, não estamos a falar dos milhares de soldados, por exemplo, que combatem em guerras, ou sequer dos Soldados da Paz, que combatem os incêndios com poucos ou nenhuns holofotes. Nada disso. Estamos a falar dos heróis anónimos, verdadeiramente anónimos, os gajos ou gajas que, anonimamente, ligam para algum lado, habitualmente para as forças de segurança, a fazer queixa de algo, ou a avisar de algo. São eles, muitas vezes, que impedem que tragédias, das grandes, aconteçam, e nunca chega a saber-se, na maioria das vezes, quem são. Uma linha de silêncio em sua homenagem, por favor.
[a explicação do embuste]
Nós e os outros: eis uma ligação complexa. De onde vem a maneira como lidamos com o outro? Há duas possibilidades, que no final das contas são apenas uma possibilidade. Vamos explicar num instante.
Se encontramos nos outros a realização da nossa identidade, a nossa relação com eles é feita de sentimentos afectuosos, positivos, virados para cima. Sentimentos dos bons. Se, pelo contrário, encontramos na figura do outro a negação da nossa identidade, o que daí resulta é aquilo a que habitualmente chamamos sentimento de inferioridade, a casa-partida para sentimentos tão variados, e tão tenebrosos, como o ciúme, como a inveja, como a raiva. Assustador, eu sei.
Ao contrário do que muitos advogam, ou querem advogar, sem qualquer conhecimento de causa e baseando-se apenas no que ouviram dizer, um certo dia, num certo programa televisivo com um certo especialista, todas as relações, todas, repito, apresentam os dois lados: o lado da realização e o lado da negação. Estão lá os dois, apesar de um dos dois poder estar mais vivo, mais desenvolvido, por dentro da nossa consciência. É facto, e vamos assumi-lo sem vergonhas: até nas relações mais carinhosas, mais cheias de afecto, pode encontrar-se um pedaço de sentimento de inferioridade, que provoca, é aqui que o leitor vai perceber que tenho razão, o sentimento de solidão, de abandono, de desconsideração por parte da pessoa amada. Já todos nos sentimos, não escamoteemos, assim. E o que é que ser humano faz quando se sente assim? Responde como pode e sabe: com arrogância, com altivez, com soberba, consubstanciada em actos e em palavras, com críticas despropositadas e só destrutivas, com ironia, com sarcasmo, com humor ofensivo. Enfim: com humanidade. É a nossa pequenina e desprezível maneira de nos sentirmos superiores, de algum modo, àqueles que, para nós, são superiores a nós, isto sim é irónico.
Em suma: queremos que aqueles que nós sentimos que são superiores a nós se sintam inferiores a nós, que sentido tem isto? E isto, reitero, acontece mesmo nas relações mais positivas e queridas e fofis que podemos ter ao longo da nossa existência. São, em alguns casos, bem discretas, bem subtis, quase invisíveis a olho, e a sentimento, nu, mas estão lá, estão mesmo lá, existem, por mais que caiam, mais tarde, na mais absoluta inconsciência, oferecendo-nos a falsa convicção de que acreditamos mesmo ser superiores aos tais outros, que embuste.
Sonegar: v. Acto de fazer do que aconteceu o que nunca aconteceu — e de, com isso, fazer do que aconteceu muito mais do que aquilo que aconteceu. Mentir sobre um erro é eternizar o erro.