As mulheres, os três casamentos e a vida apaixonada de António Lobo Antunes, que nunca deixou de acreditar no poder do amor
Foi casado três vezes e assume a sua quota parte de culpa no facto de, nem sempre, as relações terem sido bem sucedidas. "Fui cobarde, idiota, desonesto. Fui [espero que não muitas vezes] rasca", escreveu numa das suas crónicas, não deixando nunca de acreditar no amor, que vivia intensamente. Foi casado com Maria José Xavier e Maria João Bustorff - as mães das suas filhas - e em 2010, três meses depois do início do namoro, formalizaria a união com a jornalista Cristina Ferreira de Almeida, que o acompanharia nos bons momentos, mas sobretudo nas mais duras batalhas de saúde, até ao fim dos dias do escritor.“Desde que te conheço que não tenho olhos para mais nenhuma outra mulher, milagre que só tu poderias fazer, tornar realidade e alegria.”
O excerto foi escrito por António Lobo Antunes e faz parte de um conjunto de cartas apaixonadas enviadas pelo autor à primeira mulher, Maria José Xavier da Fonseca e Costa – e que seriam publicadas após a morte desta – durante o tempo em que interrompeu a sua formação em psiquiatria e foi recrutado para o exército de forma a cumprir o serviço militar, partindo para a guerra em África. Antes disso, porém, decidiu casar-se com Maria José, um amor da juventude, que havia conhecido na Praia das Maçãs e lhe arrebataria o coração. “Eu quis casar-me porque achava que ia morrer e queria deixar um filho ou uma filha”, admitiu. Quando partiu para Angola, em 1971, um ano depois do casamento, a mulher estava grávida da primeira filha, que Lobo Antunes soube ser uma menina entre um cenário bélico. “Soube que ela tinha nascido por telegrama, letra a letra.”
Teriam duas filhas - Maria José e Joana - e, apesar do divórcio, seis anos depois do enlace, conta-se que os destinos dos dois terão ficado para sempre ligados por uma bonita amizade. Quando se separou, Lobo Antunes ainda não tinha publicado o primeiro livro e foi nesse caos de uma nova vida, no seu apartamento de solteiro, no Monte Estoril, que terminaria 'Memória de Elefante', a estreia na ficção, depois de dezenas de manuscritos que o próprio assume ter deitado para o lixo, por não estarem ao nível daquilo que desejaria.
“Já tinha escrito uns dez ou 15 antes, ia tudo para o lixo. Na altura, vivia sozinho num apartamento minúsculo no Monte Estoril e tinha o vício do jogo. Saía do consultório e ia direto ao casino [do Estoril]. Não tinha dinheiro, gastava tudo na banca francesa. E escrevia sempre, mas a maior parte do que escrevi acabava no lixo, na figueira do quintal dos meus pais. E esse, não sei porquê, não deitei fora. Mas ninguém o queria. Foi o Daniel Sampaio que andou com ele de editora para editora durante dois anos. Eu continuava a escrever. Quando ele saiu, já tinha feito ‘Os Cus de Judas' (1979), estava a acabar ‘O Conhecimento do Inferno' (1980). Depois uma editora pequenina, a Vega, aceitou o livro", contou ao 'Público' sobre aquele que seria o início de um percurso brilhante, que muitas vezes o surpreenderia.
Não que Lobo Antunes não tivesse consciência do seu talento – afirmou que em Portugal ninguém escrevia como ele – no entanto, à vaidade por vezes sobrepunha-se a insegurança de quem acha sempre que o que escreve pode ser melhorado e que era capaz de mais.
"Lembro-me que quis fazer o lançamento de 'Memória de Elefante' e estavam o editor, uma empregada da editora e eu. Em 'Os Cus de Judas' já havia uma multidão. Os meus irmãos diziam-me: “Na praia está toda a gente a ler 'Memória de Elefante'.” Não estava preparado para aquele sucesso e fiquei desconfiado. O que terei feito de mal para as pessoas gostarem do livro?”
OS ÚLTIMOS AMORES DO ESCRITOR
Foi já durante o esplendor da sua carreira de escritor que se apaixonaria pela segunda mulher, Maria João Espírito Santo Bustorff Silva, em 1981. Dois anos depois, dava as boas-vindas à terceira filha, Isabel. Sobre o enlace, e oficialmente, não se sabe ao certo quando terminou, uma vez que em 2008, correram rumores de que teria reatado o casamento com a antiga ministra da Cultura. Nesse mesmo ano, o autor escreveria a crónica 'As Mulheres Têm Fios Desligados', em que retratava a forma como os homens terminavam, por norma, relacionamentos amorosos, e na qual parecia retratar-se. "Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto. Fui [espero que não muitas vezes] rasca". No entanto, no seu mais profundo íntimo, acreditaria sempre no poder do amor e do casamento. "Casamento para mim é casamento, fidelidade, amor, almoçamos fora ao domingo, termos as nossas coisas, com respeito, a meio da semana, sem palavrões nem palmadas, um suspiro aqui e ali, decente, e fica o trabalho feito até à quarta-feira que vem, cada um dorme para seu lado e pronto", escreveu.
Prova desta crença, em 2010 estava a casar-se com aquela que viria a ser a sua última mulher, Cristina Ferreira de Almeida, então diretora da revista 'VIP', por quem se apaixonou perdidamente e com quem se casaria apenas três meses após o início do namoro. A jornalista estaria a seu lado até ao fim, em tantos bons momentos, mas principalmente quando a saúde lhe faltou. E foram muitas as ocasiões. Por essa altura, tinha acabado de recuperar de um cancro nos intestinos, em 2007, e viria a enfrentar mais dois, nos pulmões, antes do derradeiro, que lhe ceifou a vida, aos 83 anos.
"Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como a velhice e a decadência. Tão reles. O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé, dúzias de histórias de criaturas que passaram por isso que tu tens agora e estão ótimas. Recuperando aos poucos da anestesia vou dando-me conta de que um bicho horrível em mim, ratando, ratando. Dois sentimentos opostos: Vou lutar, não vou lutar", escreveu numa das suas crónicas, descrevendo que essas batalhas e o confronto com a perspetiva de uma morte quase certa lhe deram um novo olhar para a vida. "Continuei sendo o mesmo. Mas há coisas de que de repente comecei a gostar muitíssimo. O sol, por exemplo, um dia de sol, um dia bonito, o facto mesmo de estar aqui. Estar vivo é um privilégio, um acaso e um privilégio."
Esses anos, de uma renovada consciência do privilégio que é estar vivo, foram vividos ao lado de Cristina, a presença serena na vida de Lobo Antunes, que começava a assistir ao seu próprio declínio, que lhe roubaria, nos últimos anos, o maior prazer e paixão que sempre teve na vida: a escrita. "Agora penso: 'Se deixo de escrever o que é que faço?' Ponho-me a ler... Leio oito horas por dia. Ao fim de uma semana estou farto de ler. O que é que eu vou fazer? Tenho medo de escrever porcarias. De não ter sentido crítico. Os escritores que vivem muito tempo começam a fazer porcarias e não percebem... tenho medo que me aconteça isso. (...) Tenho muito medo de começar a repetir-me. É inevitável", afirmava numa das suas últimas entrevistas.
A confirmação de um quadro de demência chegava em outubro de 2024 e era sentida como enorme tristeza por um País que se habituou a ler e a idolatrar António Lobo Antunes. A “demência (...) que o foi invadindo”, acentuou-se “no confinamento da pandemia de covid-19”, confirmava o amigo e jornalista João Céu e Silva, admitindo que o escritor passou a viver numa espécie de “exílio da realidade”, em que mergulhou até ao fim da sua vida.