O mais duro relato de Rute Cardoso: as últimas horas com Diogo Jota e o momento em que percebeu que algo de muito errado tinha acontecido
Nove meses depois da tragédia que ceifou a vida ao jogador português e ao irmão, André Silva, a viúva de Jota e os pais enlutados aceitaram regressar àquele fatídico dia de julho, para um livro de homenagem ao craque. Da despedida feliz, depois de umas férias emotivas, ao momento em que perceberam que algo estava mal, familiares falam pela primeira vez sobre o dia em que começou o maior pesadelo das suas vidas. "A minha cabeça parou ali", recordou Rute.Durante meses, Rute Cardoso viveu a sua dor em silêncio. Não se negava às múltiplas homenagens ao marido, Diogo Jota, às quais comparecia vestida de branco - também uma forma de o lembrar, uma vez que este a chamava carinhosamente de branquinha - mas o semblante era carregado e o seu espaço sempre foi respeitado. Só agora, nove meses após a sua morte, a viúva do futebolista decidiu tomar a palavra para lembrar o marido no livro 'Diogo Jota - Nunca Mais é Muito Tempo', da autoria de José Manuel Delgado, mas também regressar ao fatídico dia de julho, em que perdeu o grande amor na sua vida.
Sobre as horas que antecederam a viagem fatal - em que Diogo seguiria com o irmão, André Silva, rumo a Liverpool para o início da época desportiva - Rute não tem dúvidas de que o ambiente era de festa. Tinham-se casado há apenas nove dias, na festa dos seus sonhos, e viviam o final de umas férias felizes. Antes de seguir viagem, esteve não só com Rute mas também com um grupo de amigos, no qual se incluía o padrinho de um dos filhos, Bruno Duarte. Foram ao cinema e foi nas margens do Douro, que se despediram com um jantar numa das roulottes.
"Era noite de amigos, de tradições, de coisas simples, das coisas que, entre amigos, na verdade, nunca mudam, das que nunca são atrapalhadas pela fama, pela visibilidade. Os amigos constituem sempre o centro. São o sítio, a casa", é relatado no livro, em que Rute aborda também a questão do aluguer do Lamborghini, que conduziria o marido e o cunhado para a morte.
Rute revela que Diogo Jota nunca foi fascinado por grandes coleções de automóveis de luxo, como tantos outros colegas do mundo do futebol. A frota da família era composta por um Tesla, um Mercedes e, mais recentemente, um Cadillac, adquirido em novembro de 2024. "Ao contrário da maioria dos jogadores, que gostam de altos carros, joias e relógios, o Diogo nunca foi desse campeonato, e as viaturas que tínhamos bastavam-lhe", começou por contar a viúva, recordando de seguida que foi só para ter uma experiência diferente que o marido decidiu alugar um Ferrari nos dias que antecederam o casamento e depois o Lamborghini.
"Talvez por nunca ter ligado muito a automóveis, ele aproveitou para ter a experiência de conduzir um Ferrari, que, aliás, entregou na manhã do nosso casamento. Depois, alugaria o Lamborghini", conta Rute.
Depois, a família separou-se, Diogo Jota seguiu viagem com o irmão, e no percurso, receberia no telemóvel duas mensagens da mulher, à qual já não responderia. A primeira prendia-se com o facto de já ter recebido o vídeo do casamento, que estava ansiosa por partilhar com o futebolista. “Amor, quando parares, liga-me, que eu tenho aqui uma coisa para te mostrar.” Ao não obter resposta, acabaria por enviar uma segunda que dizia apenas: "Vai com Deus."
Ao não obter resposta de Diogo nem para esta nem para outras tentativas de contacto, Rute começou a entrar em pânico e deu início a demandas, ligando para o hospital, hotel onde os irmãos eram suposto ter feito check in e, por fim, à polícia espanhola através de um tio, a quem pediu ajuda.
"Ouvi o meu tio dizer: 'Sim, são dois irmãos'. Era a certeza, forte e dura de que algo havia acontecido. De repente, o meu tio pediu-me que lhe passasse o Nuno, o meu cunhado. Ouvi o meu tio dizer-lhe: 'Os corpos estão a ser levados'. Acho que ele acrescentou 'para a morgue', mas a minha cabeça parou ali. 'Corpos?'"
A confirmação chegaria pouco tempo depois, tendo sido comunicada por um polícia espanhol, que leu a declaração formalmente. "Declaro o óbito de Diogo José Teixeira da Silva, nascido em 4 de dezembro de 1996".
A DOR SEM FIM DOS PAIS DE DIOGO E ANDRÉ
O mundo do futebol e o País pararam em julho de 2025 perante uma das notícias mais terríveis: as mortes de Diogo Jota, aos 28 anos de idade, e do seu irmão, André Silva, com apenas 25, num acidente de viação em Espanha, quando viajavam para Inglaterra ao volante de um potente Lamborghini. Agora, meses depois da tragédia, o pai dos jogadores, Joaquim Silva, abre o coração sobre o "pesadelo" que está a viver desde então, revelando detalhes arrepiantes da última vez que viu os filhos com vida.
No último encontro, a família reuniu-se em Valongo para um jantar na casa da cunhada de Diogo Jota. Entre brincadeiras com os netos e a despedida habitual, nada fazia prever o que o destino reservava. “Vimos o carro, estivemos a brincar com os miúdos… Depois, despedimo-nos deles, e seguiram viagem”, recordou o pai dos atletas, no livro de José Manuel Delgado.
Foi já em casa, enquanto descansava, que Joaquim recebeu a chamada que nenhum pai quer atender. Rute Cardoso, viúva de Diogo Jota, ligou em pânico: “Venham para aqui, por favor”. O mau pressentimento foi imediato. A viagem até ao local do acidente foi descrita por Joaquim como "horrível", mas o pior estava para vir. Ao saber que o rebentamento de um pneu em Cernadilha tinha provocado o despiste seguido de incêndio que vitimou os dois filhos, o chão desapareceu. “A pior coisa de sempre. A pior coisa possível. Não sei, até hoje, como consegui aguentar”, desabafou.
O relato de Joaquim Silva traça o retrato de uma família destroçada por um acidente classificado como "estúpido" e trágico. "Não foi só um, foram os dois. Foi o momento mais horrível da minha vida."
Já a mãe, Isabel Silva, conta que sentiu que algo poderia não estar bem, depois de ter enviado uma mensagem ao filho mais novo, já perto da meia noite, à qual nunca obteve resposta. "Enviei uma mensagem ao André a perguntar como estava a correr a viagem. Ele não me respondeu, eram 23h23. Liguei a televisão e adormeci, mas não completamente; havia ali algo que ficou à espera da resposta que não veio. (...) Foi então que o Quim Zé se acercou de mim, colocou-me as mãos nos ombros e disse: ‘Foram os dois’. Nem sequer sabia que o carro se tinha incendiado. Quando o Quim Zé me contou que estavam, cada um, num saco, respondi-lhe que não ia."