Salvem o 'padeiro-herói'! Alexandre Quintas, o homem que salvou as duas crianças francesas na Comporta, em risco de ser despejado e perder a padaria
Ironia do destino. Alexandre Quintas, o homem a quem Portugal agradece pelo ato de enorme altruísmo ao salvar as duas crianças francesas de 5 e 3 anos que a mãe e o padrasto abandonaram na beira da estrada na Comporta, está em risco de perder o ganha pão de toda a família. A The Mag, by Flash! conta o drama deste pai de dez filhos.É o herói do momento e o homem de quem todos falam. Alexandre Quintas, o padeiro que salvou as duas crianças francesas abandonadas pelos pais na Comporta está, junto com toda a família, a lutar na justiça contra um processo judicial que Fátima Lima, viúva do empresário barreirense da construção civil António Xavier de Lima, conhecido por muitos pelo acrónimo AXL, e o filho, Marco Lima, lhe meteu para os expropriar. "Já gastámos milhares de euros com este processo que a dona Fátima nos meteu para nos expulsar do Monte Novo do Sul. Isto nunca mais acaba em tribunal e o nosso futuro é incerto. Não podemos reparar nada porque não sabemos se ficamos ou vamos ser expulsos daqui", conta à The Mag, by Flash! Rita Quintas, irmã e sócia de Alexandre no negócio familiar da Padaria Quintas.
Quando morreu a 2 de fevereiro de 2009 com um ataque cardíaco, enquanto esperava que a mulher terminasse de grelhar uns bifes de peru para o almoço, o universo empresarial de AXL já passava por graves problemas. O homem que loteou em 10 mil parcelas a Quinta do Conde e construiu milhares de casas, estava a sofrer um forte rombo na sua fortuna pessoal com a crise do subprime. Perdeu 60% do seu negócio e tinha o património em completa degradação. O nascimento da Quinta do Conde foi o início visível do império que AXL ergueu, mas antes disso já havia casas construídas por si em Caxias, Alfarim (zona do Meco), Azóia, Fernão Ferro, em Paivas, na Amora, onde construiu um edifício gigantesco para a época. Vendeu casas a emigrantes em Paris e em Toronto, para todos os que pensassem na reforma, para viverem ou arrendarem, num investimento seguro em Portugal, nos anos de 1960 e 1970, quando o País atravessava uma grave crise de falta de habitação.
QUEM FOI XAVIER DE LIMA, O CONSTRUTOR DA MARGEM SUL?
Era excêntrico e de uma vez, só de uma assentada, encomendou e pagou 60 Mercedes modelo 220, pretos com estofos brancos, que distribuiu pelos seus comerciais e deu tanto nas vistas a volumosa aquisição que até a marca automóvel alemã lhe perguntou se não estaria interessado em ser o seu novo representante desta em Portugal. O seu negócio era a terra e por isso se expandiu pela margem Sul, e a Comporta não foi excepção, tendo comprada as herdades de Monte Novo do Sul e Murta. Era um sonhador e um visionário: quis fazer um casino subaquático em Vila Nova de Mil Fontes que era tecnicamente viável, mas foi chumbado. Comprou o Palácio da Comenda para fazer um pequeno Mónaco na Arrábida, edifício assinada por Raul Lino, onde membros da família Kennedy e Truman Capote chegaram a veranear. Abriu um hotel em Cabeço de Vide. Comprou o Palácio do Rei do Lixo, em Coina, e tinha programado habitá-lo. Só não foi viver para lá porque um violento incêndio destruiu as entranhas do edifício deixando só a estrutura, como ainda hoje se vê a partir da estrada nacional 10.
Só que o homem das oportunidades, como era conhecido, não parou de comprar até aos 83 anos, quando morreu. Acreditava que se podia comprar e vender mais e acumulou património que entretanto estagnou com a crise e levo a família à insolvência e parte dos bens a ficarem nas mãos de administradores judiciais para cobrir as dívidas. Foi o que aconteceu com os dois monte dos herdeiros de AXL na Comporta que, passados alguns anos, conseguiram recuperar este património. Rita Quintas ainda se recorda de ver e ouvir a viúva Fátima Lima, acompanhada de um advogado a tentar despejar os Quintas da padaria que ainda exploram em Monte Novo do Sul. "Recordo-me dela aqui a ameaçar os moradores, a dizer que mandava vir de noite uma máquina para derrubar os telhados e que se não saísse a bem saíamos a mal", conta, avançando que terá oferecido 4 e 5 mil euros aos idosos que moravam nas casas dos montes para saírem. Uns foram para os lares, outros morreram e ninguém aceitou as indemnizações.
PADARIA EM RISCO DE DESAPARECER. INSTABILIDADE AMEAÇA FAMÍLIA QUINTAS
Rita conta que há 34 anos a família Quintas nada tinha a ver com o negócio do pão, mas passou a ter... à força. "O nosso pai vendia lenha ao padeiro, o senhor ficou doente e ofereceu-lhe o negócio. Aqui ficámos, com um contrato, mas a herdeira do Xavier de Lima, a dona Fátima Lima e o filho, Marco, queria ver-nos daqui para fora e meteu-nos um processo de despejo em tribunal que não tem cabimento pois ela já nem é a dona disto porque vendeu os dois montes à empresa Aqua Terra", salienta, ela que é tia dos dez filhos do irmão Alexandre, o padeiro-herói, que poderá perder tudo por causa de uma teimosia.
O grupo de produção agrícola intensiva anunciou que tinha três milhões de euros disponíveis para pagar indemnizações pois tinha apenas interesse em plantar ali pomares de abacates e tangerinas mas "o projeto foi chumbado porque implicava fazer trinta e tal furos de captação de água e isso mexia com os arrozais", avança Rita, explicando que pessoas dessa empresa já terão dito aos Quintas que poderão ficar no espaço da padaria, fazendo um novo contrato de arrendamento por um tempo determinado a combinar: "Não temos feito nada aqui à espera de assinar o tal novo contrato. Está-se tudo a degradar e não sabemos o que nos espera. Não nos vamos meter a fazer obras na parte do telhado que ruiu, ou a pintar o edifício porque sem sabermos se ficamos ou temos de sair. Que renda nos propõem e durante quanto tempo de contrato".
Os donos do grupo Aqua Terra, que mantêm contacto com os proprietários da Padaria Quintas e outros moradores, terão afirmado que "as pessoas precisam de pão e por isso vocês têm que existir", relata Rita Quintas, confirmando que estes lhes disseram que se o negócio dos pomares não avançar de todo, por questões ambientais, irão remodelar as habitações dos dois montes e fazer aldeamentos turísticos. As duas localidades existentes nos terrenos do grupo agrícola Aqua Terra são montes onde, durante décadas, moraram pescadores, trabalhadores do arrozais, apanhadores de batatas e muitos outros trabalhadores agrícolas sazonais na região da Comporta. A maioria das edificações estão degradadas, mas, no caso do Monte Novo do Sul, até uma capela existe, tendo a maioria das casas edificadas vista privilegiada para os arrozais do rio Sado.