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Das mudanças na televisão à reforma, as confissões de Júlia Pinheiro sobre as alegrias e dramas por que passou: "Houve um momento muito castigado"

Sem medo do momento em que os holofotes mediáticos se apontarem noutra direção, apresentadora diz que tem muito para fazer no dia em que a reforma chegar e que não vive presa à vaidade da fama. Com uma vida preenchida, mas recatada na intimidade, revisitou, em entrevista ao 'Expresso' alguns dos lugares mais escuros da sua vida, que fazem, no entanto, com que seja a mulher que é hoje.
Rute Lourenço
Júlia Pinheiro
Júlia Pinheiro Foto: D.R.

Aos 63 anos, Júlia Pinheiro é um dos rostos com maior longevidade na televisão portuguesa. Com mais de quatro décadas de carreira, aparece diariamente na casa dos portugueses e ainda não se cansou de o fazer, embora, admita, o termo reforma seja agora equacionado com uma maior frequência à medida que os anos passam, e de uma forma completamente pacífica. Em entrevista ao podcast do 'Expresso' 'A Beleza das Pequenas Coisas', de Bernardo Mendonça, a apresentadora passou em retrospetiva a sua vida, numa longa conversa em que o seu percurso televisivo esteve em evidência.

"Eu nunca achei que estaria cá depois dos 40, porque esta é uma indústria que não premeia as mulheres e quando o faz, isso acontece mais pela sua beleza e frescura. Eu tive que trabalhar outros aspetos do meu talento", explica a comunicadora, admitindo que sempre encarou o facto de ser uma figura mediática com os pés na terra, e que isso faz com que, agora, não tenha medo do momento em que as luzes da fama se apaguem. "Penso nisso (sair de cena), há muito tempo que penso nisso, porque a vida é assim, porque a nossa indústria se transformou tremendamente, se não fosse isso talvez não acontecesse tão rápido… talvez houvesse mais caminho, mas não estou preocupada. A minha identidade pública confunde-se com a minha atividade, a minha identidade como pessoa não se confunde com a minha profissão. Eu existo como pessoa para lá do ecrã e tenho tantas coisas para fazer (...) Sempre tive um grande controle em relação à vaidade, sempre que há um marco, não fico muito inebriada porque sinto que é efémero, tenho sempre um pé no chão."

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O facto de, a par da comunicação, cultivar outras paixões faz com que Júlia Pinheiro não tema a agenda mais liberta que a reforma lhe trará, até porque já a procura. Hoje, garante que seria incapaz de viver no frenesi das mil funções que se conjugam numa redação e que prefere um ritmo mais leve, que lhe permita acompanhar melhor as netas (acabou de ser avó novamente), estar com o marido, Rui Pêgo, e respirar. Até porque sente que a exigência do seu lugar em televisão entra, por vezes, em conflito com as suas responsabilidades familiares. Sentiu-o, aliás, recentemente, quando a mãe ficou doente. Com a impossibilidade de cancelar os seus afazeres televisivos, Júlia 'desdobrou-se' para conseguir chegar a todo o lado. 

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"Custa-me muito situações da minha família que eu não posso acompanhar, situações de doença. A minha mãe tem vindo a estar progressivamente mais frágil e, antes das minhas férias, teve dois AVC, no espaço de dois ou três dias, e teve de ser hospitalizada longe de Lisboa. E eu tinha de conseguir fazer o programa, não tínhamos alternativa, e depois multiplicar-me para ir ao sítio onde ela estava porque se a minha mãe não me visse ficava desorientada. O que me apetecia dizer naqueles dias era ‘não vou’, mas eu venho de uma disciplina e de um tempo em que tu não falhas, não podes falhar. É uma disciplina, somos atletas de alta competição", refere, recuando, também, a um dos momentos mais delicados da sua vida, já conhecido, quando as filhas gémeas, Matilde e Carolina, enfrentaram ambas anorexia grave. Um período de grande recolhimento e introspeção que mudaria para sempre a forma com que Júlia encararia a vida e também como se relaciona com o mundo.

"Houve um momento da minha vida que foi muito castigado, e que teve a ver com situações que vivemos na nossa família, por causa da anorexia, daquilo que se passou com as minhas filhas. E é uma doença que corta muito o teu lado social. Quando se está a viver uma situação destas em família, não é muito agradável convidar pessoas para jantar e não podes ir jantar com os outros a rua porque tens de acompanhar quem está doente em casa, portanto, nesse momento, quebrou-se alguma coisa no meu sentido de estar com os outros", refere, seguindo a velha máxima de que tem poucos, mas verdadeiros amigos – como é o caso de Manuel Luís Goucha – e uma família numerosa que a preenche em todos os sentidos, ainda que no meio do caos seja tantas vezes no silêncio que a apresentadora se sente mais confortável. "Eu tenho muito a necessidade de estar sozinha, porque tenho muita gente à minha volta, tenho muita necessidade de silêncio. Quando foi o pico da menopausa, e andava completamente transtornada, achei que estava com um problema de saúde mental e fui para a terapia, mas não funcionou."

Júlia Pinheiro, Rui Pego, filhas
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Júlia Pinheiro, Rui Pego, filhas

Entre as mudanças na televisão – que deixam a apresentadora sempre cética, de cada vez que se depara com alguém no ecrã que não se empenha com paixão no momento em que está com o microfone na mão ou que algum influenciador acha que comunicar em televisão é o mesmo que o fazer numa rede social – e o mundo acelerado, a estrela da SIC preserva a sua identidade, que faz com que se mantenha no ar com um programa, que assume ser um espaço de partilha e para todos, independentemente da cor política, como é o caso de André Ventura.

Júlia Pinheiro
D.R.
Júlia Pinheiro

"Simpatizamos um com o outro", refere e quando é desafiada a explicar melhor o termo simpatizar, Júlia Pinheiro desmistifica o assunto, admitindo que isso ultrapassa o facto de ideologicamente não convergirem nas opiniões. "Ele tem uma empatia que lhe é inata e será sempre muito útil na vida política. A mulher dele é uma pessoa gentilíssima, que trabalha na área de fisioterapia respiratória para crianças, ou seja tem de ter compaixão. Há qualquer coisa nele que nos desarma um bocadinho, mas depois perde-se, claro", diz, salientando que o programa diário a deixa muitas vezes entupida com os problemas dos outros e que, em televisão, ouve muito mais do que se mostra. "Não estou habituada a que me escutem. As pessoas sabem muita coisa sobre mim, mas se calhar não sabem nada", reitera.

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