As mortes, no espaço de apenas um mês, da princesa Tatiana Radziwill [19 de dezembro] e, posteriormente, da princesa Irene [15 de janeiro] foram dois rudes golpes para a rainha Sofia de Espanha. A idade avançada da mulher do rei emérito Juan Carlos I – tem 87 anos – faz temer o pior. Pois, apesar da sua vida nunca ter sido um mar de rosas, nunca se viu Sofia tão fragilizada e desamparada como no funeral da irmã, na Grécia. As imagens que chegaram de Atenas foram as de uma mulher – que sempre soube esconder as suas emoções e que sempre colocou à sua função à frente da sua própria vida pessoal – em profundo sofrimento. Não conseguiu esconder a infinita tristeza que lhe vai na alma. Tem consciência que com a partida da sua tão amada e fiel irmã os seus dias na Zarzuela vão ser ainda mais solitários e tristes. A quem recorrerá doravante? A quem fará as suas confidências mais pessoais e inconfessáveis sem ser à sua querida Irene?
Na despedida à irmã - com quem partilhou os últimos 40 anos – Sofia percebeu o quanto ficou desamparada neste mundo. É certo que tem três filhos – o rei Felipe VI, e as infantas Elena e Cristina – mas nenhum deles tem tempo para ela. Todos eles têm as suas próprias vidas que tanto lhes dá que fazer e pensar. É também certo que tem oito netos, mas todos são jovens e têm mais do que fazer do que acompanhar uma avó de idade avançada e mergulhada na tristeza.
E, por fim, é certo que tem um marido. Mas um marido que existe apenas no papel. Há décadas que levam vidas separadas. Vivem inclusivamente em países diferentes. Ela em Espanha e ele nos Emirados Árabes Unidos. Nada os liga para além dos filhos e do respeito à monarquia. Mesmo depois das humilhações públicas a que foi sujeita ela manteve-se firme. Nunca vacilou e nunca mostrou publicamente o quanto tinha sido ferida no seu orgulho e dignidade pela leviandade do homem a que continua a chamar marido. Só que tudo isso tem deixado marcas bem vincadas em si. À conta de tanto calar e de fingir, Sofia de Espanha, é uma mulher que perdeu o sorriso há muitos anos.
Para a rainha emérita a monarquia sempre foi a sua prioridade maior. Sabia que o seu estatuto não lhe permitia colocar-se à frente da Coroa. Mesmo não sendo espanhola e Espanha não ser o seu país, Sofia abraçou as suas responsabilidades como mais ninguém o fez. A razão para tanta dedicação? A rainha espanhola nascida grega é a mais real entre os membros da realeza moderna: filha de rei, irmã de rei, mulher de rei e mãe de rei. Talvez por isso, nunca pensou sequer em divorciar-se de Juan Carlos I. Quer manter-se rainha e morrer com o título.
Também por isso nunca virou as costas a Espanha apesar de ter o coração na Grécia. E esse é um dos seus grandes remorsos em relação à falecida irmã. Não entendeu? Nós explicamos. Há muitos anos que a princesa Irene – ainda antes do Alzheimer a impedir de comunicar e de lhe roubar a vontade própria - pedia para regressar ao seu país natal. Os pedidos eram tão insistentes que Sofia ainda ponderou realizar-lhe esse desejo. Chegou, inclusivamente, a ter uma conversa muito séria com o filho, o rei Felipe VI, dando-lhe conta da possibilidade de se retirar para acompanhar Irene às suas origens. Só que a ideia de regressar à Grécia angustiou sobremaneira Sofia, pois nunca quis abandonar o seu compromisso com a coroa. Com tantas vacilações, o estado de saúde de Irene piorou ao ponto de deixar de pedir para regressar a “casa” e a rainha manteve-se no Palácio como membro ativo da Família Real. Hoje, com a partida da irmã, arrepende-se duramente da sua opção.
Sabe que Irene abdicou da sua própria vida para estar junto dela e dos sobrinhos. Instalou-se na Zarzuela no início dos anos 80 e ali ficou até ao seu último suspiro. A princesa grega foi o grande apoio e a mais fiel confidente de Sofia. Razão que a leva a sentir que falhou com a irmã na única ocasião em que esta lhe pediu ajuda. Esse é um fator ainda mais martirizante para a rainha emérita que não se consegue livrar desse duro remorso. Perante todo este quadro de sofrimento os alarmes soam no palácio.
Felipe, Elena e Cristina mostram-se genuinamente preocupados com o estado anímico da mãe, mas sabem que por mais amas de companhia contratem nada aliviará o seu sofrimento. Eles próprios não têm condições de assumir a responsabilidade de se ocuparem dela a tempo inteiro. Felipe é rei e tem uma enorme responsabilidade às costas. Nunca as suas funções lhe permitirão passar mais tempo com a mãe para além das curtas visitas que faz regularmente à ala do palácio habitado pela emérita.
Já Elena é aquela que tem uma relação menos cúmplice com Sofia. A sua proximidade a Juan Carlos sempre foi - aos olhos de Doña Sofia - vista como uma “traição”. Além do mais, a infanta tem dois filhos rebeldes, Froilán e Victoria Federica, que já lhe dão tanto que fazer. Cristina, por sua vez, continua a viver na Suíça embora esteja a preparar a sua mudança definitiva para Espanha. Ainda assim, não escolheu Madrid, mas sim Barcelona. Questões geográficas à parte, a infanta, ela própria, está a lidar com o facto de ainda não ter ultrapassado o polémico divórcio com Iñaki Urdangarin e os seus quatro filhos passam por uma fase em que parecem precisar ainda muito da orientação materna.
A somar a tudo isto, Sofia tem uma relação bastante conflituosa (embora mais calma nos últimos tempos) com a nora, a rainha Letizia. As duas não se dão bem. Nunca deram. Tanto assim é que a emérita dificilmente poderá contar que o apoio da nora. Perante tudo isto, não é de estranhar que a rainha Sofia se sinta um tanto abandonada pela própria família. E essa realidade é, garantidamente, o fator que a poderá fazer mergulhar (ainda mais) num estado de solidão e tristeza.