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Entre a angústia e decisões difíceis: O coração de Roberto Martínez, que não se divide, e as lágrimas antecipadas pelo adeus a Portugal

Treinador admite que quando entra em campo se esquece de tudo e não fica com o coração dividido ao enfrentar o seu país de origem. Naquele que poderá ser o seu último Mundial por Portugal, Roberto Martínez antecipa uma despedida dolorosa, sobretudo para a mulher e as duas filhas, que já chamam casa a Cascais.
Rute Lourenço
Rute Lourenço
Roberto Martínez com a mulher, Beth Thompson
Roberto Martínez com a mulher, Beth Thompson

Quando chegou a Portugal, corria o ano de 2023, Roberto Martínez fazia-o de coração aberto, mas também com algumas preocupações. As decisões sempre foram tomadas em família e inquietavo-o que as duas filhas, Luella (nascida em 2014) e Safianna (em 2019) crescessem sem ter um berço concreto e não criassem raízes andando constantemente de casa às costas.

"Quero transmitir às minhas filhas que podem tudo, mas com valores. As minhas filhas nasceram na Inglaterra, tiveram sete anos na Bélgica, agora estamos em Portugal. Preocupa-me que pode ser um problema não terem raízes, mas há uma riqueza. A outra parte é que as meninas falam três idiomas, têm culturas diferentes, gostam de patriotismo", explicou, em entrevista ao 'Alta Definição', da SIC, precisamente numa fase em que a família começava a chamar casa a Portugal. "O equilíbrio aqui é muito bom. A minha esposa e as minhas filhas adoram Portugal, a vida em Portugal, a escola, o dia a dia é de muita felicidade e isso torna tudo muito mais fácil."

Beth Thompson, mulher de Roberto Martínez, com as duas filhas
Beth Thompson, mulher de Roberto Martínez, com as duas filhas

O desafio não foi assim tão complicado. O treinador espanhol, a mulher, Beth Thompson, e as filhas haviam trocado a Bélgica pelo clima ameno português, instalando-se na pacata e exclusiva Cascais. E se excluirmos o assalto de que o técnico foi alvo, pode dizer-se que o clã se adaptou com rapidez. No entanto, não é segredo para ninguém que essa é uma realidade que poderá ser alterada em breve, uma vez que no início do Mundial a imprensa britânica deu como certa a saída de Martínez após o final da competição. "Não é notícia. Já falámos muito disso em Portugal. Aqui pode ser novidade, em Portugal não é. O meu foco é preparar este Mundial, foi sempre o meu objetivo, quando renovei contrato: olhar para este Campeonato do Mundo e aqui estamos. O meu contrato termina depois do Mundial, por isso é um facto, não é uma notícia", referiu, sem se alongar sobre o assunto, mas antecipando as lágrimas de uma mudança que será necessariamente custosa, uma vez que o treinador tem sido muito acarinhado em Portugal e que lhe angustia que as decisões que tomam possam ter impacto direto na vida das filhas. "Ser pai mudou completamente a minha vida e as minhas prioridades. O meu objetivo sempre foi ganhar; quando elas nasceram, o objetivo passou a ser que fossem felizes. E, se além disso pudermos ganhar, tanto melhor."

Esta segunda-feira, dia 6, de julho, é de espírito pleno que enfrenta o país de onde é natural, tentando replicar o feito da Liga das Nações, mas ciente da dificuldade do desafio que, garante, não lhe divide o coração ao meio, até porque quando está dentro de campo se esquece de tudo o resto.

"Esquecemo-nos completamente da componente emocional. Isso vem com a experiência. Não senti que estava a jogar contra a Espanha. Só depois, quando olhamos para trás, percebemos que a Seleção que enfrentámos era a do país onde nasci".

UM CATALÃO QUE SE ENCANTOU POR UMA ESCOCESA

Desde que assumiu os comandos de Portugal que Martínez se tem tornado num símbolo discreto da equipa das Quinas, o que aumenta a curiosidade a seu respeito. Visto como calmo e diplomático, é considerado um técnico que tem na comunicação um dos seus pontos fortes, tendo o condão de unir os jogadores como se da sua própria família se tratasse.

É, na verdade, um pouco assim no futebol e na vida pessoal, que gira em torno das suas três mulheres: a escocesa Beth Thompson, com quem está casado há 18 anos, e as duas filhas.

Ainda que para a família não seja fácil fazer girar todas as dinâmicas em torno da profissão de Martínez, a verdade é que há muito que o clã se habituou a andar com a casa às costas, uma vez que o selecionador nacional conheceu aquela que viria a ser a sua mulher quando ainda era jogador.

A partilha de vida com a escocesa Beth Thompson começou nos tempos em que Martínez ainda calçava as chuteiras e pisava os relvados como jogador. Corria o ano de 2002 quando o então futebolista espanhol se mudou para a Escócia para envergar a camisola do Motherwell. Foi no hotel onde a equipa estagiava que se cruzou com Beth, que conciliava o trabalho nessa unidade hoteleira com os estudos em Glasgow. Completamente rendido, o catalão chegou a cometer a loucura de frequentar as aulas do curso de Marketing da jovem universitária só para estar perto dela. O romance avançou de forma célere e, quando o desporto obrigou Martínez a mudar-se para o País de Gales, Beth não hesitou em colocar o seu percurso em pausa para o acompanhar, reinventando-se mais tarde com sucesso no setor do imobiliário.

Com 18 anos de casamento e duas filhas em comum, Luella e Safianna, o casal encara este puzzle geográfico com total naturalidade. No entanto, conciliar a vida familiar com a obsessão de Roberto Martínez pelo futebol nem sempre foi uma tarefa simples. O próprio selecionador nacional chegou a confessar publicamente um segredo curioso: para evitar crises conjugais devido às intermináveis horas passadas a analisar partidas, a solução passou por instalar duas televisões na sala de estar. Uma estratégia inusitada que, segundo o próprio, assegurou a harmonia do lar.

Apesar de manter a sua independência, Beth Thompson faz questão de ser a fã número um do marido. Sempre que a agenda permite, a escocesa marca presença nas bancadas dos jogos caseiros em solo português e, no ano passado, fez questão de viajar com as filhas até à Alemanha para apoiar Martínez

O PORTO DE ABRIGO DE MARTÍNEZ

Nascido em Espanha, Roberto Martínez diz que é muito Ibérico, mas curiosamente acabaria por se apaixonar precisamente pelo oposto: Beth, uma escocesa, muito racional, que lhe arrebatou o coração até aos dias de hoje. "A minha esposa é o treinador em casa, ela faz-me mudar de opinião. Chego a casa, ela organiza tudo, o tempo em casa com as meninas... Ela tem uma visão diferente da minha. Ela é escocesa, eu sou muito ibérico, temos uma diferença de opiniões, o que no meu entender é muito saudável", disse em entrevista ao 'Alta Definição', da SIC, acrescentando que, durante muito tempo, não foi o pai que gostaria para as filhas, devido aos ritmos do futebol.

Roberto Martínez com a família em Portugal: mulher escocesa e filhas adoram o país
Roberto Martínez com a família em Portugal: mulher escocesa e filhas adoram o país

"Todos os trabalhos têm um preço a pagar. O equilíbrio profissional e o tempo na família, todos temos o mesmo problema. O importante é que quando estamos na família, estejamos intensamente na família, que o pensamento não esteja no escritório”, disse, admitindo ter acompanhado muito pouco os primeiros dois anos da filha mais velha, com a mulher a colmatar as ausências de forma impressionante. "A Beth tem tudo, posso falar com ela sobre tudo. Pode ser a minha melhor amiga, a minha professora, ela faz-me feliz."

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