Há dois anos, Paula Amorim e Miguel Guedes de Sousa viviam o impensável. A semana de abrirem portas o seu primeiro hotel - o JNcQUOI House - em plena Avenida da Liberdade, o edifício era consumido pelas chamas. Do espaço original, que estava pronto a estrear, nada restou, mas para o mediático casal - que formou o império JNcQUOI - desistir não estava nos planos. Da tragédia, o par fez a sua força e, ao longo dos últimos dois anos, empenhou-se em reconstruir o espaço, que irá, finalmente, abrir portas em outubro deste ano. "Duas semanas antes da inauguração, a Casa JNcQUOI foi destruída por um incêndio. Mas em vez da autopiedade, escolhemos a paixão. Em vez da derrota, abraçámos a coragem. Estamos a reconstruí-lo – não apenas como o planeado, mas melhor. Porque os sonhos exigem resiliência e a realidade curva-se para aqueles que se recusam a acomodar-se. Com muito trabalho, visão ousada e a arte de ser irracional, tudo é possível. Obrigado pelo apoio", escreveu na época o CEO do grupo Amorim Luxury.
O que poucos sabiam na altura é que para Miguel aquele era o reviver de um pesadelo antigo. Antes de conhecer Paula Amorim, o empresário correu o mundo para melhor conhecer o ofício do luxo. Foi gerente de vários hotéis e uma dessas experiências levou-o até um espaço de sonho, numa ilha remota da Ásia, Amanpulo. Era um pequeno pedaço de terra, que funcionava como um resort exclusivo de areais branca e para onde quer que se olhasse só havia o verde da vegetação e o turquesa das águas cristalinas. Até ao dia em que o impensável aconteceu.
O calendário celebrava a Páscoa e Miguel Guedes de Sousa lembra-se de ter subido a um monte para uma pequena procissão para assinalar a quadra. Foi quando viu a primeira nuvem de fumo: o hotel estava em chamas. O empresário ficou em choque, temeu não saber o que fazer, mas depois de uma hesitação inicial, arregaçou as mangas e fez o que tinha de fazer enquanto diretor-geral do espaço, no caos estabeleceu uma ordem de trabalhos e foi ele próprio combater as chamas com baldes de água.
"Desci a correr, o fogo era nos staff quarters, onde estavam os geradores e a parte toda da logística. De repente, tenho dois barracões a arder, tudo aos berros, 300 e tal pessoas a correr com baldes de um lado para o outro, uma confusão. Tive um ataque de pânico, mas disse: 'Tenho de me aguentar, tenho de ser líder.' Havia um carro de bombeiros, que nem funcionava, uma coisa extraordinária, ponho-me em cima do carro e grito: 'Parem! Imediatamente!' Dei ordem para fazerem três filas: 'Romero, vais contar os clientes e levá-los para a outra ponta da ilha', a outro disse para tirar os barris de petróleo que iam explodir e pô-los num barco, e ao outro disse: 'Vamos combater o fogo.' Éramos cem a combater o fogo, durante 12 horas, a ilha a arder. Fiquei com os pés todos queimados, mas ninguém morreu, foi um milagre", recordou o marido de Paula Amorim, em entrevista ao 'Público', ignorando na altura que o pesadelo se iria voltar a repetir na sua vida: em junho de 2024, quando o incêndio consumiu o hotel de charme que estava prestes a inaugurar na Avenida da Liberdade.
A resiliência da primeira experiência foi repetida em Lisboa e agora é com orgulho que o empresário anunciou a reconstrução do espaço que, por causa do incêndio, acabou por resvalar nas contas previstas: o investimento inicial, de 10 milhões de euros, em muito foi ultrapassado, tendo, de acordo com o 'Jornal de Negócios', sido fixado nos 25 milhões de euros.
O espaço completa o conceito pensado por Paula Amorim e pelo marido para a Avenida da Liberdade e que passa pela ideia de que, dentro do universo JNcQUOI, os clientes possam viver uma experiência completa, entre "moda, hotelaria, restauração e 'membership'", conforme uma fonte revelou ao 'Negócios'.
O espaço, com a assinatura do famoso arquiteto Vincent Van Duysen, também responsável por outros projetos do casal, nomeadamente na Comporta, conta com 16 suítes e integra ainda dois quiosques. Na Avenida da Liberdade, o Grupo Amorim tem ainda o JNcQUOI Asia, o Frou Frou e a Fashion Clinic, completando aquilo que a empresa chama de 'City Hub'.