Susana Amaro Velho estava de licença de maternidade do terceiro filho quando tomou a decisão que terá feito, certamente, diferença na forma como o livro 'Sou uma Multidão Minúscula' — que acaba de chegar às livrarias — foi concebido. Deixou o emprego certo na área de Direito, voltou a trabalhar como jornalista freelancer e ganhou tempo que lhe permite agora sentar-se todos os dias com uma caneca de café à secretária a trabalhar naquilo que verdadeiramente a apaixona: transpor para o papel as personagens que vivem dentro de si.
"Costumo dizer que prefiro viver com menos do que adiar um livro. Não foi uma decisão heroica, até porque tenho três filhos que precisam de comer, mas percebi que estava a dar o melhor do meu dia a uma coisa que já não me interessava e a chegar aos livros sem nada, cansada. Não vale a pena escrever nessas condições, até porque a maior parte do que se escreve acaba no lixo", conta a autora à FLASH.
O que quer dizer que, ao longo de mais de um ano, Susana enfrentou, todas as manhãs, o documento word daquele que viria a ser o seu quinto livro, com a casa silenciosa e longe do romantismo dos que acreditam que o que se publica é fruto de uma inspiração divina. "Não fico à espera da inspiração. Sou profundamente metódica e obrigo-me a ler as incoerências, a estar atenta, a procurar", diz, reforçando o poder da disciplina.
'Sou uma Multidão Minúscula', que vem com uma frase elogiosa da conhecida escritora espanhola Rosa Montero na capa, chega quase dez anos depois de a autora ter publicado o primeiro livro, 'As Últimas Linhas destas Mãos', e dois anos depois do último, 'Descansos', mantendo a constância de temáticas que mais prendem Susana: a análise das relações humanas e, no caso concreto deste livro, a herança comportamental que muitas vezes é difícil de quebrar.
"Há uma rede de relações que herdamos: as mães, as avós, as vizinhas, as mulheres a quem só foi permitido ser uma coisa de cada vez — filha, mulher de alguém, mãe. Interessa-me esta ideia porque não acredito na pessoa isolada. Estamos habituados a explicar tudo pelo indivíduo, pelas suas escolhas e pelo seu mérito, e a mim o que me parece verdadeiro é a corrente: uma mulher aguenta porque a mãe ou a avó, ou uma amiga, aguentou antes, e transmite-lhe, de certo modo, a receita, ou a forma certa de a contrariar", reflete, acrescentando que há quase uma ideia de destino certo que parece impossível de contrariar.
"Intriga-me muito o conceito de destino, essa velha ideia de que há coisas que não se controlam, transmitem-se de mãe para filha como se fosse um ofício, e o difícil é quebrar esse padrão quando a herança não é bonita. Leio muito mais ficção, mas quando me debruço sobre estes temas procuro sempre a análise de especialistas em relações familiares, e descobri coisas interessantíssimas sobre estas heranças familiares e o preço desta transmissão: aquilo que salva uma geração costuma cobrar-se na seguinte. Há comportamentos herdados, vícios, a vida procura resolver mais à frente o que deixou pendente no passado."
Em 'Sou uma Multidão Minúscula' — um verso do poeta António Ramos Rosa — é contada a história de Margarida, que cresce numa pequena aldeia e aprende cedo o que é ser empurrada para fora da sua própria infância. Décadas mais tarde, viúva e mãe de dois filhos, procura equilibrar-se entre três empregos e a luta diária pela sobrevivência. Mas quando um novo ato de violência ameaça destruir aquilo que mais ama, é obrigada a regressar ao lugar exato que decidira abandonar no passado para proteger a filha, o que nos faz mergulhar num drama em crescendo, que parte das inquietações de Susana enquanto pessoa.
"A pergunta de que parti? O que faz uma mulher com uma dor que não pode entregar a ninguém? Sabe que cedeu, que repete, que não consegue abandonar o círculo onde está presa a formiga, mas, a dada altura, vê-se obrigada a arregaçar mangas, já que por um filho se consegue tudo. A resposta que o livro dá pode ser desconfortável, o final arriscado, mas o que me levou até aqui foram as mulheres que vi crescer à minha volta e as histórias que se contavam sobre as que vieram antes delas. Casamentos que se aguentaram por falta de alternativa, filhos criados com o que havia, vidas organizadas em função de um homem que muitas vezes não estava presente. Sempre me incomodou ouvir dizer que essas mulheres foram submissas. Não me parece que sejam."
Neste como nas restantes obras de Susana, há também uma forte humanização das personagens, construídas longe dos estereótipos de vilões/heróis, e que são a todo o momento falíveis, acumulando culpas e dores ao longo das páginas.
"A Margarida não é uma mãe exemplar nem quero que seja lida como uma vítima. É instável, erra, cede, arrepende-se e volta a fazer o mesmo. Tem valores e nem sempre os cumpre, e há coisas que decide não ver porque vê-las obrigaria a agir. O que me interessava explorar não era a maternidade sofrida, era esta ideia de continuidade. Ela comete os erros da mãe, reconhece essa repetição e mesmo assim não a evita pois essa é a parte difícil. Herda da madrinha, que a educa na quinta onde cresceu, a força que a mantém de pé, mas herda igualmente a obrigação de aguentar em silêncio, e as duas coisas vêm no mesmo pacote. A maioria das dores femininas é silenciada."
DEZ ANOS DEPOIS, UMA NOVA MATURIDADE
Foi há quase uma década que Susana se iniciou na escrita e desde então quase tudo mudou. A família passou a encaixar-se naquilo que, para a média portuguesa, já pode ser considerada um numeroso clã, com três filhos, e a autora cresceu em igual medida, numa renovada maturidade que se reflete nos seus livros.
"Não sou a pessoa que era há dez anos quando publiquei o meu primeiro livro e isso reflete-se no que escrevo e também naquilo que escolho ler. Acho que agora me demoro mais, observo mais, deixou de existir aquele impulso de querer falar de tudo, saber de tudo, estar em tudo, desejar que as coisas aconteçam ontem. E deixei de ter pressa com as personagens, dou-lhes tempo, deixo-as andar sem saber para onde vão, sem pressa de as resolver. Este é o meu quinto livro e é o primeiro com uma protagonista que tem filhos, o que provavelmente não é coincidência", conta, revelando que o processo de escrita se tornou, por força do hábito, mais intuitivo, mas nem por isso menos exigente. Desmistifica, também, a ideia de que o já longo percurso lhe valeu um lugar ao sol no panorama literário nacional.
"Quanto ao lugar consolidado, tenho dúvidas de que exista em Portugal. Cada livro volta a apresentar-se, é um livro novo, e é difícil perceber o que nos trará sendo tudo tão subjetivo. É verdade que olhamos para júris, prémios, bolsas, e tendemos a ver sempre os mesmos nomes, talvez esses tenham sido bafejados não só pelo talento, mas também pela sorte, e conseguido um lugar mais privilegiado, mas alguém como eu tem de arregaçar as mangas a cada projeto, sem garantias."
Em vez de confiar na sorte e de planar ao sucesso de cada livro, Susana prefere, por isso, acreditar na única métrica que não é falível: a da consistência e do trabalho. "Nunca duvidei da minha capacidade de trabalho, porque sou persistente, chata como tudo, e não desisto, mas nada disto é garantido. Escreve-se, corrige-se, insiste-se, e volta-se a insistir quando não acontece nada, quando não resulta, quando não presta e é preciso ir por outro caminho, por mais que seja duro aceitar isso. O percurso faz-se de um livro de cada vez, sem plano futuros e sem ilusões sobre como as coisas funcionam. Há portas que abrem mais depressa para determinadas pessoas, há nomes que circulam por razões que pouco têm que ver com o que escreveram, e há muito bom trabalho que fica pelo caminho por falta de quem o defenda. Isso não me tira o sono, felizmente, mas não vale a pena fingir que não existe."
Com as tiragens pequenas, direitos de autor ínfimos, as dificuldades que os escritores nacionais enfrentam podem tornar-se hercúleas - "um livro que corra bem não paga um ano de vida" - ao que acresce o curto tempo de vida de cada obra numa livraria, devido ao atropelo de publicações. A instabilidade está presente em todos os dias, o que faz Susana temer, de alguma forma, perder a paixão. No entanto, a autora prefere continuar a acreditar nos leitores que contrariam a tendência de um consumo acelerado e se deixam embrenhar por uma boa história. "Não sou pessimista, acredito em leitores exigentes e fiéis, mas é preciso trabalhar o dobro para lá chegar, porque são inúmeros os obstáculos."
Problemas que combate com resistência, trabalho, mas também um profundo equilíbrio com a vida pessoal, que passa pelos pequenos prazeres que ajustam a balança da vida. "Comer queijo. Comer salame. Beber café. Praticar Muay Thai. Dizer disparates e rir-me deles. Sentar-me num carro num dia de inverno, com um casaquinho de malha pelas costas e um caderno. Desfrutar de uma tarde de praia com baldinhos, geleira e areia no cabelo. Comer gelados. Comer arroz de marisco. Segurar um livro. Se o verbo comer aparecer muitas vezes, corta-o na edição da entrevista."