Arnaud Denis tinha 43 anos e ainda muito para dar aos palcos franceses. Ator, encenador e dramaturgo, construiu uma carreira sobretudo no teatro. A sua vida profissional, contudo, acabou por ficar marcada por uma batalha pessoal que se prolongou durante os últimos três anos. Depois de uma cirurgia a uma hérnia inguinal, em 2023, o artista passou a relatar uma série de problemas físicos que, segundo dizia, transformaram por completo o seu quotidiano.
Foi depois de sucessivas tentativas para encontrar uma solução e perante um estado de saúde que considerava incompatível com a vida que queria levar que decidiu recorrer à eutanásia na Bélgica. Morreu esta terça-feira, 22, em Namur. Ao seu lado estava Delphine Depardieu, atriz e amiga próxima, que descreveu os últimos momentos do artista como tranquilos. Segundo contou, morreu “aliviado, quase com um sorriso nos lábios”.
Mas quem é Arnaud Denis? Nascido em França, começou a trabalhar no teatro ainda jovem e rapidamente passou a acumular as funções de ator, encenador e dramaturgo. Ao longo dos anos, esteve ligado a peças de autores como Molière e Shakespeare e assinou várias encenações.
Também teve algumas participações no cinema e na televisão, mas foi no teatro que encontrou o principal espaço para desenvolver a sua carreira. Foi nomeado três vezes para os prémios Molières, uma das principais distinções do teatro francês. A carreira estava, segundo pessoas próximas, numa fase de crescimento quando a sua condição física começou a limitar cada vez mais a sua actividade.
O ponto de viragem aconteceu a 17 de julho de 2023. Denis foi submetido a uma operação para tratar uma hérnia inguinal direita, durante a qual lhe foi colocada uma prótese de polipropileno. Nos dias e meses seguintes, começou a relatar vários problemas de saúde. Falava de dores persistentes e de sintomas que, segundo descrevia, afectaram profundamente a sua autonomia e a possibilidade de continuar a trabalhar.
Entre os problemas que mencionou estavam alterações urinárias e intestinais, perda de massa muscular, hipotensão, zumbidos e perturbações da visão. Para Arnaud Denis, existia uma ligação entre o agravamento da sua condição e a prótese. O implante acabou por ser retirado numa intervenção realizada nos Estados Unidos, mas a operação não significou o regresso à vida que tinha antes.
À medida que o seu estado se agravava, o ator começou a falar publicamente sobre aquilo que estava a viver. Dizia ter chegado a um ponto em que já não conseguia manter a vida profissional e social que tinha antes. Afirmava ainda sofrer de encefalomielite miálgica grave e descrevia uma existência cada vez mais limitada. A possibilidade de recorrer à eutanásia começou a ser ponderada neste contexto. Em janeiro de 2026, Denis já tinha revelado publicamente a intenção de morrer na Bélgica.
A escolha daquele país não foi casual. Em França, a eutanásia não é legal, enquanto a Bélgica dispõe de um enquadramento legal que permite, em determinadas circunstâncias e mediante critérios médicos rigorosos, recorrer à eutanásia. Arnaud Denis explicava que não queria esperar por uma deterioração ainda maior e que procurava manter algum controlo sobre a forma como terminaria a sua vida.
Pouco antes de morrer, Arnaud Denis deixou uma mensagem nas redes sociais que resumia a forma como encarava os últimos anos. “Morrer não é nada, o doloroso é não viver.”