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Mais do que um livro de memórias, é um ajuste de contas com Carlos! Todas as revelações do irmão da Princesa Diana e as culpas que são atiradas ao rei

No livro 'O Canto do Cisne', Charles Spencer, irmão mais novo de Diana, regressa aos acontecimentos mais marcantes da vida da irmã: do divórcio litigioso (e polémico) dos pais, que os privou da figura materna, à história de amor com Carlos – em que só a princesa estava apaixonada – o conde traça a espiral de dor e frustração em que Lady Di entrou, e que culminou com a sua morte, num trágico acidente em Paris.
Rute Lourenço
Livro de Charles Spencer traz revelações sobre Carlos e Diana
Livro de Charles Spencer traz revelações sobre Carlos e Diana Foto: D.R.

À semelhança do 11 de setembro, poucos serão aqueles que, quando a princesa Diana morreu, a 31 de agosto de 1997, com apenas 36 anos, não se recordarão do que estavam a fazer quando souberam que Lady Di tinha perdido a vida num trágico acidente em Paris. O choque e consternação foram gerais, com uma dimensão à escala planetária, que fez com que a notícia chegasse rapidamente aos quatro cantos do mundo.

Charles, o mais novo dos três irmãos de Diana, e que se encontrava a residir com os filhos na África do Sul, recebeu a primeira chamada pela noite dentro. Um antigo vizinho britânico alarmava-o com as notícias que acabavam de ser transmitidas na TV: ao que parece, a princesa tinha sofrido um grave acidente e havia sido levada para o hospital, o namorado, Dodi, e o motorista do Mercedes-Benz tinham morrido no local. Nada mais se sabia. Horas depois, era da família que o irmão receberia a confirmação. Diana não tinha resistido aos ferimentos. Era o início de um período de luto e saudade que, quase três décadas depois da morte da princesa de Gales, Charles decidiu passar para o papel no livro 'O Canto do Cisne', já nas livrarias.

Charles Spencer lança livro
D.R.
Charles Spencer lança livro

Mesmo antes da publicação, já a obra dava que falar pelas revelações que nela constam, porque ao passar em revista as memórias de Diana, é impossível que não se mexa numa ferida nunca totalmente cicatrizada. Para muitos, estas páginas são mais do que recordações, são um ajuste de contas, tanto com a imprensa/paparazzi, como com o agora rei Carlos III, que Charles não tem dúvida ter levado a irmã a uma situação limite. "O tópico escolhido pelos comentadores parecia ser o de que aquilo era o que acontecia a quem passava o verão a divertir-se de forma imprudente com um playboy", atirou no livro, recordando os primeiros comentários televisivos que ouviu aquando da morte de Lady Di.

A INFÂNCIA E O DURO DIVÓRCIO DOS PAIS

Antes de chegar ao confronto com o rei, o irmão regressa às memórias de infância de Diana, que ajudam a perceber não só o contexto em que cresceu, em Althorp, no condado de Northamptonshire, Inglaterra, mas também a mulher em que se tornou, com todas as suas forças e inseguranças. A princesa foi a terceira filha de um casal que aguardava a todo o momento por um varão e chegou à família num momento particularmente delicado: um ano antes, os pais haviam perdido um rapaz, John, poucas horas após o seu nascimento. "O casamento dos meus pais foi profundamente abalado pela perda de um filho. John, o primeiro filho varão, nasceu com graves malformações. Tinha seis dedos em cada pé e mão, uma fenda palatina e um orifício na parte detrás da cabeça. Sobreviveu apenas algumas horas. O meu pai não conseguia conter a emoção sempre que recordava os barulhos extraordinários que o seu minúsculo filho fazia quando chorava, dizendo que o pobre bebé parecia mais um animal do que um ser humano", recorda no livro, acrescentando que a o bebé foi imediatamente retirado da mãe, que nunca o chegou a segurar com vida no colo, numa decisão que impactaria todo o processo de luto e também um casamento, que já dava sinais de fragilidade.

Diana e Charles Spencer
D.R.
Diana e Charles Spencer

"A tragédia familiar corroeu o casamento dos meus pais ao mesmo tempo que a diferença de idades – ela tinha 18 e ele 30 quando se casaram- se acentuou."

Anos mais tarde, e já depois de a família estar completa com a chegada de Charles, o quarto filho, os pais avançariam para um divórcio litigioso por força de um episódio limite: a mãe tinha-se apaixonado perdidamente por um amigo comum. "A rutura deu-se em 1966, durante umas férias na neve com mais dois casais. A minha mãe e um dos maridos do grupo, Peter Kydd, apaixonaram-se. (...) A aventura evoluiu ao ponto em que dois adultos abandonaram os respetivos casamentos e começaram uma vida em conjunto", conta Charles, acrescentando: "Percebi por instinto que a minha mãe se tinha ido embora e que, por qualquer motivo, não voltaria para casa".

Diana em criança
D.R.
Diana em criança

Por essa altura, a mãe de Diana deixou a casa de família e durante seis meses esteve na Austrália com o novo companheiro, com quem refaria a vida. A situação foi configurada em tribunal como "abandono do lar" e teve mão pesada por parte do juiz com a guarda a ser atribuída ao pai, num momento que Charles admite ter deixado marcadas profundas, principalmente nele e Diana – uma vez que as irmãs mais velhas se encontravam em colégios internos – com os dois a unirem-se face a uma situação que acabou por os privar, em grande parte do tempo, da figura materna.

A PAIXÃO PELO PRÍNCIPE CARLOS

No entanto, essa infância já estava parcialmente arrumada quando Diana conheceu aquele que viria a ser o seu marido. Na altura, irradiava beleza e ultrapassara parte das inseguranças para se tornar numa jovem com carisma. Depois de, num encontro familiar, se ter sentado na mesma mesa que Carlos, transmitiria ao pai que tinha gostado do príncipe, com a relação a evoluir aos poucos: três anos depois, estavam a namorar.

Na altura, Diana era uma jovem idílica e sonhadora. Segundo uma das amas que a acompanhou, "a única ambição era apaixonar-se, casar e ter muitos filhos", sendo que Charles não tem dúvidas de que com o príncipe Carlos isso aconteceu: estava encantada. Já para a família real parecia ser uma 'win-win situation'. 

Diana e o Príncipe Carlos
D.R.
Diana e o Príncipe Carlos

"Faltava à realeza uma figura que fosse jovem e glamorosa e era necessário colmatar essa lacuna (...) Todos adoravam a ideia, ao estilo Cinderela, de uma educadora de infância casar com um futuro rei. Ao mesmo tempo, ela era extremamente bonita."

No entanto, rapidamente se percebeu que essa aura de encantamento se desvaneceria num estalar de dedos. Para Diana, a ilusão não durou muito e Charles dá conta de que a irmã tentou reverter o noivado, mas foi-lhe dito que era tarde demais. "Diana disse ao meu pai que não podia avançar com o casamento com um homem que claramente não a amava. O meu pai ficou estarrecido e disse que, no ponto em que estavam, era impossível recuar", lembra, acrescentando que, pouco antes do enlace, Carlos terá aberto o jogo com a mulher.

Diana e Carlos noivos
D.R.
Diana e Carlos noivos

"Só mais tarde descobri que o marido lhe tinha dito que ela precisava de saber que, embora se sentisse muito feliz por casar com ela, na verdade não estava apaixonado. Diana teve de suportar aquele golpe devastador juntamente com a certeza de que o príncipe Carlos entraria no casamento de ambos noutro lugar", disse, referindo-se a Camila.

A partir daí, nada voltaria a ser igual e os tumultos chegaram logo nos primeiros anos de casamento. A princesa não estava feliz, desenvolvia distúrbios alimentares e viveria numa ansiedade constante. "Ela contou-me que as dificuldades no casamento se manifestaram logo no início. Diana confidenciou-me que se chegou a falar de uma separação temporária, logo nos primeiros tempos, e que foram consultados especialistas no sentido de perceber que tipo de apoio terapêutico poderia ser prestado (...) Eu não fazia a menor ideia de que os problemas alimentares dela provinham, em parte,  do sentimento de não ser amada pelo homem que adorava", pode ler-se nas páginas do livro em que o conde lamenta o sofrimento contínuo a que a irmã esteve sujeita.

Princesa Diana
Princesa Diana Foto: Getty Images

"É triste saber que, nos seus últimos anos de vida, Diana tenha rumado mais do que uma vez a Beachy Head, a mais alta falésia de Inglaterra, com a intenção de pôr termo a tudo. Foi o amor pelos filhos que a impediu de ir mais longe."

O que começou mal culminaria, anos mais tarde, com o momento polémico, descrito no livro, em que a princesa revela ao irmão que vai avançar para a separação.

“Ela baixou os olhos para a mesa e disse: ‘Charles, vou divorciar-me’”, recordou o Conde Spencer. “Fiquei em silêncio por momentos. Sabia que as coisas estavam mal, mas não tão mal”, continuou, escrevendo depois o que lhe respondeu.

william, harry, diana
william, harry, diana

“Tens, claro, todo o meu apoio... sei que terás pensado bem nisto. Mas a minha principal preocupação é o público. Receio que não te perdoem. As pessoas acreditaram num conto de fadas e receio que possam injustamente culpar-te por destruíres essa fantasia’”, lembrou.

Foi então que Charles Spencer revelou a surpreendente confidência que Diana lhe fez. “Ela levantou os olhos para mim, acenou com a cabeça e disse baixinho: ‘Mas, Charles, o meu marido está apaixonado pelo empregado’. Engoli em seco. ‘Bem, nesse caso, acho que realmente não tens escolha’”, respondeu.

O divórcio só se efetivaria a a 28 de agosto de 1996, numa altura em que os dois já não faziam vida de casal, com a gota de água a revelar-se a entrevista polémica que Diana deu à BBC em que, entre outras coisas, contava que o casamento não funcionou porque eram três na relação, referindo-se a Camila Parker Bowles. 

"As consequências da entrevista de Diana foram enormes e quase imediatas. A rainha ficou tão chocada com o que Diana disse que, cinco semanas após a entrevista, insistiu para que Carlos e Diana se divorciassem." A Princesa do Povo perdia, então, o título de Sua Alteza Real.

AS DECISÕES POLÉMICAS DO FUNERAL

No tempo que se seguiu ao divórcio, o ambiente era de tensão com Diana, que tentava viver a sua vida livremente, com o último relacionamento amoroso a terminar tragicamente com o acidente em Paris. A princesa tinha passado o verão com Dodi, filho do multimilionário Mohamed Al-Fayed – proprietário do Harrods e do Ritz Paris – num romance que Charles Spencer admite ter trazido alegria à vida da irmã. "Dodi foi gentil com Diana e eles divertiram-se na companhia um do outro. As últimas imagens de Diana e Dodi, filmadas no elevador do hotel parisiense de onde saíram para o seu derradeiro e fatal trajeto de automóvel, mostram a atmosfera brincalhona e carinhosa que existia entre ambos", recorda.

Um mar de flores em homenagem a Diana
JEROME DELAY / AP
Um mar de flores em homenagem a Diana

A morte trágica de Diana deixaria, de seguida, o mundo em choque e a família e a Casa Real com uma série de decisões a tomar em relação ao seu funeral. No entanto, desde cedo que se percebeu que a ponte entre a família e o príncipe Carlos não seria fácil, uma vez que, de acordo com o irmão de Diana, ambos viviam sentimentos opostos, o que terá ficado visível desde o primeiro telefonema.

"Ao contrário de todos os que me tinham telefonado até então, que estavam atordoados e mal conseguiam exprimir as suas condolências e ofertas de ajuda, Carlos pareceu-me eufórico e exultante – como se tivesse ganhado a lotaria, pensei na altura. Comunicou-me que tinha informado William e Harry da morte da mãe, de manhã cedo, nos respetivos aposentos de Balmoral. Tudo me pareceu estranhamente prático e objetivo tendo em conta a gravidade do desastre. Em retrospetiva, suspeito que a primeira reação do príncipe foi pensar que aquele acontecimento poderia libertá-lo para se casar com a mulher que amava em vez de lamentar a perda de alguém que não amava."

Mas a tensão não se ficaria por aqui. Quando debatiam os trâmites das cerimónias fúnebres, as partes divergiram por causa da participação de William e Harry no momento final de Diana. "Durante uma das conversas telefónicas, o coronel Ross (que fazia a ligação com a família) parecia prestes a desligar quando acrescentou: 'ah! Mais uma coisa. Foi decidido que os dois jovens príncipes caminharão atrás do caixão da princesa'. 'Bem, isso não vai acontecer', respondi em tom pragmático. A essa altura, já sabia que Diana me havia nomeado tutor dos seus filhos. 'Lamento, mas isso não vai acontecer. Diana nunca teria querido sujeitá-los a algo tão horrível'", recordou o Conde Spencer, adiantando que, pouco depois disso, receberia uma chamada do ex-cunhado em fúria.

Príncipe Carlos com os dois filhos nas exéquias
DAVID BRAUCHLI / AP
Príncipe Carlos com os dois filhos nas exéquias

"'Pode ter a certeza de que será esquecida em breve por todos nós', pronunciou com voz sibilante", diz, numa das revelações que estão a chocar o mundo, e que entretanto foi desmentida pelo Palácio. "Fiquei tão atónito que demorei alguns segundos a responder. 'Não posso acreditar que acabou de dizer isso', disse, num tom seco, e desliguei."

Mais tarde, o coronel voltaria a ligar-lhe com a decisão final sobre o assunto. "'Boas notícias! Os príncipes William e Harry decidiram que querem caminhar atrás do caixão da mãe desde que o avô, o príncipe Philip, caminhe ao lado deles'", disse, numa antevisão daquela que viria a ser uma das imagens mais fortes do funeral de Lady Di.

O SOFRIMENTO DE HARRY

Do momento do funeral, há várias recordações que jamais abandonarão Charles Spencer, mas a mais marcante será a do sobrinho Harry, que tinha apenas 12 anos, a caminhar absolutamente destruído atrás do caixão da mãe. "Era impossível para mim superar o ar pequeno, franzino e desamparado de Harry. Era demasiado pequeno para estar a fazer aquilo", diz, acrescentando que William, mais velho, parecia estar mais sólido naquele momento.

William e Harry nas cerimónias fúnebres
DAVID BRAUCHLI / AP
William e Harry nas cerimónias fúnebres

Já depois das exéquias, e na viagem de regresso a casa, Charles recorda o abandono a que aquelas crianças foram votadas, longe de um cenário afetuoso que precisavam naquele momento.

"A minha principal memória dessa viagem de comboio foi a preocupação com a falta de cuidados para com Harry. Ele precisava dos abraços de Diana, que lhe haviam sido negados para sempre. Penso muitas vezes que um apoio afetuoso naquele tipo de situação poderia tê-lo ajudado muito no futuro. Em vez disso, ele parecia sentir-se extremamente só no seu desespero e tormento."

O EPISÓDIO ACERCA DAS ORELHAS DE CARLOS

Num livro que pretende recordar a fragilidade de Diana, acentuada pela pressão mediática e um amor não correspondido, há também espaço para algumas curiosidades que, se não fossem tão estranhas, poderiam até ser cómicas, como o momento em que a rainha ponderou operar as orelhas do filho, ainda em tenra idade.

Carlos e Diana
Getty Images
Carlos e Diana

"Ao que parece, o príncipe Philip ter-se-á inteirado de que a rainha estava a ponderar pedir a um médico que corrigisse ligeiramente as orelhas de Carlos. A sua proeminência tornara-se alvo de troça na escola e levara-o a ser ridicularizado nos meios de comunicação social. Philip não só impediu que a intervenção médica continuasse a ser ponderada, como mandou operar as orelhas de um dos cães da rainha."

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