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“Já lá tenho o capacete, queres que eu leve?”. A linguagem usada no 'Uber da droga' e as novas revelações de como e onde era feito o negócio com os famosos

"Bitolas", "traz-me coiso", "prepara-me duas"... As descrições sobre a linguagem utilizada entre os traficantes e os clientes do 'Uber da droga', descritos na sentença à qual a FLASH! teve acesso são uma viagem ao mundo da dependência química. MDMA e cocaína eram das substâncias mais pedidas
Por João Bénard Garcia | 10 de junho de 2026 às 16:42

Continuam as revelações sobre como era operado o negócio do  'Uber da droga'. E a culpa desta rede de tráfico de droga que supostamente se criou a partir do ano de 2022 do bairro de Campolide, em Lisboa, na morada do casal Nuno e Maria, foi... - vejam lá se adivinham, pois é das mais surradas dadas como desculpa - da Pandemia da Covid-19!

A rede era encabeçada pelo ex-triatleta e surfista Nuno Ricardo Santos, pelo guineense Leonel Nhaga, pela mãe de Nuno, Lucinda de Santos, e pela nora desta, a hospedeira da TAP, Maria L..

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A mãe de Francisco, o filho de 10 anos de idade que Maria e Nuno colocaram a estudar no Lycée Français Charles Lepierre, na zona das Amoreiras, teve, em 2022, menos voos na TAP e ficava mais tempo em casa, mas sem nunca perder os quatro mil euros de ordenado que aufere como hospedeira de bordo na companhia aérea nacional. Já Nuno Ricardo Santos ficou desempregado do ramo da cosmética e do imobiliário, apesar de tirar 1.500 euros de arrendamentos de dois imóveis da família, e foi aí que voltou a consumir de forma continuada e a traficar as drogas que entregava no domicílio dos clientes, ao estilo de sistema Uber, com o alegado apoio logístico da sua mãe, Lucinda dos Santos, e do sócio Leonel Nhaga.

Apesar de o casal coabitar num T3 comprado em Campolide e de ter despesas fixas de 1.800 euros mensais, sendo as propinas do colégio privado francês do filho pagas e contabilizadas à parte, Nuno Ricardo, que acabou de ver confirmada pelo tribunal uma pena efetiva de cinco anos e seis meses de prisão efetiva, terá alegadamente percebido que havia mercado para este tipo de operação ilícita e montou a sua rede de nicho de distribuição de drogas, na sua maioria sintéticas, porta a porta, supostamente sem dar nas vistas. Mas deu. E foi investigado. Durante cerca de ano e meio pelos inspetores da Polícia Judiciária (PJ), com amplo recurso a escutas. Um meio de prova essencial nesta tipologia de crimes.

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Pelo meio das escutas apareceram naturalmente nomes de figuras públicas e intercepções de conversas com algumas das mesmas que levantaram suspeitas aos investigadores. Atenção que nenhum famoso ou outro tipo de clientes habituais, como médicos, empresários ou engenheiros, como escreveram jornais como o 'Correio da Manhã', foi constituído arguido neste processo. Aliás, dos quatro arguidos iniciais, Nuno, Leonel, Lucinda e Maria, apenas o primeiro vai cumprir prisão efetiva, as duas seguintes foram condenadas mas com penas suspensas. A companheira de Nuno, Maria L., foi ilibada da prática dos mesmos.

TODOS OS NOMES DADOS AO TRÁFICO DE DROGA E OS ARREPENDIMENTOS

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As autoridades policiais apuraram que, pelo menos desde Agosto de 2023, terá começado a atividade criminal reconhecidamente empreendida por Nuno, Leonel e Lucinda, os três arguidos condenados. A prática criminal só cessou com a detenção de Nuno Ricardo Santos, do sócio Leonel Nhaga e da mãe do primeiro, Lucinda. Sentaram-se pela primeira vez frente a frente com que os acusava de terem "acordado entre si, de forma organizada e com regularidade, e em conjunto e em comunhão de esforços, proceder à aquisição e venda de cocaína, de MDMA, 2C-B, LSD e de cetamina a terceiros, com vista à obtenção de lucro" e que, para atingir esse fim, "elaboraram um plano que consistia em proceder à distribuição dos referidos produtos a indivíduos que contactavam telefonicamente o arguido Nuno, com esse propósito.

O tribunal também apurou que Nuno Ricardo "tendo mais tempo livre, veio, no decurso de 2022, no contexto da frequência de um novo ginásio a conhecer novo grupo de amigos, com quem passou a sair e conviver de modo cada vez mais regular, vindo com estes a aprofundar hábitos de frequência a festas e eventos de música electrónica (bastante frequentados pelo ex noivo da SIC, o sesimbrense Tiago Estevam Jaqueta, que passou a ser presença assídua, por exemplo, no BOOM Festival, em Idanha a Nova) e a iniciar consumos recreativos de psicadélicos em particular MDMA, alargando significativamente a sua esfera social", explicando a investigação policial como uma coisa levou a outra e as duas juntas desencadearam a prática criminosa: "Na medida em que dispunha de conhecimento de pares e contextos associados a tráfico/consumo, alicerçados no seu passado, conseguido obter preços mais favoráveis, o arguido passou a adquirir estupefacientes inicialmente para consumo próprio e mais tarde para ceder e depois para vender a terceiros, processo gradual descrito como motivado não propriamente por necessidades financeiras, mas pelo sentimento de pertença e reconhecimento obtido".

Tiago Jaqueta, Dina, Casados à Primeira Vista Foto: Instagram
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O sentimento de poder e reconhecimento que o tráfico de estupefacientes terá tido ainda origem no facto de ter "passado a beneficiar de um estatuto privilegiado junto de pares e amigos, alguns figuras mediáticas, vivência referida como socialmente gratificante, passando a aceder a contextos de convívio e lazer de forma diferenciada e exclusiva, sentindo-se conhecido e respeitado", terá argumentado em sua defesa, recordando como no passado, na adolescência vivida com os avós maternos na Zona de J de Chelas, consumia haxixe.

"O arguido salienta ter tido desde cedo aversão e sentido crítico face ao uso de estupefacientes, reforçado pelo facto do seu pai (que aos 17 anos matou à queima roupa num contexto de drogas e violência doméstica) ter sido toxicodependente, valorizando antes desporto e a vida saudável", recordou perante o coletivo de juízes e assumindo ter "experimentado haxixe na juventude, iniciou consumo de outros estupefacientes a partir de 2022, em particular hábitos de consumos de MDMA em contextos de saídas recreativas e de cocaína, maioritariamente no domicílio, consumos que avalia hoje com maior sentido crítico, reconhecendo os riscos associados".

Marta Gil e José Carlos Pereira Foto: D.R.
José Carlos pereira Flash
Marta Gil Flash
José Carlos Pereira, ator, Zeca Foto: D.R.
Marta Gil, atriz Foto: Instagram
José Carlos Pereira Foto: Instagram
Marta Gil Flash
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Tendo a mãe Lucinda a suposta responsabilidade de tomar conta da "casa de recuo", fazia "parte do plano as conversas mantidas nos contatos telefónicos, os arguidos Nuno, Lucinda e Leonel acordavam entre si, ou com os respetivos clientes, detalhes relativos às transações de cocaína, MDMA, 2C-B, LSD e cetamina, nomeadamente: tipo, quantidade e qualidade do produto, preços, locais, horas de entrega, utilizando nessas conversas, linguagem codificada", que foi exposta com detalhe no tribunal, com recurso ao conteúdo das escutas.

"Assim, os arguidos Nuno, Lucinda e Leonel e os seus interlocutores utilizaram, a título de exemplo, as seguintes expressões: “Bitolas”, “traz-me coisas”, “cem”, “diferente”, “o normal”, “2 g´s”, “2”, “eu desloco acima de três”, “tens quarenta de troco?”, “vou ter ao pé do parque”, “faz-me um favor passa, mando-te aqui uma location”, “traz coiso também”, “vem ter comigo às Amoreiras”, “não posso ir agora, combinamos à hora de almoço”, “vai lá ter à bomba”, “tou pertinho das Amoreiras”, “de 100 percebes?”, “100”, “o que tu queres é aquilo, o normal de sempre, não é?”, “é 2 g”, “já lá tenho o capacete, queres que eu leve?”, “vem ter comigo às Amoreiras”, “olha uma cena, pode ser código?”, “tou no Maria Pia 421”, “Já passo aí”, “preciso de um saquinho!”, “passa aqui em casa”, “querido manda a tua morada… quanto é que é?”, “ok prepara-me as duas.”, “tás-me a dever cem”, “quanto é que custa a keta?”, “normal”, “coisas diferentes”, “3 bitolas”, “como é que tu fazes entrar as cenas aqui para o brunch?” para se referirem à cocaína, MDMA, 2C B, LSD e cetamina, aos preços destes produtos e combinarem encontros tendentes às transações dos mesmo", descrevem nos autos a que a FLASH! teve acesso. 

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Quem disse em tribunal, na qualidade de testemunha, não entender a linguagem foi a atriz e comentadora de reality shows Marta Gil.

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