Quem é Inês Marinho, a ativista que vendeu cancro e hoje luta contra os abusos sexuais e denuncia nomes e rostos de homens violadores da privacidade
Aos 15 anos teve cancro, derrotou-o mas perdeu o namorado, que não aguentou o processo. Aos 21, viu a sua intimidade exposta nas redes sociais. Hoje, batalha pela mulheres vítimas de abusos por imagemA ativista pelos direitos da mulheres Inês Marinho, de 27 anos de idade, utiliza os seus perfis nas redes sociais para denunciar abusadores de mulheres e menores, exibicionistas e agressores que expõem vídeos íntimos com mulheres online.
Em 2020, depois de meses antes ter sido vítima de um crime online, criou com um grupo de mulheres vítimas a página 'Não partilhes', que atualmente é seguida por quase 60 mil pessoas no Instagram. No seu Instagram pessoa, com 91,3 mil seguidores, Inês Marinho não só expõe caras, nomes e até vídeos sem ocultar o rosto de homens com comportamentos desviantes, socialmente condenáveis e criminosos para com o sexo feminino ou para com crianças.
A origem deste ativismo da jovem nascida na Figueira de Foz, que aos 15 anos teve um cancro e foi abandonada no final do tratamento pelo então namorado devido à sua situação de saúde, surgiu quando, aos 21 anos, em finais de 2019, descobriu que andava a circular, em várias plataformas online, um vídeo íntimo seu partilhado sem consentimento.
O crime de que foi vítima, e que teve a coragem de tornar público, andava a ser partilhado em grupos do Telegram, Reddit e Twitter. Antes disso, já tinha tido conhecimento de haver homens a partilhar na Internet as fotografias em biquini que publicava nas redes sociais. Tudo sem cara ou nome ocultado, todas roubadas do seu perfil. Por ter sido uma das muitas vítimas de violência sexual baseada em imagens (VSBI), pessoas que veem a sua vida privada e intimidade a ser exposta online todos os dias, decidiu ser tempo de criar uma associação com a finalidade de consciencializar a sociedade para os crimes de partilhas indevidas.
INTIMIDADE EXPOSTA NAS REDES, CRIME SEM CASTIGO
Inês já deu várias entrevistas televisivas e na imprensa escrita, participou em podcasts e nessas intervenções explicou a origem do seu ativismo contra abusos, em especial o de maior gravidade e impacto que sofreu em finais de 2019. "A primeira sensação foi de pânico, ansiedade. Era impossível de me identificar, não tenho tatuagens e não aparecia a minha cara, mas aparecia o meu nome em cima", revelou num entrevista à revista online NiT, confessando que teve a sensação de que lhe estavam "a tirar o tapete dos pés". "Fiquei meio perdida, percebi que já me tinha saído das mãos. Falei com a minha família e amigos mais próximos e fiz várias queixas, sabia que aquilo não era certo", remata.
Apoiada sempre pela família, avisada pelos pais de que esse ato era crime, afirma não só denunciou junto das autoridades como teve de aprender a viver com a situação. Inês não esquece as centenas de comentários, que diz terem sido horríveis, que leu. A agora ativista contra a violência sexual baseada em imagens apresentou várias queixas, mas as denúncias acabariam por ser arquivadas, tal como acontece com muitas queixas de milhares de mulheres na mesma situação.
Como forma de minimizar a dor que sentiu, Inês foi adicionada num grupo com outras raparigas que estavam a passar pela mesma situação. Foi aí que surgiu a ideia de criarem uma página no Instagram com frases e informações sobre o abuso sexual com base em imagens. "A página teve um grande 'boom' logo no início. Começámos a ter muitas pessoas a pedir ajuda, a contar a sua história", revelou na mesma entrevista à publicação. Em 2021 a página virou grupo legal e formal (Associação Não Partilhes) e recebe todos os meses milhares de denúncias de abusos.
O CANCRO, OS DRAMAS E O NAMORADO QUE A ABANDONOU
Mas a vida desta jovem que revelou no podcast do Expresso 'Tenho cancro. E depois?' que antes do diagnóstico era "uma adolescente com pensamentos derrotistas e até suicidas". Após o diagnóstico, percebeu que afinal não queria morrer. E fez tudo para se agarrar à vida e sobreviver à doença, apesar de ter perdido um namorado que a deixou. "Ainda não tinha resultados se estava sem cancro e o meu namorado já tinha desaparecido. Esperou, para não me deixar quando estava doente". Questionada na mesma edição sobre se "ter um cancro é duro na vida adulta, como é ter na adolescência?", Inês respondeu: "Estar fechado num quarto de hospital, entre mil exames e tratamentos. Perder festas, noitadas e passeios entre amigos. Viver o primeiro amor à distância, com o peso do cancro".
Aos 15 anos, Inês Marinho reparou que tinha um inchaço na clavícula, foi diagnosticada, tratada e sobreviveu. Hoje conta os dilemas, as dificuldades e as alegrias que viveu durante o cancro. Apesar da gravidade da situação, considera que foi a melhor fase da sua vida.