Houve um tempo em que a Kizomba também era conhecida por Zouk Love. Invenções importadas da África equatorial, que por sua vez ia sugar o melhor das Antilhas e lhe aplicava o dengo do calor africano. Não era Semba, nem Coladera, nem nada. Era Zouk. Zouk Love. Mais lento, mais rebolado – 1-2-3, 1-2-3, vai, roda – cujas letras falavam sempre daqueles mesmos temas universais: o amor, a traição, a obsessão, a impossibilidade de amar, o desejo... E por aí fora.
Escutava-se e dançava-se em boîtes africanas frequentadas por aqueles que mantinham a nostalgia da "colónia" (sentimento devidamente "escondido" pois até parecia mal...) e por aqueles que gostavam simplesmente de dançar, uns mais intelectuais que outros, uns mais carentes que outros, cada qual com suas motivações.
Quando os Irmãos Verdades tomaram conta das festas de verão deste país, com o tema ‘Yolanda’, alguma coisa começou a crescer neste Portugal cheio de preconceitos. Então não era que a música mexia com o povo que escutava e dava vontade de agarrar no marido e levá-lo para o meio da pista, e seguir o ritmo.
Calma, aqui não vamos falar sobre o crescimento da Kizomba, o surgimento do Kuduro e a sua massificação. Vamos falar de sentimento. Do momento da "viragem", do "já não há volta a dar a isto". Aconteceu com um senhor (um miúdo) chamado Anselmo Ralph quando gravou um raio de uma música que mexeu com o coração de mais de meio Portugal. "Não me toca" dizia tudo sem dizer nada. Era simples: "deixa ir, deixa ir, deixa ir", como se escutava em fundo. E foi o que se fez: deixou-se ir.
E Portugal voltou a sorrir e a suspirar lá do fundo do coração. A sentir um rosto colado no pescoço, um respirar junto... Nem que fosse só um bocadinho – o que durasse a música, "deixa ir..." Não é que Toy não tivesse já escrito sobre tudo aquilo, Ricardo Landum (o letrista escondido de Tony Carreira e tantos outros cantores de sucesso) feito de tantas emoções canções de sucesso... mas às palavras juntou-se a ginga necessária. E não é que o "animal acordou"?! Hoje, grande parte do sucesso de novelas líderes como ‘A Única Mulher’ e, agora ‘A Impostora’ devem-se não apenas à nostalgia das paisagens africanas (que os portugueses mesmo sem terem conhecido nunca esquecerão) mas à banda sonora.
A mesma que fez palpitar corações em programas como ‘Dança Com as Estrelas’ ao ver o corpo de um Pedro Teixeira deslizar num ritmo quente. Música também é sonho, logo, é felicidade. Por isso, dancemos. Muito e com muito prazer de preferência. Faz-nos bem sentirmo-nos felizes.