As novas tecnologias têm sido aceites com uma euforia otimista pelas forças policiais que tendem a separar-se o combate ao crime em dois mundos. O tempo dos polícias do telefone fixo e o tempo dos polícias do telemóvel. E com este tratado de Tordesilhas sobre os limites do tempo pretende dizer-se que esta ‘nova’ polícia é a superação qualitativa da ‘velha’ e decadente instituição. É um discurso perigoso. As populações são indiferentes a estas competições e representações de força e modernidade. Aquilo que esperam é que cumpram as obrigações de segurança, de assegurar a tranquilidade pública, de prevenção e repressão do crime. Os meios pouco interessam, desde que cumpram as leis da República.
É verdade que não faria sentido as polícias não aproveitarem a grande revolução técnico-científica que cruza os nossos quotidianos. É uma profunda e estruturante transformação que abre o mundo, através das redes sociais e da internet, dos telemóveis e dos ‘tablets’ que computoriza a memória, que agiliza e torna mais veloz o controlo sobre o tempo e sobre o espaço. Todos, polícias e cidadãos, têm a ganhar com o incremento das novas tecnologias para melhor servir as funções e as competências que lhes estão confiadas.
Dito isto, é necessário ter presente que a função social das polícias apenas se cumpre na relação de proximidade com as pessoas. Gente que necessita de socorro, de pode viver em sofrimento, que tem o direito à proteção de proximidade que decorre da relação entre instituições e população. Que nenhuma máquina, por mais sofisticada que seja, pode substituir com vantagem a palavra, a voz, a mão de quem pode ajudar e tem o dever de proteger. Que as máquinas podem substituir os mecanismos mais lógicos do pensamento mas não substituem os afetos nem os consegue representar. Nenhum SMS substitui um abraço. Nenhum e-mail seca lágrimas dos rostos de quem sofre. Por esta razão que sugira que não se parta a vida, já tão difícil, em mundos antigos e modernos. É urgente que a memória e a memória-ram sejam complemento e não fronteira. Para que as comunidades e as pessoas possa sonhar a felicidade.