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Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto

Notícia

Tropeçar na vida

Disseste-me que só te apaixonavas por mulheres cujo nome começasse pela letra L e eu pensei, sorte a minha, que fui batizada com o nome da tia avó Luzinha.
22 de outubro de 2019 às 16:09
café vá-vá, alvalade, restauração, lisboa
café vá-vá, alvalade, restauração, lisboa

Há quanto tempo andamos a tropeçar na vida? Os miúdos ainda eram pequenos, os teus e os meus, que nunca foram os nossos. Eu com dois rapazes, tão diferentes, o Duarte e o Pedro e tu com três raparigas, tão parecidas, a Luísa, a Leonor e a Laura. Disseste-me que só te apaixonavas por mulheres cujo nome começasse pela letra L e eu pensei, sorte a minha, que fui batizada com o nome da tia avó Luzinha. Na verdade, sou Maria da Luz, na minha geração somos quase todas Marias ou Anas antes de qualquer outra coisa. Por exemplo a minha melhor amiga é Ana Rita, deixou cair o primeiro nome e ontem esteve duas horas a trocar mensagens comigo para me meter juízo na cabeça. Não sei há quantos anos anda nesta missão, tantas vezes impossível, mas soldado que é soldado nunca abandona o seu posto, a Rita também nunca larga o osso, sobretudo quando se trata da verdade.

A Rita não gosta de ti. Acha-te convencido e pretensioso. Também te acha interessante e inteligente, reconhece que tens charme e umas quantas qualidades, mas o que é que isso interessa se pouco ou nada me ligas, se tens outra vida, se quando estive internada durante uma semana, nunca me foste visitar? Lembro-me da Rita a entrar disparada na enfermaria dos cuidados intensivos fora do horário de visitas comos e fosse chefe de serviço, com um banco na mão que roubou de um canto qualquer, eu rodeada de máquinas que apitavam e desenhavam o ritmo do meu coração e tu a mandar mensagens às quais me era difícil responder por causa da medicação intravenal e o diabo a sete, e a Rita a rosnar baixinho:

- Mas esse filho da puta não consegue ter tomates para cá vir? O gajo não mora em Vladivostok, nem sequer no Porto, está aqui ao lado, em Alvalade, que grande palhaço. 

Eu ria-me e relevava, respondi que talvez te fizesse confusão o caos do piso da Neurologia, tão parecido com o set de Voando Sobre um Ninho de Cucos, tanta gente ali ao gritos, a gemer, explodindo o seu desespero em queixas e gemidos, e outros mais calados, quem sabe à espera de nada ou à espera da morte, que pode ser a mesma coisa. A Rita foi quase todos os dias visitar-me, trazia-me revistas para me distrair a vista, a minha cabeça estava chocha para leituras mais profundas. Nessa época namorada com o Vasquinho, que entretanto foi viver para a Califórnia e se atrelou a uma criadora de cavalos milionária que o contratara para trabalhar no rancho. 

- Aquilo era pau para toda a obra – desabafou a Rita quando percebeu que os seis meses de contrato nas Américas se tinham transformado num acordo de amantes, ela velha e rica, ele novo e remediado, e vários cavalos para desbastar e preparar pelo meio. 

- Ao menos a velha paga-lhe tudo, até o percebo, agora este palhaço, já te deu algum presente?

Fui obrigada a responder que não, a mesma resposta há cinco anos no hospital e agora. Nem um presente, tirando alguns chocolates e um ramo de flores, logo no início, quando começámos a tropeçar um no outro como se não houvesse amanhã.

Existe um tempo para tudo na vida e o tempo desse idiota devia acabar, corta-lhe a cabeça e manda-o à merda antes que isto dê cabo de ti. Mensagens e mais mensagens do meu grilo falante de serviço, soldado que guarda o meu coração desde o tempo em que éramos miúdas e íamos beber café ao Vavá. 

Tu também andavas por lá, ainda tinhas os dentes tortos, talvez por isso fosses sopinha de massa, o cabelo sempre demasiado comprido e as calças demasiado curtas porque crescias demasiado depressa, mas agora dou comigo a pensar que por teres crescido tão depressa por fora, nunca chegaste a crescer por dentro. É comum aos homens faltar-lhes uma peça, que pode entrar até aos 30, ou entrar torta ou nunca entrar, e a ti nunca te entrou. Ou não andavas há cinco anos a brincar com o teu e o meu coração e a tropeçar na vida, confiando sempre na sorte e no meu bom coração. 

Tropeçar não é cair, mas quem sabe um dia destes te prego uma rasteira que vais de nariz ao chão e se partires os dentes, fica cioso outra vez, como quando tinhas 19 anos e as miúdas nem olhavam para a tua cara.

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